Eles precisam brincar

 

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Na fase adulta fica muito nítida a importância das relações humanas na percepção individual de quem somos. É através delas que “literalmente” tocamos na nossa matéria “bruta” e começamos a lapidar o que está sobrando, o que está distorcido, o que está camuflado, o que está acanhado, o que está constrangido, o que está neurótico, o que está ferido… Enfim, o que está “doente dentro de nós”.

Quando estamos no convívio, temos uma dimensão mais real da nossa verdade instintiva. Durante algumas etapas da minha vida, eu me definia como uma pessoa que “amasse” o ficar sozinha… Foi quando me dei conta do quanto era difícil enxergar algumas atitudes/ou ausência delas quando estava em grupo. Então, era mais uma fuga do que “simplesmente” uma opção.

Hoje, são inegociáveis os momentos que posso estar comigo apenas, luto por eles com unhas e dentes, se precisar até rosno, mesmo que ainda tenha alguma “fuga” em cena consinto com consciência.

Dei um passo consciente na minha verdade instintiva.

Na diversidade provamos as nossas frustrações, os nossos preconceitos, as nossas limitações, o nosso narcisismo, a nossa intransigência, o nosso despreparo diante do saber, a nossa mesquinhez, a nossa covardia, a nossa ambição, a nossa competitividade, a nossa insignificância, a nossa inveja, o nosso medo, o nosso desamor. Tudo isso, ou para ficar menos doído, alguns deles, existem dentro de nós.

Refletindo sobre tudo isso, comecei a entender a importância do brincar na infância!

Como é urgente darmos condições para que nossos filhos brinquem enquanto ainda são crianças. Esta atividade lúdica oferece a eles a oportunidade de serem pessoas melhores consigo mesmas, desde pequenos, e com o próximo. É uma excelente dinâmica de grupo na construção da percepção de si  através da relação com o outro.

Brincando as crianças se misturam, se tocam, se conhecem, se transformam, e se definem.

Através do brincar aprendem a respeitar o espaço do outro, a compartilhar, a saber esperar, a enxergar alguém além de si mesmo, a buscar soluções diante de um problema, a defender o certo, a questionar o errado, a criar o que estar por vir, a perceber que ninguém é igual entre si, a sentir a rejeição e cultivar o amor próprio, a ter generosidade com a aprendizagem do outro, a construir com o próximo novas possibilidades, a acolher a própria ignorância e transformá-la, a pedir ajuda, a ajudar, a ter compaixão pelo sofrimento alheio, a ter um olhar amoroso diante da diferença, a entender um limite, a colocar o seu limite nas relações, a ser constante nas suas ideias, a se desculpar pelo seu erro, a aceitar uma desculpa, a ter confiança no seu Ser, a negociar com o seu egocentrismo, enfim, a aprender a ser Gente dentro de si, dentro das suas virtudes e fragilidades rodeados por um espaço ainda protegido pela ingenuidade.

Quando escolhi a escola para minha filha, hoje com 4 anos, priorizei, nesta primeira etapa, a pedagogia que tivesse o brincar como atividade principal na construção do aprendizado. Ela aprende muito brincando. Se suja muito aprendendo. Através da “densidade” da sujeira percebo o quanto ela se comunicou, saiu do lugar, se misturou, fez parte do todo, se encontrou e se perdeu dentro daquele novo dia, enfim, o quanto ela aprendeu, ainda que inconscientemente, sobre as dificuldades e facilidades de ser quem é.

Para mim esta é a base. A base emocional requer muito olhar. É preciso lutar por ela. É preciso que nos ensine Como desde pequenos. Sem ela, como sustentar uma conquista, uma alegria, uma derrota, um abandono, uma solidão, uma perda, uma doença, um “aparente” fim?

Encontrar-se consigo mesmo é mais real que poético, deveria ser disciplina obrigatória na formação acadêmica do indivíduo.

O que adianta estimular a mente se os pés não conseguem caminhar?

E o mais interessante disso tudo é quando me perguntam: Mas lá ela brinca?

Muito Não, pouca educação!

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(Filho): Mama…
(Nós, mães): Nãooo!
(Filho): Por quê?
(Nós, mães): Porque nãooooooooooooooooooo!

Não, por quê? Em sua maioria, nem nós mesmas sabemos. Tornamo-nos viciadas nesta proteção. O Não empregado sem critério torna-se um “Não histérico”. Descontrolado, sem conteúdo, sem rédeas, sem ponderação, enfim… Torna-se um Não sem educação.

O pedido fica censurado, os filhos à deriva de um ataque materno e Nós, distantes de rever uma rigidez que implora por misericórdia. Acho que estamos pouco abertas ao que está “desprogramado”, emocionalmente, dentro de nós para aquele momento. Então, nos protegemos através de um “falso” controle.

Acreditamos ter controle. Mas, para que mesmo?

Para disfarçar a nossa indisponibilidade. Estamos cobrando o nosso cansaço holístico através de “Nãos” repetitivos, insistentes e estridentes.

Nãooo queremos ver as coisas fora do lugar, nãooo queremos que o chão acumule mais papéis picotados, nãooo queremos que a piscina da boneca ganhe mais volume de água e alcance o piso do banheiro, nãooo queremos que os super- heróis entrem em ação, peguem suas espadas e voem pelos corredores, nãooo queremos que uma nova brincadeira seja sinônimo de demanda de atenção, nãooo queremos que o iogurte lambuze toda a roupa limpa, nãooo queremos que o bolo de cobertura solte farelos no sofá, nãooo queremos que as massinhas ganhem mobilidade e se instalem em nossa sola do pé, nãooo queremos que a tinta saia respingando por aí, nãooo queremos que uma nova pergunta nos faça entender que sabemos menos do que realmente sabemos, nãooo queremos que uma birra nos confirme  que a rigidez estressa, nãooo queremos que a curiosidade deles nos esgote mentalmente, nãooo queremos que o Ser criança nos desafie constantemente.

Na verdade, não estamos sabendo dialogar. Não estamos sabendo escutar. Não estamos sabendo acolher a flexibilidade dentro do educar. O Não contundente precisa ser empregado em situações de risco absoluto. Isso é lei. Mas, em todos os outros casos, precisamos manusear a elasticidade do Não.

Quando paramos e escutamos o nosso filho, estamos criando um vínculo de respeito com ele. Começamos a enxergar alguém além de nós mesmos. Estamos optando por um construir junto. Aliamo-nos à humildade na condição de aprendiz. Criamos uma nova possibilidade na transformação de antigos conceitos. Convidamos a nossa criança interna a entrar na roda.

Conquistamos um Não com respeito.
Um Não com educação cria filhos pensantes. Um Não com rigidez cria filhos adestrados.

O famoso Não, porque não… Terá o mesmo “adestramento” quando eles tiverem seus 15 anos?
Então, onde está o controle?

Quem precisa do limite?

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“É a última vez que vou falar, se fizer mais uma vez…”

Esta frase repetimos pelo menos todos os dias e várias vezes! Dissemos que é a última vez, quando na verdade, estamos criando mais uma possibilidade para que volte a ocorrer… Isso é o cúmulo da insegurança. Do dizer para si mesmo: Será que sou capaz? Então vem a ameaça com tom educativo.

Uma mãe que deixou claro estar falando pela última vez, precisa terminar a frase no ponto final. Ali finalizou a última pirraça. Não tem mais repetições e se houver toma-se uma atitude, pois você fixou o limite. Quando eu me dei conta que a minha exaustão vinha pelo exercício de colocar limites, muitos, sem êxitos, entendi que este era o ponto a ser trabalhado de outra forma. As duas, mãe e filha, precisavam de limites claros.

Primeiro, identifiquei quais eram os meus limites como Mãe. E um deles ganhou muita transparência; Não estou disponível tempo integral para minha filha, sendo mais verdadeira, Eu Não Quero estar disponível em todos os momentos. Sim, é fundamental nos permitir a não querer. Percebi que estar todo o tempo com ela não me fazia sentir uma mãe melhor. Na teoria eu estava ali, mas na prática eu queria estar comigo, apenas.

Acolhi essa emoção.
Dei um passo na maternidade.
Evolui como mãe.

Dentro da evolução saudável, a criança chega a uma etapa na qual ela precisa começar a se conectar com ela mesma. A estar com ela, a brincar com ela. Mas para que isso ocorra, nós, mães, precisamos exercer o limite para que esta possibilidade possa ser real. Foi a partir desta certeza que criamos o “Momento da mamãe”.

Este “momento” não tem hora certa, acontece quando percebo que quero brincar com ela junto com o WhatsApp, ou tomando notas para o blog, ou lendo um livro. Ato Falho. Eu não estarei com ela. Estarei dando migalhas da minha presença. Esse foi o segundo limite que me coloquei como mãe: Não darei migalhas para minha filha. Isso, nos duas não merecemos. Não quero enganar a ela e, principalmente, a mim mesma.

Dei mais um passo na maternidade.
Evolui como Mãe.

O terceiro limite que, consequentemente, veio, foi ressignificar o sentimento de culpa. O sobrenome de todas as mães.

Como posso me sentir culpada por não ter uma vontade?
Como posso me sentir culpada por ser verdadeira?
Isso é ser muito cruel comigo mesma. Sinceramente, eu não mereço.

Eu não mereço ser a mãe que os outros querem que eu seja. Eu não mereço ser comparada. Eu não mereço ter que suprir a carência de outras presenças. Eu não mereço ser entendida no mundo apenas como mãe. Eu não mereço me definir como mãe através da cartilha social.

Também sou mulher. E quero, muito, compartilhar tempo com este Ser mulher. Quero conhecer esta mulher, cada vez mais. Esse foi o quarto limite que me coloquei: acolher a ausência de mãe enquanto mulher.

Dei mais um passo na maternidade.
Evolui como Mãe.

Depois deste divã, estamos as duas mais calmas, mais inteiras quando estamos juntas e quando estamos separadas.

Evoluímos como mãe e filha.

Atualmente, entendo que os limites com minha filha não funcionavam porquê era EU quem estava carente deles. Ela? Só precisava saber que existia a possibilidade de estar com ela mesma.

Empatia, praticamos?

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Acostumamos ir atrás deles munidas de lente de aumento quando o assunto é paternidade. Estamos atentas a tudo, principalmente, às ausências. Queixamo-nos disso. Da ausência. Tudo somos nós, e o velho hábito social continua, eles trabalham e nós somos Mães. Esse contrato de décadas, nunca fica démodé.

Entretanto, as mamães do SÉC XXI, Nós, estamos bastante reativas quanto a esse padrão. Queremos que a nomenclatura de Pai ganhe volume de tarefas domésticas, de consultas pediátricas, de madrugadas em claro, de atividades extracurriculares, de leituras sobre educação, de doses de terapias, de grupos de estudo, de improvisar piqueniques com amiguinhos, de preocupações diárias, de educar desobediências, de demanda de atenção infantil, de… Iniciativas! Isso, um volume de iniciativas.

Em todas essas atribuições nos sentimos, quase sempre, solitárias, pois eles estão firmemente cuidando do sustento, cumprindo com a parte deles, dignamente! E quando anoitece, eles se adiantam para ver o jogo e nós entramos no  turno da execução! Se pudéssemos congelar esse momento, perfeitamente veríamos um campo minado prestes a estourar. O aconchego da cumplicidade entra no ringue de quem está com a razão. E blá blá blá blá blá blá.

O certo é que tudo cansa. A rotina de quem cuida, de quem é cuidado, de quem sai, e de quem chega. Todos estão cumprindo tarefas, quase sempre, acumulando estresse, enfim, estamos em movimento. Porém, cada um quer brilhar na sua função e honrar com seus méritos. Nós queremos medalhas pela sobrecarga maternal e eles por entender que não estão sendo displicentes, pois o trabalho é uma função de ser Pai!

O trabalho é uma função de ser Pai!?

Ai vem a réplica:

_ E nós que trabalhamos e somos Mães?!

O diálogo tende a ficar comprometido por falta de empatia e criatividade. Por fim, o filho dorme e nós guardamos o uniforme de pai e mãe.

Silêncio.

Descanso.

Individualidade.

Agora ficou tudo em equilíbrio. Por poucas horas, mas não vamos desconsiderar.

Cada um só quer ser acolhido na sua fragilidade. E, aparentemente, o motivo parece cair sobre a criança.

Na rotina do dia dia, pais e mães estão se doando. Ligam o piloto automático e executam as demandas que surgem. Cada um na sua praia ou surfando na mesma prancha. Porém, no final do dia, queremos ser notados para que tudo faça sentido. Quando a lista chega ao final, só queremos que alguém cuide de nós. Nós deles e eles de nós.

Precisamos desenvolver a Empatia. Precisamos cruzar os olhares enquanto limpamos o cansaço do outro.

As terminologias pais e mães já estão carregadas de encurtamentos, preconceitos, desigualdades, rasuras… Enfim, de um passado, excessivamente, limitante. Se nos colocarmos no lugar do outro, acho que os “papéis” deixarão de ser fixos, consequentemente, desiguais, já que ora serei Pai e você, amor, Mãe.

o social aprisiona

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Qual a diferença entre educar dentro de casa e fora de casa? A presença do entorno social. Este convidado, em estado sempre de graça, é capaz de coibir as nossas certezas, de invalidar a nossa autenticidade e, até mesmo, de questionar o nosso papel como pais.

Que as pirraças ocorrem dentro e fora de casa não é novidade para nenhum de nós, porém a forma com que enfocamos a atitude do pequeno se diferencia. Quando estamos sendo observados, o Ego fica em estado de alerta e, consequentemente, logo arma a sua defesa. Ao menos, é nisso que ele acredita.

Então, nosso filho está brincando livremente com os amiguinhos até que uma palavra é dita: Porra!! Não sei se me expliquei o suficiente, porém foi minha filha quem a disse! No segundo seguinte, silêncio. Não fugindo à regra, repreendi a vocalização desta palavra. Enquanto a repreendia, em meus pensamentos passava: o que pensarão de mim, da nossa educação, da minha filha, será aceita? Serei aceita como mãe? Nesse momento, tudo fervilha, o sangue, a vergonha, a rigidez, enfim, o EGO! O segundo passo vem as explicações: Ela nunca falou isso! Não sei aonde aprendeu! Sim, damos satisfação para ver se colhemos uma penalização menor.

Durante esse espetáculo, minha filha seguia leve e sem nada entender. Ela simplesmente verbalizou uma palavra sem consumi-la. Naquele contexto genuíno, esta palavra poderia ser equiparada a qualquer outra, pois não tinha significado para ela. Era oca. Ela ouviu e reproduziu, sinal que seu desenvolvimento vai bem. E eu, a mãe, monumento soberano e em evidência, dizendo a mesmice de todas as mães em estado latente de insegurança: Isso é feio, não fale mais isso! Ela? Riu! Claro, ela está certa. Percebeu que chamou a atenção que queria, estava eu totalmente rendida e todos olhando para nós!

Nesse momento, a consciência entrou e ficou no contexto. Comecei a questionar minha contradição, sabia que aquele papel não era o meu. Não era a educação que eu entendia como adequada para essas situações, porém fraquejei diante do entorno social. Percebi que o que me preocupava era a imagem que ficaria na cabeça alheia e não em educar minha filha de acordo com os meus princípios. Provavelmente, ela voltará a reproduzir esta palavra, pois percebeu que o circo foi armado. No entanto, se tivesse acontecido dentro de casa, só entre nós duas, o EGO não teria ficado machucado e qualquer conversa no WhatsApp o teria acalmado.

Situações como esta se repetem constantemente em nosso dia- dia. Somos colocados à prova por eles, filhos e por eles, convidados transitórios. Porém, faz muito mais sentido para o filho quando percebe uma coerência na atitude dos pais, independente de onde estivermos. Acredito muito na educação dialogada, isso não significa abrir mão do seu posto de Pai e Mãe. Porém, se conseguimos tirar a conotação social das palavras e atitudes, o olhar já formado por tudo que vemos, ouvimos e falamos, atingiremos outro nível de educação. Permitiremos inovar, constantemente. Damos voz às heranças sociais recebidas, deixamos com que elas nos enrijeçam e nos aprisionem.

Equação matemática: Aprendi assim = logo agirei sempre assim. Errado. Isso empobrece nossa evolução. Precisamos validar o que pode vir para melhorar, com o nosso tempero e ousadia.

O fato já está consumado, porém dentro da minha ousadia me permito voltar no contexto e criar uma nova possibilidade para nós duas em conjunto com o nosso novo entorno social, Vocês.

Rebubinando a cena:

Fillha testando: Porra!
Mãe Autêntica: Palavrinha nova? Não a conheço!
Mâe Segura: O que quer dizer?
Mãe Educadora: Humm, prefiro a palavra brincar! Vamos brincar juntas?

Não consumimos a palavra, seguiu oca, sem sentido e, logicamente, sem importância.

normal,eu?

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Racionalizando o termo “Normal”, me da a sensação de que o diferente seria, em um primeiro momento, “Anormal”.

Mas, como definir, o diferente? Aquele que é diferente de mim, do meu vizinho ou do meu amigo? Percebo que somos, entre nós, tão desiguais. Analisando apenas o visual, um é alto, outro é baixo, e o terceiro, podemos considerar, na coluna do meio… Opa! Pensei haver achado um comportamento que pudesse fazer jus ao termo “normal”, mas foi uma cilada, chocolate! Há acentuadas discrepâncias quanto ao assunto entre nós.

Então, quem pegamos de modelo? Cadê ele? Nossa, ele deve estar bem escondido, simplesmente não o encontro. Todas as pessoas que vieram à minha cabeça, não se encaixam devido à diferença que trazem em seu DNA. E é ela que me atrai. É através dela que me percebo, aliás, que me ajuda a definir quem eu sou. Faz latir meus temores e irradiar meu sol. Viver na desigualdade pode ser um belo convite para conhecermos o nosso “avesso”.

Quando me deparo com o meu “avesso”, entendo que ainda preciso ver aquele que se move com uma perna só, para que eu possa correr mais rápido ao meu encontro, ainda preciso conviver com aquele que nada sem os dois braços, para que eu possa, de verdade, abraçar a minha vida, ainda preciso conviver com aquele que só tem duas peças de roupas, para que eu possa entender a simplicidade da vida, ainda preciso conviver com aquele que caminha quilômetros para chegar ao seu destino, para que eu possa exigir menos comodidade, ainda preciso conviver com aquele que não consegue se defender, para que possa entender que preciso agredir menos, ainda preciso conviver com aquele que não aprende com rapidez, para que eu possa perceber que a inteligência que tenho precisa de doses de humildade, ainda preciso conviver com aquele estrangeiro, para que eu possa valorizar o afeto que recebo, ainda preciso conviver com aquele que não enxerga, para que eu possa sair do escuro e enxergar as possibilidades ao meu redor, ainda preciso conviver com aquele que grita, chora, sente raiva, para que eu me humanize mais, ainda preciso conviver com aquele que é rotulado por apresentar um comportamento “fora do padrão”, para que eu possa me perguntar: acolho ou retribuo na mesma moeda o comportamento recebido? ainda preciso conviver com aquele que tem queimaduras pelo corpo, para que eu possa valorizar a elasticidade das minhas decisões, ainda preciso conviver com aquele que é feio, para que eu possa perdoar o feio que mora dentro de mim, ainda preciso conviver com aquele que foi diagnosticado com paralisia cerebral, para que eu possa rever meus atos mesquinhos diante deste ser missionário, enfim, ainda preciso de você para que eu possa aprender algo novo.

Sendo assim, como viver sem a diferença? Como? Na igualdade viveríamos dentro de uma bolha saturada. Dentro do homogêneo não há transformação, mas, sim, acomodação. Não haveria estímulo, limitados seríamos. Já na diferença, o “viver” limitado é apenas uma opção.

Eu não me considero “normal”, nem de frente, nem de costas, apesar de muitos quererem me “normalizar”. Bom, parece contraditório, mas como toda regra tem sua exceção, a única “normalidade” que eu faço parte é quanto ao não saber, ainda, lidar com toda esta diferença. Neste quesito, sou bem “normal”!! Mas, e Você?

relação legítima, avós e netos

Essa dádiva não fica clara quando é visível que os avós deixam os netos mais mimados, quando são permissivos em abundância, e, principalmente, quando são invasivos quanto à nossa maneira de educar. Eles são os representantes da diversão, do colinho aconchegante e, quase sempre, do tudo pode! Frases corriqueiras: _“Olha a balinha que a vovó tem para você” _ “ O batom de boca rosa bebê que combina com a sua blusinha”, _“Trouxe uma surpresinha”… _“Nossa, quando você (nós, as mães) não está em casa, tudo é diferente!” Dizem com um orgulho exacerbado e confiante de que nós, mães, membros da segunda geração, temos muito que aprender ainda e, de preferência, com elas, as felinas vovós. Sempre estão na supervisão e ansiosas para dar um palpite ou um cartão amarelo e dependendo do humor, de cara um vermelho.

A relação avó, filho e neto pode ser um pouco tensa se mal traduzida. Nem sempre flui dentro de uma harmonia ideal. Aliás, o que é ideal? Também não sei. Continuando, quando a criança está amparada pela presença dos avós, há a tendência do comportamento barganha, tipo: _Faço porque minha avó deixa. Tendem a colocar todos à prova, pois na nossa ausência, elas, as avós, dão as diretrizes e tudo funciona bem, pois eles, os netos, aproveitam para declarar: _ Não às regras cotidianas!
Nossos filhos estão corados, estão vibrantes, estão acolhidos e muito mimados! Disse mimados? Sim, vamos sair da defesa? Serem mimados por eles, avós e avôs, é usufruir de “um estado de Graça permanente”.

É um dos mandamentos da vida, avós e netos constroem um amor único entre eles e de direito deles.

Creio que para baixar a guarda e conseguir aceitar a “suculência” dos avós entre nós e os baixinhos, basta passarmos a analisar a nossa história como netas, fica muito mais fácil entender a importância desta relação. Se fecho os olhos tudo faz o maior sentido, tudo. O aparente imperfeito, torna-se um sincronizado perfeito.

Nós, mamães, também somos netas e, consequentemente, em muitos casos, também construímos esse amor com nossos avós. No meu caso, com minha avó. E reivindico sempre o nosso amor. Ele me deu tanto durante a vida. Ela é o ser mais angelical que tenho ao meu lado. Ela é colo. Ela é alimento. Ela é amizade. Ela é exemplo. Ela é possibilidade. Ela é risos. Ela é parceria. Ela é leveza, enfim, ela é um agradecer constante.

Por tudo isso vivido, construído com ela, como não entender a importância dos avós para quebrar a rigidez dos pais? Eles são um presente para os nossos filhos. Exercem a função da balança que faltava entre o educar e o aconselhar, entre a consequência e o mimar, entre o exigir e o pedir, entre as expectativas e o aceitar. Eles são Mestres, colhem hoje o resultado de uma educação construída dia dia. Nós ainda estamos semeando.

Eu amava as balinhas que a minha avó guardava para mim, e nem por isso precisei ir mais vezes ao dentista, também amava aquele mingau que descia me aquecendo de afeto, e as surpresas? Era se entregar a fantasia daquele momento, com isso, o frio, o calor, a irritação, a raiva, o tédio, tudo se distraia. Sem falar no batom rosa bebê, criava uma possibilidade lúdica de brincar de ser mulher!
Não posso me esquecer das receitas caseiras! Enquanto minha mãe estava aflita com o termômetro, minha avó estava confiante no poder do alho. E essa calma também ajudava a curar.

Os avós por estarem em outra dimensão, de sabedoria, de expectativa e, consequentemente, de amor, tem o poder de construir esta relação madura e colorida com os netos. Quantas vezes eu quis desabafar com a minha avó, e queria estar só com ela. Desabafar com a minha mãe tinha sinônimo de “seguir a cartilha”, claro estava me educando.

Nós, mamães, estamos mais focadas na educação que no conselho. Os avós não. Eles não precisam educar mais. Estão aposentados. Agora eles se permitem apenas gozar desta relação despretensiosamente. São como enciclopédias da vida, conselheiros pelo vasto vivido, contadores de história natos, escritores de capítulos, colecionadores de fotografias emotivas, viajantes pelo tempo, e imensos na cultura do educar.

A nossa rigidez deve funcionar para os avós como um mecanismo de justificativa às suas infrações. Mas, será que precisa de justificativa? Eles querem apenas ser avós. Eles estão certos, aplausos! Ninguém tem o direito de roubar o papel de neto do seu filho. Nem nós mesmas.

O amor siamês

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Com toda certeza, eles se beijam, elas também se beijam. Os iguais estão se amando publicamente. Vivenciamos, diariamente, inúmeras outras formas de relacionar-se. A cartilha que um dia as religiões propagaram, ficaram obsoletas, cafonas e o amor universal doutrinado por elas, atualizou-se, expandiu, justificando a união homossexual. Se os diferentes se amam, logo, os iguais também. É assim? Teoricamente, sim.

No entanto, vivemos em meio das escolhas de cada um e os “politicamente corretos”, como nós, eu e você, em sua maioria, defendemos a liberdade de expressão da vida alheia. Porém, quando temos um ser chamado filho, circulando, observando, imitando, enfim, consumindo o mundo, o chavão “politicamente correto” fica em “estado de anseio” ainda em fase de concretização. Pode ser que não, mas em algum momento, o amor siamês, vai chamar a atenção do seu, do meu filho. Chamará a atenção pela curiosidade peculiar que eles nutrem na fase das descobertas e constatações e não por outro motivo qualquer. Afinal, para eles aquela imagem é natural, assim como o amor. Eles sentem, não racionalizam. No entanto, para nós pais, a racionalidade entra e fica em estado inflamado de pirraça.

Quando constatamos que um dia podemos ser questionados, devaneios veem à mente. Podemos responder: Eles são amigos! Não, por favor.

Eles não são só amigos. Por que mentir?
Eles também se amam!
Sim, querem também estar juntos.

Por que o nosso preconceito fica tão nítido quando falamos dos nossos filhos? Afinal, se aceitamos o que acontece lá fora, um dia pode acontecer dentro de casa. Será esse o medo? Será que por isso tende-se a mentir, a proibir, a desqualificar, no intuito de não se sentir responsabilizado caso a igualdade entre pela nossa porta principal? Tenho a sensação que o pânico está solto. Se há menores junto, o desconcerto é flagrante. A pergunta pode vir, e aí? Defendo, abomino ou desconverso….?

Acho que pecamos seriamente agindo assim. Há países nos quais a homossexualidade é legítima, a lei contempla, já outros, preferem usar uma venda e continuar “ preconceitualizando” o amor, segundo eles, amoral. Então, é mais uma questão cultural que definitivamente o certo e o errado. Em todos os cantos há amor, em diversas cores. E é de direito dos nossos filhos ter acesso a isso. Acesso a ver o mundo com as lentes ajustadas para cada idade, mas sempre, dentro da verdade, do natural, do sentimento puro, sem rótulos. Tentar deixar a árvore genealógica das crenças no passado é se descortinar diante do poder das escolhas. Cultivar essa educação é, simplesmente, dar um salto qualitativo de humanidade e respeito nos corações daqueles que estão chegando.

Não somos nós quem devemos escolher a orientação sexual de um filho, até mesmo porque, o que sabemos sobre isso? Onde mora a sexualidade? Já viemos marcados quando nascemos, mas só fisicamente, emocionalmente somos muito livres. Então, por que ter medo já que nunca poderemos controlar a personalidade emocional de um filho? O seu conteúdo inconsciente, fantasioso, legítimo, é de direito privado deles.

nossa cor única

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Como é sofrida a diferença! Na infância precisamos “igualar” nossos filhos, constantemente os comparamos, da muita insegurança ter um filho “diferente”. Já na fase adulta, queremos destacar a sua autenticidade, pois se “for igual” quem irá contratá-lo, como se destacará em suas relações… Como será notado?

Todas as crianças são diferentes desde que nascem! Isso é o primeiro mandamento da vida. Por isso que o coletivo é tão colorido na sua diversidade. Colorido de cores, de línguas, de gestos, de escolhas, de lugares, de culturas, de padrões, de hábitos, de fisiologias, de patologias, de crenças, enfim, de Amor. A cada escolha em ser Pai, estamos escolhendo criar mais uma nova cor dentro da aquarela da vida. Estamos contribuindo, decisivamente, em multiplicar as diferenças! E é através delas e por elas experimentamos o dito popular: “Como um filho pode nos mudar tanto!”. Este outro Ser, realmente, nos convida a mudar.

A evolução só ocorre através da diferença, dentro do uníssono não há renovação. Então, essa pluralidade chega e queremos pintá-las só de azul e rosa na infância! Onde está o roxo, o vermelho sangue, o cinza, o amarelo ouro, o estampado florido, o verde desbotado? Tendemos a igualá-los. Com isso, empobrecemos a espécie. Sufocamos a sua essência, minguamos a sua exuberância. Eles precisam de liberdade e, principalmente, de aceitação. Eles vão revelando a sua forma de estar na vida, quem serão hoje. Não temos o direito de definir os papéis a serem interpretados por eles, não é novidade que as “carreiras” de príncipes e princesas são, dentre todas, as mais sonhadas por nós! A Gata Borralheira e o Saci Pererê apenas ficam interessantes dentro dos contos infantis. E que não saiam de lá!

O cenário da insegurança faz estremecer os pilares do amar em liberdade. Muitas transferências, expectativas, desejos depositamos neles. Muitos de nós, despertamos pelo caminho, porém, outros tantos seguem com os sentidos vendados durante a criação. E a cobrança é excessiva. Machuca. Machuca-me muito quando me desperto, dói, pois eles merecem pintar a sua caminhada com a sua cor predominante.

Quando chegamos à fase adulta, tudo tende a se inverter. Ao entender que as carreiras de príncipes e princesas resultaram em frustrações, pois a cobrança no sentido da perfeição sufocou mais que ensinou, opta-se, ou “exige-se” que eles se encaixem na carreira da Resiliência. Todos querem superar juntos, reparar o que foi feito de outra forma.

No entanto, a autonomia, a autenticidade, a segurança e a criatividade, por onde andaram? Ficaram bloqueadas, em estado latente, durante o desenvolvimento de pais e filhos. Cabe a nós, pais, identificarmos a nossa Própria cor , experimentá-la, deixar quem estar ao lado se divertir com ela, deixar que os filhos a conheçam, abençoa-la, para que possamos acolhe-la em nossa verdade intima. Assim, conseguiremos enxergar, consequentemente, Acolher a Cor, Única, do nosso filho.

beijinhos, obrigatórios?

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Manda beijo, dá tchau. Quantas vezes já ouvimos estas frases? Mais vezes foram as que fizemos com nossos próprios filhos. Ainda na fase do engatinhar esse comportamento já são ensinados a eles. Constantemente vemos boquinhas ensaiando os primeiros beijinhos e tchauzinhos deixando os papais orgulhosos!

Nesta fase, na qual “controlamos” o pedir com o fazer, seguimos com a tradição e assim caímos na simpatia do outro e nosso filho passa a ocupar um lugar carinhoso naquele coração alheio. Afinal, ganhar um beijinho e um tchau de uma criança é sentir a ingenuidade no colo da pureza. Porém, eles vão crescendo e a fase do “contra” chega. Bem, direi a fase do “eu”. Do eu não quero fazer, do eu não gosto, do eu sei e você não. É um “eu” que chega e se faz legítimo através do desafio diário. Todo aquele “aparente” controle, de uma vez por todas, passa a encarnar o seu papel definitivo: Pais não controlam e sim educam.

Somos colocados à prova hora sim e outra também. A presença da individualidade vai chegando, e com ela a elaboração da personalidade e de unidade autônoma. A diferença começa a versar entre nós, pais e filhos, o falso controle é desmascarado quando eles nos corrigem, quando apontam nossas atitudes incoerentes, e até parafraseiam uma contundente punição para nós. Enfim, enxergamos neles como os tratamos e educamos. Tem momentos que faz arder os olhos e nos faz salivar com acidez. Entretanto, estamos aprendendo entre todos, isso consola.

Então, junto com este “eu”, chega um comportamento que faz com que você se posicione. Ele (a) não quer dar mais beijo nem tchau. A insistência rodeia: Diga oi! Dá um beijo na vovó, na titia, na amiguinha, no vizinho… A lista não termina! Ainda não entendemos, mas eles não querem ser simpáticos desta maneira. Se esse é o critério avaliativo social de educação, então, minha filha de 4 anos é mal educada. Não tem faz de conta, nem a história da Branca de Neve para aliviar. Diante desta situação precisamos nos posicionar, obrigamos, castigamos, torturamos ou aceitamos, acolhemos e transformamos?

Prefiro criar uma nova possibilidade de entendimento. Entendendo o conteúdo de direito fundamental de uma criança que é a sua espontaneidade, penso que não devemos infringi-lo, mesmo que para isso, nós adultos, tenhamos que abrir mão do julgamento alheio. Minha filha me fez entender, por primeira vez, que o rosto é algo muito privativo nosso. É a nossa introspecção exposta. A pele é tão delicada, tão genuinamente macia que se diferencia de todo o corpo. Contraditoriamente ou não, está mais a mostra a todos os excessos externos. Sendo assim, quando a peço que beije alguém, consequentemente, estou expondo, justamente, a sua parte mais suave em troca de um beijo, social. Essa troca nada mais diz que: estamos cumprindo uma etiqueta.

Fez-me aceitar o quanto nós, adultos, somos vulneráveis. Nós beijamos, abraçamos, em muitos casos, para ter a graça, a aceitação, enfim, a aprovação do outro. Permitimos que a nossa introspecção seja tocada constantemente e indiscriminadamente. Mas nossos pequenos não precisam disso. São mais maduros que nós nesse quesito. Estão mais inteiros com a sua unidade.

Acho que o mais gostoso é quando o beijo é dado por vontade, por um querer de amor. Se seu filho apresenta resistência é um sinal de que aquele beijo ainda não está pronto para acontecer. Não insista. Observe e construa uma nova possibilidade para vocês dois.
Hoje percebo que minha filha troca mais beijinhos e fica nítido o seu querer, pois são coroados por sorrisos e descontração! Percebo que estamos acertando. Isso faz sentido para nós.

A única pessoa a quem ela sempre beijou, espontaneamente, enquanto ele ainda estava conosco, foi ao seu avô, Murilo. Hoje penso entender o lado divino de cada beijo trocado com ele. Estavam se despedindo, antes mesmo de tudo acontecer, antes da verdade virar um laudo medico, enfim, antes mesmo que nós.