a polêmica sobre o “desafio da maternidade”

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Ao acessar o facebook hoje percebo uma polêmica acontecendo. Caramba, uma enorme polêmica em torno de mães que aproveitaram o “ Desafio da Maternidade”, criado pelo facebook, não para somar poesias mas sim para compartilhar as suas dores, angustias e frustrações.

Como somos de uma cultura que não sabemos lidar com a verdade alheia o resultado foi o esperado críticas e mais críticas e até bloqueio do perfil no face.

É “doentio” ver o quanto nós mães nos cobramos dia após dia para sustentar o nosso lugar como  heroínas felizes. Ainda nos falta entender que somos apenas uma mãe. E esta mãe não tem que estar colecionando no seu baú de recordações quantidades diárias de alegrias, entusiasmos, certezas, fortalezas e sorrisos para se convencer que tem cara de mãe.

Mae não tem cara disso não gente!

Sem muito questionar, mãe tem que ter cara de liberdade, de absoluta liberdade para se mostrar do jeito que é, vestida com a pele da verdade e  perfumada com o natural cheiro da carne. 

Essa é a cara que uma mãe tem para mim.  Eu a reconheço muitas vezes  pelo seu cheiro mesmo quando não vejo a sua cara. Esse cheiro que exala dor, fraqueza, solidão, descontrole,  medo, raiva, preocupação,  sobrecarga e também lindas poesias tenho ele no nariz impregnado.

Quando farejo o meu ser mãe com excesso de perfume francês é sinal de falta de autoconhecimento para assumir alguma emoção que precisa dar o seu grito. E quando me permito entrar na dor saio do divã infinitamente com mais cara de mãe.

Depois do primeiro mês de vida da minha menina, comecei a sentir a palavra Mãe como uma sigla.

M.A.E = muito amor e entrega.

Então, o nome passou a ser uma interpretação de uma  letra e duas vogais. Assim todo o peso social atribuído à palavra mãe começou, lentamente,  a ser diluído entre cada espaço ocupado por um ponto.

Porém, esta sigla vem me ensinando que este amor e essa entrega não comungam da mesma harmonia sonora quando colocados  dentro do cheiro da carne de uma mãe.

Eles ficam zangados já que a sua conotação social é apenas pureza com cheiro de rosas.

Pois é… mas o amor e a entrega que me fazem ter cara de mãe precisam ser à minha maneira, senão não sei senti-los.   Por isso a minha forma de amar também arde e sangra, assim como a minha entrega que também cansa e fica histérica.

Não consigo amar sem também sentir raiva, um não exclui o outro, um não é inimigo do outro. Também não consigo amar sem sofrer. O sofrimento me faz perceber o quanto o meu amor é sobretudo visceral, ainda desconheço o amor por um filho como nos ensinam dentro dos templos de oração.  Aquele celestial que sublima, que liberta, que se desapega espero senti-lo algum dia, pois hoje o cheiro da minha carne me faz amar com os pés no chão.

Sinto um amor por minha menina não menos por isso. Ele é único mesmo no seus dias de profunda dor e desespero. Pois ele me convence, faz-me sentir de verdade. Sou uma M.A.E que realmente existe dentro de mim. A cada  crise colérica percebo o contorno do meu corpo enrijecido por minhas limitações e a minha cara perdida de si suplicando ajuda.

Ser M.A.E é falar principalmente desse tipo de amor que arde mas que cura. Precisamos muito nos permitir  também amar um filho na ausência de beleza, isso é ter maturidade para amar. O amor exige isso maturidade, vivência e, sobretudo, humildade.

Minha menina não se sentirá mais amada se eu sabotar este amor que sinto quando sou mãe para ela. O amor difundido nos leiloes da maternidade idealizada não provocaria nela aconchego, mas sim desconsolo, falta de empatia e excesso de sentimentos sufocados.

Se sentiria coibida em assumir o seu amor também com cheiro da carne de filha que sente por mim. Estaria buscando encontrar uma mãe de verdade como uma filha de verdade que ela é.

Seguindo, como posso querer ser entrega sem saber a hora também de deixar de ser? Não posso ir contra a minha natureza que também se desfaz diante do cansaço que me consome por também ser mãe. Comecei a entender que preciso ser muito sincera com a minha entrega. Havia dias que estava entregando o que já não tinha para dar. Me alimentava de ilusão.  Enfim, não estava entregando nada, apenas pedaços de mim que ainda respondia de alguma maneira.

Então, teve um dia que chamei essa “entrega” para uma conversa.

– o que você quer de mim, tirar a minha última gota de sangue?

e ela me respondeu:

– essa não é a minha verdade. Esperar isso de uma mãe seria desconsiderar a sua grandiosidade.

Levei dias para entender esta tal grandiosidade.

A resposta  estava bem no meu nariz todas as vezes que  inspirava e exalava o autêntico cheiro da carne de uma mãe.

a polêmica sobre o “desafio da maternidade”

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Ao acessar o facebook hoje percebo uma polêmica acontecendo. Caramba, uma enorme polêmica em torno de mães que aproveitaram o “ Desafio da Maternidade”, criado pelo facebook, não para somar poesias mas sim para compartilhar as suas dores, angustias e frustrações.

Como somos de uma cultura que não sabemos lidar com a verdade alheia o resultado foi o esperado críticas e mais críticas e até bloqueio do perfil no face.

É “doentio” ver o quanto nós mães nos cobramos dia após dia para sustentar o nosso lugar como  heroínas felizes. Ainda nos falta entender que somos apenas uma mãe. E esta mãe não tem que estar colecionando no seu baú de recordações quantidades diárias de alegrias, entusiasmos, certezas, fortalezas e sorrisos para se convencer que tem cara de mãe.

Mae não tem cara disso não gente!

Sem muito questionar, mãe tem que ter cara de liberdade, de absoluta liberdade para se mostrar do jeito que é, vestida com a pele da verdade e  perfumada com o natural cheiro da carne. 

Essa é a cara que uma mãe tem para mim.  Eu a reconheço muitas vezes  pelo seu cheiro mesmo quando não vejo a sua cara. Esse cheiro que exala dor, fraqueza, solidão, descontrole,  medo, raiva, preocupação,  sobrecarga e também lindas poesias tenho ele no nariz impregnado.

Quando farejo o meu ser mãe com excesso de perfume francês é sinal de falta de autoconhecimento para assumir alguma emoção que precisa dar o seu grito. E quando me permito entrar na dor saio do divã infinitamente com mais cara de mãe.

Depois do primeiro mês de vida da minha menina, comecei a sentir a palavra Mãe como uma sigla.

M.A.E = muito amor e entrega.

Então, o nome passou a ser uma interpretação de uma  letra e duas vogais. Assim todo o peso social atribuído à palavra mãe começou, lentamente,  a ser diluído entre cada espaço ocupado por um ponto.

Porém, esta sigla vem me ensinando que este amor e essa entrega não comungam da mesma harmonia sonora quando colocados  dentro do cheiro da carne de uma mãe.

Eles ficam zangados já que a sua conotação social é apenas pureza com cheiro de rosas.

Pois é… mas o amor e a entrega que me fazem ter cara de mãe precisam ser à minha maneira, senão não sei senti-los.   Por isso a minha forma de amar também arde e sangra, assim como a minha entrega que também cansa e fica histérica.

Não consigo amar sem também sentir raiva, um não exclui o outro, um não é inimigo do outro. Também não consigo amar sem sofrer. O sofrimento me faz perceber o quanto o meu amor é sobretudo visceral, ainda desconheço o amor por um filho como nos ensinam dentro dos templos de oração.  Aquele celestial que sublima, que liberta, que se desapega espero senti-lo algum dia, pois hoje o cheiro da minha carne me faz amar com os pés no chão.

Sinto um amor por minha menina não menos por isso. Ele é único mesmo no seus dias de profunda dor e desespero. Pois ele me convence, faz-me sentir de verdade. Sou uma M.A.E que realmente existe dentro de mim. A cada  crise colérica percebo o contorno do meu corpo enrijecido por minhas limitações e a minha cara perdida de si suplicando ajuda.

Ser M.A.E é falar principalmente desse tipo de amor que arde mas que cura. Precisamos muito nos permitir  também amar um filho na ausência de beleza, isso é ter maturidade para amar. O amor exige isso maturidade, vivência e, sobretudo, humildade.

Minha menina não se sentirá mais amada se eu sabotar este amor que sinto quando sou mãe para ela. O amor difundido nos leiloes da maternidade idealizada não provocaria nela aconchego, mas sim desconsolo, falta de empatia e excesso de sentimentos sufocados.

Se sentiria coibida em assumir o seu amor também com cheiro da carne de filha que sente por mim. Estaria buscando encontrar uma mãe de verdade como uma filha de verdade que ela é.

Seguindo, como posso querer ser entrega sem saber a hora também de deixar de ser? Não posso ir contra a minha natureza que também se desfaz diante do cansaço que me consome por também ser mãe. Comecei a entender que preciso ser muito sincera com a minha entrega. Havia dias que estava entregando o que já não tinha para dar. Me alimentava de ilusão.  Enfim, não estava entregando nada, apenas pedaços de mim que ainda respondia de alguma maneira.

Então, teve um dia que chamei essa “entrega” para uma conversa.

– o que você quer de mim, tirar a minha última gota de sangue?

e ela me respondeu:

– essa não é a minha verdade. Esperar isso de uma mãe seria desconsiderar a sua grandiosidade.

Levei dias para entender esta tal grandiosidade.

A resposta  estava bem no meu nariz todas as vezes que  inspirava e exalava o autêntico cheiro da carne de uma mãe.

quando o pai diz sim e a mãe não

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Isso não tinha ficado claro para mim desde o primeiro momento, mas com o passar dos anos vejo o quanto é fundamental a harmonia de pensamento na hora de educar entre pais e  mães.

Porém, esta atitude apenas ganha simplicidade nos discursos já que na prática pode levar anos e até mesmo uma vida para conseguirmos ao menos uma dose aceitável desta harmonia.

Se a minha menina veio de uma pai com o seu passado na mochila e que não, necessariamente, coincide com a mesma mochila que carrega a mãe, nada mais esperado que, em muitos casos, um venha dizer não e outro sim. Estão sendo coerentes com a sua história, com a sua criação, com as suas referências, enfim, com os seus padrões construídos e internalizados.

Aqui não deve haver espaço para culpas e culpados,  acertos e erros,  melhor ou pior.

A tendência, a princípio, é trazermos toda esta internalização para a educação dos nossos filhos. É a “receita” que deu certo para nós. Porém, entre uma receita e a outra é momento de diluir os ingredientes, acrescentar outros, temperar com bom senso e deixar a massa descansando com amor.

No momento da “mescla” é quando o propósito de educar um filho acontece de forma respeitosa, lúcida e a quatro mãos. Acredito que o caminho seja esse apesar dele não ser a primeira opção em muitos momentos. Não por falta de vontade e de consciência, mas por falta de condição emocional quando a defesa pula na frente do bom senso seja do pai ou da mãe ou de ambos.

Parece que precisamos defender com unhas e dentes o nosso passado em respeito aos nossos pais, ou até mesmo reproduzir aquele trauma também em respeito à… desta vez a nós mesmos por ainda não saber como amenizá-lo sem necessidade de reproduzir as agressões  que um dia sofremos.

Somo marcados pelas nossas vivências, em cada parte de nós se conserva uma memória afetiva seja de prazer ou de angustia.  E todas elas vão configurando a nossa educação. Uma educação recebida, Mas não transformada. Tudo o que recebemos precisa ser “reprocessado”, uma vez que, novos ingredientes pedem por um novo sabor.

Quando chega o filho é ora de buscarmos por esta transformação já que o não e o sim precisam dar a vez ao outro quando no interior  daquela criança suplica por segurança, coerência e harmonia.

Quando um filho ouve uma orientação contrária entre pai e mãe ele rapidamente entende que a insegurança está ali e é o momento oportuno para as chantagens, birras e insistências descabidas. A criança não racionaliza essa sequência lógica, Mas ela sente essa ausência de segurança. Então, ela “deita e rola” e, quase sempre, consegue o que quer já que o estresse acaba nos ganhando e consequentemente tentamos trazer o filho para o lado que nos protege.

Da próxima vez a tendência é repetir de novo pois a criança já aprendeu onde mora a nossa vulnerabilidade e por estar sem orientação dentro dela repete a sua “fórmula” para conseguir o que quer.

Quando me vejo vivenciando esse “caos” a princípio sinto raiva, mas depois sinto pena dos três. E uma vez mais voltamos a tentar. Porém, nos momentos que conseguimos dizer um não e um sim sem contradições e antagonismos desfrutamos e celebramos a nossa capacidade de flexibilizar os nossos próprios padrões em busca de uma nova educação em prol de um novo SER. 

Um não ou um sim bem falado dispensa gritos e arrepios pois a criança sentirá na mensagem de ambos certeza, confiança e amor. Germina respeito, segurança,  verdade e referência dentro de um filho, já a contradição gera insegurança  e desencontros internos, pois os limites dentro do seu viver estão confusos e ambiguos.

A nossa criança veio e dela também veio a necessidade de saborear novas receitas com gosto de pai e mãe misturado sem direito a ingredientes já caducados, endurecidos e mofados.

O ócio na vida de uma criança

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Muitas vezes não sabemos valorizar e priorizar o ócio na vida de uma criança. Quase sempre estamos junto a ela sugerindo várias alternativas para que a sua demanda por atenção se ocupe com algo ou para que o seu tempo não seja desperdiçado com o não fazer nada.

Esses dias fiquei observando a minha rotina com a minha filha e meu marido e não é que me deparei com o dilema acima? Estávamos no final de semana, ou seja, todos em casa quando me dei conta que estávamos todo o tempo atendendo a demanda da nossa menina. Estávamos negligenciando o nosso direito e vontade de cultivarmos algum momento de individualidade e ao mesmo tempo tirando dela a oportunidade de brincar com ela mesma.

Foi então que começamos a mudar a dinâmica. Eu e meu marido pegamos um livro para ler e dissemos a ela que era o momento do papai e da mamãe fazer uma leitura. No começo ela tentou chamar a atenção de todas as maneiras, mas seguimos com o livro na mão! Logo depois ela foi brincar de lego. Apenas com ela mesma. Fiquei emocionada com o que vi.

Quando proporcionamos esta possibilidade à criança, que muitas vezes ela não sabe que existe já que sempre estamos atendendo à sua demanda e assim criando esta dependência, ela se expande dentro dela, aumenta a sua consciência de ser quem é. Começa a perceber que estar em sua companhia também pode ser muito agradável, além de se aconchegar no seu amor próprio. Isso lhe dá confiança, autonomia e desborda um oceano de criatividade em volta dela. Ela está ali com a sua imaginação em plena ebulição fluindo dentro de um vai e vem lúdico e sagrado.

Claro que minha filha não ficou a manhã inteira jogando lego sozinha! Depois de um tempinho já estava exercitando o dizer papai e mamãe. Mas, conseguimos independente do tempo que foi. Conseguimos comungar com o ócio sem televisão, sem distrações, sem “barulho”! Conseguimos enxergá-la como uma criança que precisa se conectar com a sua essência, sentir a sua emoção  e se perceber como é.

Me chama a atenção essa dificuldade que muitas vezes temos de priorizar o ócio infantil. Bom, não é difícil de encontrar a primeira possível justificativa; Estamos sabendo nós, adultos, cultivar também o nosso ócio? Sempre estamos tão conectados que parece estarmos longe deste momento. Sabe aquela condição de ficar sozinho apreciando a própria companhia? Sem televisão, Sem telefone, Sem Whatssap, Sem Ipad… SEM distrações?

Estamos tolerando a nossa própria companhia?

Quase sempre NAO!

Ela se torna enfadonha, provocativa e sem propósito. Demasiado silêncio tem perturbado mais que acalmado.

Na introspecção, no ócio, o nosso “EU” aparece. E aquele choro guardado,  aquela raiva colérica, ou, até mesmo, aquele entusiasmo mascarado, não queremos saber que existem. Vamos deixando tudo isso naquele tal de inconsciente, afinal serve para isso né!

Nos tornamos pessoas frenéticas, ávidas pela próxima mensagem, pela próxima tecnologia, pela próxima foto feliz no facebook de (des) – conhecidos. Frenéticos pelo barulho que nos tira do nosso próprio eixo e nos leva a consumir uma vida fora da gente.

E todo esse “barulho” estamos deixando ao alcance dos nossos filhos. Criança sozinha, agitada, sem ter o que fazer… o canal Disney cumprirá com a função.

Qual função?

Aquela que eu e você conhecemos em profundidade, rs!

Estamos “calando” a irritação, o descontentamento, o choro, a raiva de uma criança com a ajuda de megas telas tecnológicas. E como funciona!! Em vários momentos eu recorri a esta técnica e ainda recorro em alguns outros.

Sou consciente que em algumas circunstâncias a minha lucidez pede ajuda à minha ignorância e tudo bem, ainda sou apenas uma mãe.

É muito difícil ter que lidar com a emoção contrariada de um filho enquanto a nossa está do avesso. 

Nesses momentos queremos colo e não ter que dar colo. Assim cada um com a sua tela e tudo se acalma e voltamos a nos sentir boas maes com bons filhos dentro de casa.

Mas, no dia seguinte acontece tudo de novo! O esquemão tecnológico já está montado, a nossa paciência por um fio, final do dia, filho fazendo birra, a vontade de sumir chegando…

e ai?

E ai que é melhor começarmos primeiro por nós, adultos, a cultivarmos o ócio e nos convencer da sua utilidade e benefícios para que depois possamos dar esta condição a um filho. Caso contrário nos faltará convencimento, atitude e domínio.

Ainda precisamos exercitar a escuta interna para que aconteça a conexão dentro de nós, primeiro.

Se ainda não estamos conseguindo lidar com o nosso choro, com a nossa raiva ou qualquer descontrole emocional como vamos conseguir lidar com as mesmas emoções quando aparecem em um filho?

O brincar como fonte de autoconhecimento

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Quando duas crianças estão brincando estamos dando a elas uma oportunidade de se autoconhecerem. Sei que o termo parece muito “filosófico” para estar incluído em uma aparente brincadeira qualquer de crianças, mas é totalmente oportuno. “Elas estão só brincando!” diriam muitos ou “Elas não estão fazendo nada!”, diriam outros tantos.

No meu entendimento as crianças estão fazendo tudo justamente por estarem brincando!

A criança traz o seu Eu para brincar e, justamente, por isso percebo que naquele momento ela está totalmente conectada com a sua exuberância, com a sua diferença e com a sua dificuldade. Ao brincar o seu Eu entra em contato com a alegria, com a frustração, com a rejeição, com a empatia, com a raiva, com o egoísmo, com a menos valia, enfim, com o “amor” e o “desamor” que existe dentro de si.

E nesses momentos ela vai aprendendo a dar forma à sua energia quase sempre dispersa, intensa e instintiva.

As crianças são crianças MAS não são iguais! E é essa diferença que proporciona a auto-educação dentro de si e nos demais. Uma criança quando está brincando está em negociação constantemente com o seu “Eu”. Ora ele se sente diminuído, ora ele se sente “robusto”. Ora ele grita, ora ele escuta. Ora ele cativa, ora ele é excluido”.

Esses dias estive observando a minha filha enquanto brincava com as suas amiguinhas. E foi um grande aprendizado para mim já que temos sempre a tendência de colocar o peso quando acontece a desarmonia no colo da amiguinha convidada.

Desta vez quis estar atenta apenas à minha filha.

E pude perceber claramente as virtudes e as dificuldades que ela trazia para dentro da brincadeira. Independente se estava em um dia bom ou não, ali estava quem também era ela. Em muitos momentos tive que interferir e outros tantos repreendê-la. Fiquei cansada, fiquei imensamente frustrada.

Era só brincar de brincar e mais nada! Não é assim que pensamos?

Pois é!! Mas o brincar de brincar é um ano de curso letivo intensivo.

Sou consciente que dentro do mundo infantil também existe a “sintonia”, claro, e que não devemos forçar se a afinidade não acontece. Mas, como sabemos realmente que não há afinidade já que eles são tão instinto ainda? A raiva se dissolve em amor minutos depois. Tudo se apaga e se renova com uma facilidade de dar inveja a nós adultos.

Mas, mesmo achando que a falta de afinidade está ali ou excesso de semelhanças é muito importante ensinar a criança a administrar aquele “enfrentamento”. Há muitas ferramentas que podemos incluir na bagagem deles, inclusive a de se afastar e buscar uma solução para o seu desagrado. De tudo se aprende. E as culpas e culpados vão ficando naquele lugar sem importância.

Voltando na brincadeira da minha filha com sua amiguinha presenciei esta “carência” nela. Não sabia como desviar a sua atenção diante do mal estar. A colega podia estar provocando, Mas ela também poderia ter se “ausentado” desta provocação, já que a provocação apenas prospera  em “terra fértil”.  Tudo tem os dois lados.

Não devemos acomodar os nossos filhos na posição de vítimas. Este lugar é muito cômodo para toda uma família. Mas será mesmo transformador?

Certeza que nao.

Precisamos construir junto com uma criança a sua resiliência, a busca por soluções e o olhar para dentro dela mesma.

Quantas vezes sai do parque pensando mal daquela ou outra criança, colocando problemas emocionais dentro de corações tão miúdos, quanta bobagem! Apenas estava nos colocando dentro da comodidade do vitimismo. Dentro daquele sentimento protegido e ao mesmo tempo tão ausente de lucidez. Perdi a oportunidade de vivenciar com ela a consequência de um comportamento diferente do ensinado em casa e de educá-la dentro das suas escolhas cultivando a capacidade de aprender a responder por elas.

Por que é habitual querermos colocar problemas nos filhos dos demais? Olhar nosso filho como “coitadinho” não o levará a conquistar confiança dentro de si e não o tornará uma criança mais gentil, mais especial que as outras. Aquela criança que teoricamente consideramos de  “problemática” pode ser consequência de um olhar adulto desprotegido e demasiado inseguro. Afinal, o problema tem que ter cara de alguma criança que não seja a nossa pois  ainda não sabemos lidar com a diferença que vem com o nosso filho.

Enfim, o brincar é um conteúdo valioso dentro da infância das nossas crianças devemos estimular sempre e principalmente nos incluir nele, já que em muitos momentos é a nossa criança interna que precisa sair do papel de vitima daquela brincadeira.

A gratidão tem a ver com a cor dos olhos

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Durante três dias da semana passada, minha filha, na escola, na hora do almoço  não quis comer. É, falou que não ia comer para as professoras e assim foi. Foram três dias consecutivos. Também foram três dias com uma dor dentro do meu peito. A professora, eu, o pai, os amiguinhos conversávamos com ela, Mas tudo parecia ser pouco para convencê-la.

Aquilo dentro de mim me debilitava, sentia-me forte por fora mas fraca por dentro. Ficava fora da escola pensando nela com a sua barriguinha vazia na hora do almoço. Durante estes três dias vivi um “drama” em busca de soluções e possíveis justificativas. Levantava pela manha já preocupada e assim ficava até encontrá-la novamente. Percebi que a professora também estava porém os argumentos dos adultos como “precisa comer”, “vai ficar fraquinha”, “comer para ficar forte” caiu em desuso para minha filha. Acho que a irritava mais ainda.

Bom, o certo era que não estávamos acertando no tom do diálogo, isso ficou claro.

Até que no terceiro dia, depois da escola, fomos fazer um lanche juntas e naquela mesinha de uma lanchonete qualquer algo aconteceu. Estávamos colorindo e sem nenhuma pretenção eu desenhei uma menininha triste, chorando. Vi que ela ficou olhando.

Foi então que toda a minha angustia se expressou através de uma linguagem lúdica entre eu e ela.

A menininha do desenho foi ganhando corpo, cor, fala, e “portinhas”! E assim fui explicando a ela que aquela menininha estava recebendo uma mensagem da barriguinha dela.

Com os olhinhos curiosos me perguntou: Da minha barriga, mamãe?

E fui mostrando a ela que as portinhas do coração, do pulmão, do estômago, do fígado e demais órgãos, estavam todas abertas com muita fome e por isso a menininha chorava tanto no meu desenho!

Foi quando aconteceu a magia. Foi ai que nos entendemos. Foi ai que ela se sentiu acolhida e respeitada de alguma maneira.

Consequentemente, perguntou-me caso ela comesse se as portinhas ficariam alegres. Então desenhamos juntas outra menininha muito feliz porque estava com a barriguinha bem gordinha de comida!

E isso virou uma entretida brincadeira! Quando ela foi no dia seguinte para escola eu disse: Quando voltar faremos outro desenho tá, com aquela carinha bem contente, viu!

E para minha surpresa ela me pediu que lhe desenhasse uma carinha bem alegre  em uma mão e na outra uma bem triste.

Perguntei o porquê de desenhar a triste.

Me explicou que era para se lembrar que se não comesse sua barriguinha ia ficar muito triste.

Houve a conexão entre nós e toda a minha angustia se dissolveu.

E coincidentemente, na escola a professora também teve o seu momento de conexão com ela, a pediu que colocasse a mesa do almoço. Deu a importância que de repente ela estava necessitando ter e isso a deixou muito feliz.

Superamos! passou.

Hoje, depois que tudo voltou à normalidade, fiquei observando o quanto fui “ingrata” comigo mesma e com o meu entorno. Aqueles três dias foi um drama nas minhas horas. Não consegui valorizar e apreciar o que de belo também estava acontecendo. Não soube valorizar que ela acordava disposta para ir à escola; não soube valorizar que a fruta e o lanche da tarde ela comia bem; não soube dar valor aos progressos que ela seguia fazendo por estar em uma escola no exterior, também não soube valorizar o quanto ela se divertia durante o dia na escola; e, consequentemente, não soube valorizar o feliz que a via quando eu ia buscá-la!

Apenas foi algo pontual, um desafio contornado e aprendido.

Olha quanta “luz” que ofusquei por uma preocupação desmedida desgarrada de oração!

Não soube esperar, apaziguar-me e ter fé. A gratidão tem a ver com a cor dos olhos que escolhemos enxergar o viver.   Temos um arco íris latente dentro da nossa pupila, mas ainda há momentos que optamos pela cor preta para ver a vida passar.

O “sagrado” na vida de um filho

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Escrevi há pouco tempo o texto “ Pais, filhos e babás” e não para minha surpresa a polêmica veio à tona. Apareceu a defesa, o julgamento, a rigidez, a insegurança, a autenticidade e também a flexibilidade. E tudo isso me fez questionar ainda mais o significado da palavra Mãe.

É tão delicado abordar o assunto m a t e r n i d a d e porque ainda precisamos defender com unhas e dentes a mãe que somos e fazer jus ao seu significado.

Olha ai o problemão!!! e qual é o significado mesmo?

Cada vez me considero saber menos.

Muito se acredita, eu também acreditava,  que SER MAE é aquela que está “ali” dia e noite, noite e dia fazendo um de tudo para o filho. Há muito que não encontro com esta mãe quando tento compreender o que é este “estar ali”.  Se estar “ali” é estar com o filho, muitas vezes,  munida de distrações tecnológicas ou mergulhada em aqueles infinitos momentos que acontecem de angustias, frustrações, gritos e descontroles, realmente muito me faz pensar se estes momentos estão nutridos de companhia ou simplesmente de culpas, de sentimento de obrigação, de falta de opção ou principalmente de falta de autoconhecimento.

O único que está ali realmente é o filho carente de uma verdadeira presença ao seu lado.

Quando eu vivo  situações como as descritas acima percebo com clareza que eu não estou “ali” apesar de estar ao lado da minha filha quase sempre. Nunca tivemos babá, nem ajuda constantes de avós, tios ou outro anjo amigo e nem por isso me considero mais mãe que outras tantas que sim tiveram e tem babá, ajuda dos avós e possíveis anjos!

Ter trocado quase todas as fraldas da minha filha, ter feito quase todas as papinhas dela, ter desfraldado, ter levado ela inúmeras vezes ao parque, ter colocado para dormir outras tantas vezes, ter sempre o caderninho da vacina atualizado, ter ficado atrás dela todo o tempo quando começou a caminhar, ter brincado muito no chão com ela e muitas outras coisas, não me faz sentir uma mãe com mais cara de mãe por isso. Pois muitos desses momentos eu estava esgotada, irritada, cansada com a cabeça “lá” e não “ali”.

O ser Mãe para mim é algo mais desafiador, mais misterioso, não de “fácil” falar ou fazer. Dentro da minha maternidade sempre que estou realmente “presente” com a minha filha é o momento no qual sinto que o significado da palavra Mãe ganha um sentido sagrado. São momentos que não seriam os mesmos se outra pessoa estivesse com ela (refiro-me à terceiros). Sabe aquela sucessão  de acontecimentos que cercam a vida de um filho e o que ele mais quer é ter aquela presença grandiosa  ao seu lado lutando por ele, nutrindo-o de segurança, de confiança, de amor próprio, de coragem, de alegria, de empatia, de verdade, de consolo e de fé? Pois é, tudo isso ninguém pode fazer por nós pais ou creio que não deve fazer.  Isso é tarefa sagrada destinada a cada pai e a cada mãe.  Isso não se deve “terceirizar”.  Todo esse “coquetel de amor” acredito ser um diamante na vida de cada filho e de cada pai e de cada mãe, pois vamos aprendendo junto com eles o como fazer diferença dentro da vida de cada um. Influenciamos diretamente na formação da  personalidade de um filho, na sua base emocional, enfim, na sua real condição humana para viver sem a nossa presença dia dia  quando assim for e por tudo isso precisamos nos reeducar para conseguir.

Isso é um grande mistério. Como fazer tudo isso? Temos toda a vida para aprender…

O meu ser mãe entra no significado sagrado quando me vejo vivenciando esses exclusivos, indescritíveis, impactantes e constantes momentos.

Sem dúvida me sinto MAE quando me lembro, por exemplo,  que na amamentação precisei buscar amparo e ajuda para lidar com as minhas frustrações e tentar minimizar o meu sofrimento junto com o meu bebê, isso ninguém podia fazer por mim, a minha criança precisava da minha resiliência. Outro momento foi quando o seu primeiro dentinho apareceu, aquela dor precisava da minha presença para reconfortá-la. Não me esqueço de quando ela teve refluxo, qualquer pessoa poderia ter trocado a roupinha dela para não ficar molhada, mas apenas a mamãe poderia ter buscado informaçoes, médicos especializados, ficar com ela em braços infinitas noites para que se sentisse melhor; ela precisava sentir o meu cheiro para se sentir protegida. Outro acontecimento foi quando ela começou a rejeitar os “verdinhos” no prato; ela precisou de mim para que eu a educasse a comer. Quando ela começou na escola ela precisou da mamãe para que lhe desse confiança de que tudo estava bem. Quando ela experimentou a morte do avó ela precisou da mamãe para entender o que ele foi fazer na estrelinha.  Quando ela queria as coisas que as amiguinhas tinham ela também precisou da mamãe para que começasse a lidar com a própria frustração.  Quando disseram a ela que tinha bigode na escola, foi na mamãe que ela buscou segurança sobre a sua própria diferença. Quando teve apresentação na escola  a primeira pessoa que ela buscava encontrar era a mamãe  com o olhar de admiração sobre ela. Quando ela sentiu a primeira rejeição, correu para a  mamãe para cultivar o seu amor próprio. Quando mudamos de país também precisou da mamãe para que construísse com ela a sua nova realidade. Enfim,  momentos como esses, para mim é a grandiosidade de ser Pai e Mãe  com letra maiúscula. Para mim, essa é a nossa maior missão como referências que somos na vida de um filho.

Então, quando me percebo julgando pais (que querem ser pais, claro) com babás e demais ajudas me desapego das atividades rotineiras, dentro das quais a ajuda foi contratada ou solicitada. Ninguém é mais pai ou mãe pela quantidade de fraldas trocadas, MAS sim somos quando lutamos,  caímos e levantamos em prol dos momentos “sagrados” ao lado de um filho, os quais somos presenteados todos os dias.

Esses sim tem cara e cheiro  de PAI e MAE .

(ou de quem cuida e educa a criança).

filhos, pais e babás

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Ela troca fralda, dá a comida, cumpre com os horários, segue com a rotina, brinca, cuida e, por muitas vezes, também educa.

Quem é ela? A babá.

Ela tá na lida ninando as crianças que vem para seus cuidados através da relação com o capital, tá cumprindo com o acertado na carteira de trabalho. Topou, topado está. Às 8:00 da manhã tem criança com fome para alimentar, com choro para consolar, com vontade de brincar e também com preguiça de levantar. Não dá para pensar muito não, a rotina já começou contratada! e o papai e a mamãe tem que sair para trabalhar. Beijinhos filhos, nós te amamos e até mais tarde.

E uma nova relação começa ali. Uma nova presença começa a ganhar importância na vida daquelas crianças. Aliás, não é apenas uma nova presença, mas com toda certeza uma nova referência. Dentro de uma carga horária combinada há tempo para tudo, inclusive para as broncas, aprendizados e carinhos espontâneos.

A babá está ali cumprindo com as normas deixadas na geladeira, não sei se novas para ela já que muitas vezes está cuidando de quem ela também cuida em sua casa; de filhos. Àqueles do papai e da mamãe que vão trabalhar passam a ser seus “emprestados” e os delas passam a ser de outros também “emprestados”.

Não raro a hora extra é preenchida por novos acertos e acordos e nos finais de semana há, sem espanto,  a presença da folguista!

Isso se for apenas um filho para ser cuidado, pois se são mais o entre sai de novas referências pode ser bem maior.

E foi dentro de uma realidade dessas que eu passei uma tarde e um pouco da noite de  um dia de janeiro.

Estávamos com uns amigos que tinham duas crianças pequenas, uma de 2 e outra  de 4 anos, e mais a babá. Passamos a tarde juntos. Nos abraçamos, celebramos o reencontro, as meninas logo se “enturmaram” e eu entrei em “parafusos”.

Cometi o pecado capital do julgamento: “fácil ter filhos assim”. Eu sorria para fora e julgava para dentro. E fui entendendo que aquela família tinha a babá e a folguista na sua rotina familiar.

Tudo começou a minimizar dentro de mim quando eu me percebi almoçando com uma tranquilidade absoluta e podendo conversar com tamanha paz. Claro! A babá estava cuidando de todas as crianças  para que nós pudéssemos desfrutar daquele momento que para mim ainda é raro.

Comecei a ficar mais consciente.

Foi bom demais ter podido aproveitar daquela babá. Foi bom demais ter tido silêncio, individualidade e sossego.

Enfim, depois que nos despedimos ainda sim sai dali meio “inconformada”. Babá segunda, babá terça, babá quarta, babá quinta, babá sexta, babá sábado, folguista domingo, PIREI.

Na verdade não conseguia sair da minha caixinha de julgamentos, pois o que mais me intrigava é que estava diante de Pais com letra maíuscula, de pais que quiseram aquelas crianças e com toda certeza amavam e zelavam por suas filhas. Isso não tenho nenhuma dúvida.

Então, fui entendendo que o problema talvez não era com eles, mas sim comigo.

Foi quando comecei uma carinhosa conversa com a mãe que também sou e passei a observar as reais verdades sobre àquilo que eu insistia em negar tanto, que era  ver uma mãe e um pai relaxados enquanto uma outra pessoa cuidava dos filhos que eles quiseram ter.

Estava negando a minha admiração por ver pais capazes de ter um staff de apoio independente do julgamento alheio. Àquela estrutura era importante para eles e não se sentiam diminuídos enquanto pai e mãe por assumirem que precisavam de ajuda.  O papel do pai, da mãe e da babá estava muito bem definido e claro dentro daquela família.

Xeque Mate!

Então passei a admirá-los pela coragem e pela segurança de deixar seus filhos também serem cuidados por outros , MAS sem negociar a posição de cada um na vida de cada filho.

Achei aquilo fantástico!

Não estou falando de pais que estão terceirizando filhos, Não! Estou falando de pais que estão terceirizando o acúmulo de estrés do dia dia, pelos quais passamos todos  nós que somos pais e mães.

Sabemos que o estrés afeta as relações e por muitas vezes faz com que elas cheguem ao fim. Se deixamos os julgamentos em “off” seria tão absurdo assim aceitar que é muito melhor estar com os filhos quando estamos mais relaxados, tranquilos, com condições de estar realmente, do que TER que estar sempre independente da nossa capacidade emocional?

ESTAR sempre junto de um filho é sinônimo de mais amor? SERÁ?

Já me vi inúmeras vezes e ainda me vejo outra tantas junto à minha filha sem querer estar. Nesses momentos não seria mais respeitoso com ambas se estivéssemos em condições diferentes? Podíamos até estar juntas mas se eu tivesse alguém para brincar com ela me faria a mãe mais feliz do mundo em muitos momentos.

A amo menos por sentir isso? não, creio que amo com mais verdade. E é esse amor que  nós merecemos com mais pureza e humildade.

Quando volto a pensar nessa família, volto a me admirar com a verdade do amor que eles constrói dia dia com as suas crianças. As crianças vão aprendendo que seus pais não estão disponíveis sempre, a qualquer hora para elas, e que precisam de ajuda para cuidar delas. Ao menos neste momento da vida.

É um amor com verdade e não um amor com descuido. 

Perceber a capacidade deles de confiar em alguém, de aceitar uma nova maneira de cuidarem das crianças por mais que instruam, que orientem, e sei que isso eles fazem, cuidadosamente, a cuidadora terá suas manias, crenças, tradições que estarão na relação com os pequenos; para mim é de aplaudir de pé!

Seria tão difícil para mim me adaptar a este contexto, ainda sou muito controladora, é sofrido aceitar uma outra pessoa fazendo as coisas de outro jeito para a minha filha. Mais mérito meu por ser uma mãe assim? não mesmo, quem disse que a minha maneira é a melhor?

E a última lucidez que tive sobre essa vivência foi de fazer um paralelo entre a escola e a babá.

Antes de começar o processo de alfabetização realmente é necessário levar as crianças à escola (e mesmo depois, hoje em dia já é questionável)? No meu ponto de vista, não. Mas, uma criança de cinco anos se não vai à escola parece um escândalo social, de repente esse pai e essa mãe serão julgados por displicentes. Ainda vivemos em tempos em que a criança acabou de nascer e tem que ir para a escola pois é “importante para ela”, “ela vai se desenvolver”,  “ se socializar” , ou seja, se não for parece que ficará uma criança primitiva.

Como fomos criados dentro deste discurso com normalidade o vemos. Se uma mãe leva o seu filho  de quatro meses, de dois anos ou de cinco anos para a escola está tudo mais que certo. Mãe zelosa! E se esta mãe trabalha ai que está tudo mais que admitido, aprovado, normatizado, afinal, coitada tem que trabalhar!

Independente se estamos falando de um bebê ainda, o pensamento doutrinado e por isso respeitado e aprovado pela lei do bom comportamento social é este.

Voltando dentro da minha realidade, minha filha quando foi para escola tinha dois anos e meio, ficava seis horas, almoçava e jantava lá e eu não trabalhava nesta época.

 E ai?

Terceirizei minha filha? que absurdo! Claro que não, ela estava na escola, brincando, aprendendo, crescendo. Bom, ela estava onde me encontrava protegida de julgamentos e de caras feias.

Ela podia fazer tudo isso na pracinha do bairro, na casa de amiguinhos ou estando apenas comigo. Mas eu não quis, precisei me agarrar ao “discurso protegido” de que ela precisava ir para a escola. Naquela época ainda flutuava em mim pouca segurança para afirmar que optei pela escola porque precisava de algumas horas sozinha principalmente por estar sem “trabalhar”.

Mãe sem “trabalho” tem cara (obrigação) de mãe o dia todo né! Menos julgamentos e mais verdade por favor 🙂

E quando tinha feriado na escola? Era mais um desassossego que uma alegria! Será que eu não gostaria de ter nesse dia uma babá apenas para brincar com ela nas horas que eu Não quisesse?

E se amanhã mudasse o discurso escolar e as aulas se estendessem até sábado? Reclamaríamos? Afinal é legal ir para a escola brincar com os amigos, a aprender, a crescer e foi o Ministro da Educação quem aprovou tal mudança! Ele sabe o que é melhor para os nossos filhos, somos obedientes, bons pais, e no sábado estaríamos lá.

Estaríamos terceirizando nossas crianças?

E se ao invés de irem para a escola as crianças ficassem no sábado em casa com a babá para que pudéssemos dormir até mais tarde, depois ir fazer unha e tomar um café com a amiga, entra novamente o julgamento em cena e desestabiliza a comodidade quando o discurso é a escola? Nos diminuiriamos como pais?

Enfim, estamos sempre nos acomodando a contextos já aprovados e outros tantos por serem negociados, vencedores são aqueles que conseguem amar com verdade os seus filhos independente das caras feias e assustadas.

Recordo com muito carinho da babá que tive com meus cinco anos, ela inclusive viajava conosco, ainda hoje tenho o privilégio de encontrá-la quando vou à Bahia e de relembrar o meu passado com tamanha riqueza de detalhes dentro do seu eterno carinho.

O que é fragilidade?

planta

Passei três dias no alto de uma montanha, bem próxima ao céu, mais especificamente dentro de um monastério onde me inscrevi em um retiro espiritual.

E lá fui eu com a minha mochila da vida nas costas e com o coração cheio de necessidade de tocar no meu próprio Deus.

Fui sem protocolos, sem conclusões, sem preconceitos, sem rebeldia. Simplesmente, a minha busca incansável me presenteou este momento e eu o aproveitei. Chegou com a “forma” de monastério, de santos e aleluias, MAS, disse SIM!

Ali reencontrei com as minhas dores mais angustiantes e as fui drenando com um choro contínuo. Aquele lugar me abraçou, me ninou e me recordou da intensidade da minha luz. Esta luz tão viva que cada um de nós temos dentro, enfim, a nossa parte que é Deus.

Chorava, agradecia e me sanava.

Éramos muitas, circulava uma energia potente, ardente e ao mesmo tempo cicatrizante que não deixou a nenhuma de nós “inerte”.

Cada uma foi em busca de “algo” em forma de Deus.

Queríamos tocar neste Deus que é ternura, que é esperança, que é bondade, que é salvação.

Éramos peregrinas em busca de “conversão”.

E a cada nova vivência, Deus me levava para dentro de mim. Assim o confirmo como o MEU Deus.

Não sei se era igual ao de tantas companheiras que ali estavam… porém, me desconectei, não tinha importância.

E cada dia fui me conectando com a minha fé e com o que fazia de mim um pouco de Deus.

Orava para que a minha “sombra” se mostrasse, ajoelhava para comungar com a minha vontade, adorava para celebrar a cura!

O Deus de “fora” estava dentro de mim.

Renasci mais uma vez diante dos meus próprios olhos.

Desatei crenças, desfiz maus entendidos, pedi perdão a mim mesma.

Deus não saia de dentro de mim. E quanto mais chorava as minhas misérias, mas me fortalecia dentro de um sentimento que me convertia em acolhimento.

Deus tinha a cara de nós, humanos. Estava dentro de cada dor e de cada renascimento que eu presenciei.

A cada depoimento de vidas desertas de amor próprio, eu via Deus.

A cada depoimento de vidas corrompidas por maus tratos, eu via Deus.

A cada depoimento de vidas esquecidas na miséria da carne humana, eu via Deus.

Muitas se “desnudaram” diante de nós para que pudéssemos fazer o mesmo por nós.

O sangue do sofrimento destas mulheres não era mais vermelho que o habitual, nem o tom da voz mais rouco de tanto gritar, gritar, gritar por pedir tanta “esmola”, mas sim, colecionadoras de um olhar vivo, renascido e transformado.

Essas mulheres foram capazes de fazer uma releitura sobre as suas próprias escrituras. Foram capazes de vomitar o suicídio e se abrandarem com a fé em si mesmas.

O milagre vinham delas. Elas optaram por renascer de novo. Elas procuraram por sua própria conexão além da carne.

Os seus corpos já valiam muito pouco, já não tinham poder de convencimento, MAS, o espírito de cada uma continuava buscando por uma porta aberta.

E encontraram uma grande porta aberta que deu acesso ao autoconhecimento e, consequentemente, ao amor próprio.

Todas que lá estávamos buscávamos isso, amor próprio.

Entendo que cultivá-lo é assumir o nosso Deus pleno de ressureição dentro de nós.

Sai dali mais forte, mais coerente, mais amada e mais perdoada por mim mesma.

Diante de tanto choro, de tanto sofrimento, de tantas “crianças adultas” não vi um único sinal de fragilidade…

Ali, apenas tinha o senso comum da coragem, da resiliência, da ressureição.

Depois de tanto me sentir de cara lavada, exposta e chorona, creio que a  fragilidade pode estar do outro lado da montanha, na vida comum, no rosto sem choro,  no sorriso standar, nas emoções controladas, nas defesas viciantes, enfim, nas frágeis “máscaras” do nosso dia a dia.

 

A criança escondida

crianca escondida

Acabei de ler o livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra” de Laura Gutman e sabem de uma coisa? Ser mãe é muito frustrante, dolorido, torturante.

É maternidade, você é tudo isso mesmo. Hoje mesmo estou “virada”, não vou te dar bom senso nem equilíbrio. Não tenho hoje para dar, não tenho. Apenas conto com alguns lapsos de lucidez dentro deste nevoeiro sombrio que é o dia de hoje.

Por fim, consegui vomitar o que tanto nos é censurado, a verdade sobre a maternidade. Ela me faz chorar, me faz mendigar compaixão pela minha própria miséria humana.

Acabei de ler o livro e acabei de comer um bolo que desceu desencaixado dentro de mim. Minha filha dorme, mas antes de dormir ela viu uma mãe exaurida diante dela.

Dorme com o semblante de um anjo e eu escrevo com o semblante de quem está “congestionada” de buscar convencer para si mesmo que ser mãe é padecer no paraíso.

Na espera deste paraíso eu me afogo em desassossego.

Ser mãe é detestável, é não ter opção.

Durante a leitura do livro me veio algumas lembranças da minha infância, algumas suposições sem confirmações, enfim, veio muita dor.

Sinto a minha alma imensamente dolorida, apesar de conseguir ficar de pé e bonita. Sinto memórias sendo reativadas em consequência de uma busca louca.

Por que sempre quero saber mais sobre mim? Chega!

Por que não me permito ficar na zona de conforto? Chega!

Hoje estou buscando consolo, MAS pareço não me ouvir.

Realmente, me aproximei ainda mais da minha sombra. Isso é mesmo que sentir um bisturi te abrindo por alguma parte do corpo. Ah! Como sangra. E a raiva da um jeito de querer limpar todo esse sangue regado de memórias entupidas, cegas e surdas, até então.

Ser mãe de uma criança é, primeiramente, ser mãe da sua própria criança interna com os bracinhos pedindo colo.

Nos reconectamos com a nossa criança tendo uma outra criança nos braços. Quanto barulho, quanta simbiose!

Sem dúvida a transferência emocional vai acontecer, em algum momento, ainda que de forma inconsciente. As duas crianças vão se reencontrar e as consequências virão. Por isso é comum ver filhos inseguros, carentes, abusados, revoltados, violentos, desconectados e etc…

É horrível ser mãe.

É difícil demais ver a extensão da nossa sombra neles.

É tão difícil que nos escondemos atrás desta palavra inconsciente para nos proteger diante do autêntico poder de escolha.

O livro aborda sobre a biografia humana, ou seja, rever o transcurso da nossa história muitas vezes nos revela emoções estagnadas que comprometem as relações familiares e principalmente o desenvolvimento sadio de um filho.

Então, a insegurança, a depressão, a violência, a desconexão, a raiva, o desconsolo de um filho possivelmente tem outro nome e outra possível justificativa.

Ele não é assim porque ele decidiu “encarnar” este papel. Ele, na verdade, suplica que um dia seus pais possam rever as suas biografias e possam reinterpretar as suas feridas com um novo olhar curativo.

Cadê o paraíso? Cadê?

Ver um filho sendo absorvido por um meio onde plasmamos nossos traumas é ser testemunha de um padecer sem fim.

Estamos falando de um filho. Falo da minha filha. Falo do meu lado místico. Falo do meu lado intocável. Protegido pelo santuário da oração e da fé.

Ela é o milagre que me abençoou e que também me tirou do meu conforto.

Ser mãe é viver na fronteira da loucura.

Não quero ser mãe, MAS QUERO TER A MINHA FILHA COMO MINHA.

Tudo é tão perfeito quando observamos uma gravidez. São nove meses de espera. Por que esperamos tanto tempo? Ainda é pouco se paramos para pensar na dimensão de tudo que acontece fora de uma barriga.

Precisamos desesperadamente destes nove meses. Através dele vamos comungando com este tal “paraíso” sem saber como. Essa resposta não nos pertence.

Depois disso não sabemos estar sem o filho. Ele é “nosso”. Lutamos por ele. Parimos por ele. Queremos ele. Enfim, “sequestramos” ele da nossa própria natureza.

Eu esperei por ela e sigo esperando pelo nosso próximo amanhecer com o coração preenchido. Ela me escolheu e eu a escolhi, está tudo certo.

Eu a quero muito. Esse sentimento é o verdadeiro paraíso.

Só não sabia que precisaria cuidar de uma outra criança além dela e, em muitos momentos, primeiro que ela.

Isso ninguém me explicou, pois no exame era só um bebê, apenas me preparei para estar grávida de uma filha com o nome de Marta.

Isso sim seria viver no paraíso.