A obediência

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Ontem, fui buscar a minha menina na escola e voltei com um “recadinho” de que a minha filha estava fazendo bagunça na aula de música. Fiquei cismada. Bagunça, desobediência, turma do barulho? Imaginei logo a  turminha do barulho, aquela que rotulamos de “hooligans”, de pouca coisa, de caso perdido, de má companhia. A minha menina?  Definitivamente não. Definitivamente não pode ser.

Perguntei a ela o que tinha acontecido e com apenas cinco anos não soube me narrar o acontecimento com riqueza de detalhes. Por alto me disse: “mamãe, estava brincando com uma amiguinha e falando um pouco alto.” (queria chamar atenção!).

Tudo bem. Não foi preciso explicar mais do que isso para que me desse conta das minhas expectativas sobre o comportamento dela, ainda no corpo de uma menina de cinco anos.

Comecei então a perceber que a esperada obediência pode nos levar a educar os filhos dentro de dois caminhos:

O primeiro é educar os filhos a obedecer com ou sem dor de barriga. A todas as regras se obedece: a todas as pessoas mais velhas, aos professores, aos familiares, a babá quando está sob seus cuidados, enfim, diante de um pedido vindo de pessoas com “discernimento” com “experiência” de vida se obedece e ponto final. É um obedecer sem questionamento, sem polêmica, sem desafio, sem troca, sem escuta. Temo que este tipo de educação está mais para colher a aprovação, e consequentemente admiração ao próximo, do  que priorizar a atitude da criança em si. No final queremos que nossos filhos sejam amados e incluídos pelos demais, e ainda, que através da nossa educação, nós pais, possamos também colher elogios e reconhecimentos. Não queremos ficar em evidência quando as regras são, de alguma forma, “transgredidas”. É! Acho que está aí o problema! Mais uma vez estamos mais incomodados com o que vão  pensar de nós como pais que com o próprio comportamento do filho (difícil aceitarmos isso, mas acontece!).

Então, justificamos: – Ele nunca fez isso  – Em casa ele não faz isso – Ele é tão comportado e etc.

Muitas vezes, realmente nos surpreendem algumas atitudes que ainda não tínhamos presenciado. Mas por que temos a tendência de  colocar uma criança no papel do previsível todo o tempo?

A uma criança que se comporta de maneira sempre previsível não estará faltando um pouco mais de liberdade para realmente se mostrar como é?

Pensando sobre tudo isso quando recebi o “recadinho” da escola, cheguei à conclusão que não queria colocar a minha filha no papel da menina bem comportada, da menina obediente, da menina boa aluna, sem antes querer enxergar a minha própria filha.

E quando eu a olhava no parque, via uma criança de cinco anos, repleta de entusiasmo, de energia, de sim e de não.  Ela não apenas sorri, ela “rosna”; ela não apenas concorda, ela principalmente discorda.  Ela não é uma rosa artificial de canto de sala, mas uma rosa de verdade porque inevitavelmente também tem  seus espinhos.

Preciso assumir o seu todo e não querer cobrar dela apenas aplausos e chuva de confete quando  se comporta dentro da obediência esperada.  Nós não precisamos disso para ter segurança da boa educação que achamos dar a ela e muito menos,  precisamos disso para que ela se sinta aceita, incluída e respeitada pelos demais, sejam professores, amigos, instituições, ideologias. Todos precisam conhecer a minha filha dentro da liberdade dela de querer dialogar com a palavra obediência; assim ela vai assumindo o resultado dessa escolha.

O segundo caminho, que tento a cada dia, é o da possibilidade de educar filhos dentro do diálogo com a obediência. Acho esse caminho mais cansativo a princípio, porém infinitamente mais respeitoso, mais construtivo, mais autêntico e menos vaidoso. Querer realmente “enxergar” uma criança diante de uma atitude de desobediência é primeiramente dispor de paciência e de abertura para realmente querer conhecê-la. Se esperamos que uma criança simplesmente fique quieta, arrume, sorria, ou fale tchau porque é assim e pronto, queremos dela comportamentos automáticos, e não espontâneos. Estaremos “formatando” essa criança e não ajudando a criar uma criança dentro dela.  Assim, quando chegamos na fase adulta, seguimos tendo as mesmas atitudes porque é o que esperam de nós e não porquê, muitas vezes, pensamos assim. Deixar que um filho dialogue com a obediência não quer dizer  deixá-lo fazer o que  quiser a qualquer hora, não! Mas sim querer entender o motivo que o leva a ter determinado comportamento e educá-lo dentro das suas possíveis consequências.

E com as consequências ele vai aprender e entender o motivo de se comportar de uma maneira e não de outra, que ele é o responsável por suas escolhas.  A obediência vai sendo construída e não simplesmente imposta.

E em tantos outros momentos ele vai querer discordar do que esperamos dele. Ele também precisa ter o direito de poder discordar. Discordar é uma grande ferramenta que muitas vezes,  nos faz exercitar o pensar e a assumir a nossa diferença. Aliás, sabemos que podemos pensar, logo discordar, logo sugerir, logo relativizar, logo recriar? Mais uma vez, nós, familiares, professores, ideologias precisamos ser menos vaidosos quando olhamos para uma criança ainda limpa de doutrinas.

Temos a sensação de que o mundo já está concluído e acabado, que tudo está dito e por assim dizer estabelecido. Ledo engano! Precisamos também da “desobediência” para sair da comodidade de um sistema cheio de homens com acúmulo de “cia”, prepotência, arrogância e menos valia para seguirmos recriando a esperança.

Não precisamos buscar muitas teorias para percebermos como é importante para nós pais, dialogarmos com a obediência. Por que aprendemos tanto com um filho? Porque ele nos faz pensar de outra maneira através das suas interessantes “transgressões” diárias se assim permitirmos.

Filho, amor incondicional?

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Por que quando um filho nasce precisa ser amado de forma incondicional pela mãe? Ele acabou de nascer, aquela mulher acabou de se tornar uma mãe, eles estão se conhecendo por primeira vez, um não sabe nada do outro. Quem é essa mãe, quem é essa criança? Ninguém sabe. Ninguém pode saber. Ali nasce o começo de uma relação. Ali acaba de nascer uma enorme possibilidade para esse amor. E que amor é esse? O incondicional? Será mesmo?

Não tenho a menor dúvida que o amor que sinto pela minha menina seja absolutamente único, incomparável e totalmente necessário dentro de mim.  É uma espécie de amor viciante, transformador, cativante, milagroso, altruísta, corajoso, lutador, mas também dependente e, muitas vezes, vaidoso.

É um amor que não conseguimos descrever, simplesmente é assim. Do jeito todo que ele é.

E, justamente, por ele ser desse jeito todo incluindo o vermelho pulsante cheio de vida e de alegria, mas também o vermelho fosco quando os limites ficam claros na relação entre mãe e filho, que começo a pensar: Como desconsiderar a condição que também existe dentro deste amor?

Pelo simples fato de amar um filho também dentro da vaidade e do apego já estamos falando de condições. Penso que a vaidade faz com que esperamos “algo em troca” e o apego, a posse, faz com que não saibamos amar em total liberdade que é uma das condições básicas do amor incondicional.

Quando comecei a pensar assim vieram-me algumas defesas dentro do meu ser materno: percebia-me querendo “amarrar” esse amor incondicional dentro do meu coração de  qualquer jeito, mas aos poucos ele foi se tornando menos egocêntrico dentro de mim e mais humanamente verdadeiro.

Foi quando eu despertei dentro das minhas condições de um ser mãe que simplesmente quer seguir amando a sua menina sem adjetivos.

Durante esses cinco anos de maternidade venho me surpreendendo com esse amor que sentimos por um filho. Ele é tão sublime quanto absolutamente carnal. Tal amor não apenas contempla, ele também xinga, fica desbocado  e esbraveja.  Não dá para amar esse amor apenas nos momentos de obediência, de calmaria,  de sintonia.  É inacessível amar esse amor apenas dizendo sim. E como deve ser “desumano” amar esse amor na dor de uma distância sem fim. Por vezes, também é irritante amar esse amor dentro das escolhas de um filho. Em infinitos momentos é contraditório amar esse amor que liberta, mas que também suplica em segurar a cria dentro de si.

A parte carnal desse amor nos converte em pessoas que amam. E dentro das pessoas que somos existe uma infinidade de sentimentos/emoções  tão legítimos quanto o amor. A raiva, o medo, a tristeza são alguns deles.  E levamos esse coquetel para a relação com um filho.  E dentro dessa verdade acredito surgirem condições naturais que existem dentro de cada afeto – de cada amor.

Isso não torna a capacidade de amar mais ou menos, não torna o amor mais ou menos valioso, mais ou menos importante, mais ou menos com cara de uma amor de uma mãe por um filho.

O amor por um filho é um amor que se sente e que se respeita, mas não se mede e nem se classifica (não tem motivo para querer classificá-lo).

Quando estou diante dos meus limites percebo claramente que esse amor sem querer nada em troca é mais ensaiado que real. Sou deste mundo, vim desta terra, me alimento também dos meus instintos, pasto nos meus traumas e sou a cara do meu passado. Como posso comungar de um amor em total liberdade se eu ainda estou tão atada a essa terra cheia de carma?

Ainda não posso como eu gostaria, mas não sei amar assim, ainda.

O meu amor tem expectativas, tem exigências, tem rigidez e, como não falar,também tem vaidades.

AH!! Essa tal de vaidade…

Ela aparece sem querer ser notada, ela dissimula a própria existência. Mas ela está ali, no dia a dia.

Em vários momentos como foi (é) difícil aceitar que a minha menina vestisse uma roupa diferente da que eu tinha escolhido para ela;  como é difícil aceitar uma desobediência de um filho quando todos nos olham e nos apontam o dedo; como é desconfortável aceitar quando o nosso filho não é o mais interessante, inteligente, querido do grupo e sim apenas mais um confundido dentro do todo.  Como não é fácil, em muitos momentos, aceitar uma escolha de um filho quando sabemos que não é a mais “normal” dentro das práticas sociais; como é difícil aceitar algumas nuances da personalidade de um filho quando é o oposto do que “sonhamos”; como deve ser  também difícil aceitar as imprudências de um filho quando compromete a  educação que damos a ele e como não deve ser nada fácil aceitar quando o filho quer sair de casa.

Afinal ele veio da nossa natureza, do nosso calor, da nossa água, do nosso puerpério, do nosso mistério. Mas ele não é nosso e NÃO veio para atender, suprir, alimentar às nossas expectativas.  Para Isso com toda a certeza ele não veio.

Nós, que passamos uma vida nos doando entre leite, afeto, noites a dentro, cuidado, presença, educação, amor… aceitaríamos de forma incondicional que um filho deixasse de nos amar ou que fosse morar com o pai, ainda pequeno por escolha dele, ou que escolhesse a mãe do amigo como a referência de mãe perfeita para ele, ou que fosse visto na escola como aquele “sem futuro” por todos os professores, ou que optasse por viajar sem data para voltar, ou que defendesse a sua esposa (o)  nos tirando a total razão, ou que rejeitasse a nossa opinião por ser antiga e descabida,  ou que esquecesse do nosso aniversário, do dia das mães enquanto se diverte com amigos em festas e Rock`n Roll, ou que nos culpasse por seus traumas na vida, ou que apontasse as nossas falhas como justificativa da sua falta de sorte e sem esquecer; aceitaríamos que nos colocassem em uma casa de idosos quando no futuro não pudesse cuidar de nós?

Ajoelhada, segurando na sinceridade do meu amor, não sei responder.

Dentro da condição tenho uma grande oportunidade de me conhecer melhor. A condição me traz lucidez, aceitação, acolhimento e transformação. Graças a ela me sinto honesta com a mulher, mãe, menina que sou. E dentro dela também sou capaz de ver as condições da minha filha diante de mim e proporcionar-lhe o mesmo direito em acolher os seus limites e assim, querer transformá-los também.  Na condição busco cada dia mais me despertar com mais consciência dentro desse profundo amor. É um amor muito intenso, delicado, perfumado de contradições, de idas e vindas para ser condicionado dentro do sobrenatural  incondicional.

O amor incondicional vai ficando dentro das teorias que nos fazem acreditar que ele precisa existir para ser grandioso e celestial. Ele não mensura o tamanho desse amor e nem o torna mais digno, mais anjo e santo,  mas “mascara” as condições contidas nas entrelinhas que, simplesmente por isso, faz esse amor inigualável pela capacidade que tem de nos transformar em melhores pessoas.

O incondicional, o sem esperar “nada em troca”, o desprovido de ansiedades, reconhecimento e expectativas deixo pelo caminho, pois ainda sou apenas uma mãe para sentí-lo.

Quer brincar, mamãe? EU? (socorro!)

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O brincar é fundamental dentro da condição de uma criança, uma vez que é através  dele que tudo acontece. A criança tem a grande possibilidade de se  perceber brincando e também de perceber aos demais. O brincar ensina, desenvolve, acrescenta e ajuda, e muito, a transformar  gente pequena em gente grande.  O seu desenvolvimento se dá de maneira natural e respeitosa, sem pressa, sem condicionantes, sem artificialidade e sem discursos dirigidos.

Sou absolutamente favorável ao aprender brincando e do brincando simplesmente por brincar!

Porém, todo esse entendimento ganha um entusiasmo especial, na maioria das vezes, quando o nosso filho está brincando com a professora da escola, com os amiguinhos, com a titia, com os avós ou sozinho.

Quando acordamos, muitas vezes, o que queremos é nos conectar com o dia de uma forma diferente e não queremos ouvir: “vamos brincar mamãe?” Quando o dia chega ao final, muitas vezes, essa mesma frase é a última coisa que combina com o nosso humor.

Em muitos momentos precisamos nos programar para encarnarmos a pele da disposição. Gente, cadê a disposição? Por que não tem sido uma tarefa fácil para nós?

Primeiro porque nos fazem acreditar que uma vez mãe, temos que brincar e que brincando com os filhos eles serão mais felizes. Fazem-nos acreditar que criança saudável é aquela que tem a mãe na brincadeira. Que a boa mãe é aquela que brinca, brinca e não cansa de brincar. É aquela que prioriza todos os dias brincar com  ele. Que família em conexão é aquela que senta no chão com o brinquedo na mão.

E segundo, porque a nossa vontade  ficou em segundo plano diante da condição da boa mãe que nos fazem acreditar que devemos ser.

Isso é muito sério.

Acredito que na hora do brincar tem ficado explícito todo esse conflito interno em busca do fazer por “ter” que fazer e não o fazer por “querer” fazer.

Já brinquei MUITO  com a minha filha. Dentro de casa, no parque, na praia e na montanha. Mas de uns tempos para cá comecei a questionar muito esse MUITO.

Até seus quatro aninhos eu estava sempre ali, misturada com ela e com seus brinquedos. Eu brincava, criava brincadeiras e em outros momentos achava que brincava pelo simples fato de estar ali. Não me questionava o “motivo” que me fazia brincar com ela. Se eu brincava porque eu queria, se por culpa ou por obrigação.

 Ser criança saudável, acolhida e feliz é ser aquela que a mãe brinca junto, então vou questionar o quê?

Ali estive durante infinitas brincadeiras dentro da ausência de questionamentos. Apenas queria “acertar”.

Na transição dos quatro para os cinco anos,  comecei a questionar   aquela pergunta que minha menina tantas vezes me fazia: “Mamãe, quer brincar?”

E em muitos momentos a resposta dentro de mim era “NÃO”.

O não apareceu de forma nítida dentro da minha vontade e percebia o quanto evitava me escutar de verdade. O quanto evitava ser sincera comigo mesma. Comecei a entender que brincar com ela sem vontade era o mesmo que “fazer de conta” que estava ali. Um “fazer de conta” para mim e para ela e por isso as brincadeiras tinham pressa de terminar. EU tinha pressa de acabar em vários momentos. E ela se contentava, pois afinal me teve um tempinho só para ela e eu me alimentei da esperança de que realmente estive brincando dentro daquela fantasia.

Passei a não ignorar mais minhas vontades. Passei a querer olhar para a minha completa indisposição quando aparecia (e sempre aparece). E comecei a ver que na casa da melhor amiga acontecia o mesmo, na da vizinha e na da médica pediatra E era mais comum do que eu podia imaginar.

 Sou adulta já criada e mal acabada e tenho ansiedade, estresse, impaciência e irritabilidade. Não tenho mais a energia de uma criança. Ela já se foi. O que ficou foi uma mãe, isso eu posso ser. Isso eu quero ser.

A partir desse momento comecei a ser fiel com a minha vontade. Comecei a permitir que ela se manifestasse. Às vezes sinto um incômodo quando percebo que a minha vontade anda meio sumida. Mas como forçar uma vontade quando não a temos? É tão “feinho” brincar forçada! A brincadeira sai entre os dentes e o sorriso amarelo se torna a cereja do cupcake  do aniversário da Pepa.

O mais importante é tentar entender porque a vontade de brincar é sinônimo de maternidade bem sucedida. Porque deixamos que nos convencessem disso?  Porquê?

Estamos sempre querendo agradar o lado de fora, na maioria das vezes, mas não a nós mesmos. Fomos capazes de nos transformar em um ser mãe porque demos vida à nossa vontade de querer uma criança (falo dos casos que foram por opção). E justamente agora quando ela está em nossos braços,  abdicamos do nosso direito de ter vontade?

Acredito que não.

A mesma vontade que nos fez engravidar e dar vida a uma criança é a que nos dá o direito de não querer brincar com a nossa criança quando não temos vontade.

É a mesma por mais que existam várias teorias reforçando diretamente ou indiretamente que a boa mãe é aquela que brinca sempre, independente da sua vontade. Aliás, as teorias que nos rodeiam se interessam em saber sobre as nossas  vontades, desejos, preferências, dificuldades?

A boa mãe tem que ser generosa consigo mesma em primeiro lugar. Uma mulher que não se conhece dificilmente será uma mãe que também se conheça. Nosso filho precisa de uma mãe de verdade ao seu lado e se essa mãe não  senta para brincar, talvez seja  porque ela prefira investir um tempo maior fazendo uma boa comidinha para saborear com o seu pequeno. Ou então porque ela priorize reunir os amiguinhos em casa e queira preparar um lanche cheio de amor para eles. Ou porque ela anda pesquisando um teatro super legal para ir junto com o seu filho no sábado à tarde. Ou porque para ela  o momento de contar historinha à noite agarradinha com ele é o contexto que ela mais está “presente” de verdade. Ou porque prefere brincar quando realmente  tem condições de estar de  “corpo e alma” na brincadeira com o filho e até mesmo  porque está passando por uma fase cheia de impaciência (claro que acontece) e não consegue brincar.

Uma criança quando quer brincar com a sua mãe pede presença, atenção, afeto. Porém há muitas maneiras de suprir essa necessidade sem estar, necessariamente, brincando. O brincar é mais uma deliciosa opção quando se tem vontade de brincar. E o principal é que não estamos tirando do filho essa oportunidade e sim dando a ele uma outra opção quando  também decidimos brincar.

Também já passei por aquela fase de “ter” que brincar para evitar colocá-la na televisão (época que ainda não sabia da importância do ócio). Acho que era mais penosa e enganadora essa “manobra” já que é preferível ver uma criança na televisão e dentro de um ambiente  com harmonia do que brincar dentro de uma brincadeira  com pressa de acabar em total desarmonia.Essa é realmente uma atitude altruísta, educadora? Aliás, altruísta para quem?

Hoje em dia quando eu brinco com a minha filha é realmente delicioso, pois nesses momentos sei que estou brincando (sem telefone, redes sociais, computador) de verdade e sem distrações! Não é todo dia, nem necessariamente a cada dois dias, ou uma vez por semana, pois a quantidade do tempo, para mim,  não define a qualidade da brincadeira.

Às vezes me pego pensando: “quando ela for maior não sentirei “remorso” por não  ter brincado mais tempo com ela?”

(olha aí o tal do remorso de novo, da culpa disfarçada)

Concluo  que não, pois terei a certeza que estive  de verdade, infinitas noites contando historinha para ela com vontade, fazendo infinitas comidinhas junto com ela com vontade, conversando infinitas manhãs, tardes e noites com ela com vontade, rindo infinitas vezes das palhaçadas dela com vontade, passeando com ela com vontade, recebendo os amiguinhos dela em casa com vontade, estando com ela na casa das amigas com vontade. Enfim,  porque infinitas horas da nossa história estivemos realmente juntas construindo a nossa relação com a vontade de querer conhecer, sentir e respeitar uma vontade.

Quando a filha “assume” a condição de mãe

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Sabe aqueles dias que dizemos cobras, crocodilos e lagartos para o marido?  Aconteceu aqui em casa numa manhã dessas e a reação da minha menina foi o que me trouxe a escrever esse texto.

O ideal, o prudente, o esperado é que ela não tivesse me visto feito uma leoa com abstinência de maturidade, mas nesses cinco minutos aconteceu. Então, ela veio até mim e me disse:

– Mamãe, não faça isso com o papai.

(Saiu e foi dar vários beijinhos nele.)

A minha menina tinha toda razão.

O seu olhar sobre mim, cheio de ternura, tirou-me do modo impulsivo, irracional, histérico.

No caminho da escola quis tanto retribuir aquele olhar que recebi dela, logo na primeira hora do dia, com um olhar cheio de pedido de desculpas. Quis que ela entendesse minhas desculpas vindo não apenas da minha condição de mãe, mas, sobretudo, da minha condição de ser humano.

Foi um momento oportuno para ela me ver como ser humano falível que sou, apesar de ser sua mãe. Aliás, naquele instante, eu estava mais para filha do que para mãe! A minha menina me corrigiu, pois sabia que minha atitude não estava correta. Estava me reeducando.

E aceitei que ela me reeducasse dentro daquela atitude desmedida, pois estava precisando. É necessário ser humilde com minha condição de educadora. Naqueles cinco minutos fiz tudo diferente do que ensinei  a ela. Em cinco minutos quis ser apenas humana, não queria ter nome, estado civil, nem herdeira.

Queria espernear sem razão, sem teorias, sem explicação.

Depois que tudo passou, como sempre passa, fiquei refletindo sobre o “tom” das teorias que nos tentam instruir, disciplinar e conduzir sobre “o que não deve ser feito na frente de um filho” quando se refere à  atritos familiares. Acredito de verdade que os atritos entre o casal devem ser evitados e  que não ocorram na frente de uma criança. Mas e quando acontece bem ali, na frente dela?

Por mais harmonioso, equilibrado e maduro que seja um casal, um dia o caldo pingará e respingará na blusa branca do filho.

E assim começo a entender que temos duas possibilidades: a primeira é tentar desesperadamente passar água quente para que a mancha saia, pois a prioridade é que ela deixe de existir e a segunda é enxergar aquela mancha, analisar sua densidade, questionar se precisa deixá-la de molho por um tempinho antes e por fim, ver se a mancha sai. Tem feito tanto sentido para mim a segunda possibilidade! Acredito que isso é o que falta a tantas teorias circulantes entre nós  e que acabam, quase sempre, nos colocando dentro de um comportamento de enorme exigência como mãe e pais que somos. As possíveis consequências que alertam sobre traumas e complicações emocionais infantis assustam e nos levam a uma postura demasiado rígida com nossa própria condição humana.

Acredito que os comprometimentos emocionais são muito mais suscetíveis quando acontecem dentro de  lares com aparência de “ideais”, onde as emoções são, muitas vezes escondidas, repreendidas, tolidas  do que naqueles outros onde de tudo é falado, conversado, transformado, aprendido e entendido.

 Assumir nossa condição de humano é oferecer a um filho a possibilidade dele também sentir-se humano na condição de filho, já que ele precisa também chorar, gritar, sentir raiva enfim,  experimentar uma frustração e poder expressá-la. Isso faz dele não um filho perfeito, mas imperfeitamente perfeito.

Assim também somos nós mães,  imperfeitamente perfeitas.

Querer enxergar  a mancha quando respinga na camisa de um filho, amplia as possibilidades dentro da relação com a nossa criança. Através desse olhar ganhamos a sabedoria de acolher e não de desmerecer a nós mesmos quando o caldo derrama. Ganhamos a grande oportunidade de aprender com nossos filhos, de deixar os nossos “super poderes” também nas mãos deles.

Passamos a contemplar a riqueza da maternidade, inclusive nesses momentos de “destempero emocional”  quando vemos através do nosso filho a nossa verdadeira estrela – guia; percebemos que a rigidez hierárquica entre mãe e filho se desfaz e nos aceitamos também como “filhas” dos nossos filhos.

Sexo, maternidade, PERAEEEE!

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Depois da segunda vírgula do título pensei: Peraeee! Maternidade e sexo? Não ,meu amor, não quero esse sexo; isso não serve mais para mim; quero muito mais desse sexo. Quero sexo com cara de espera, quero esperar o tempo que for para ter esse nosso sexo; quero com sentido de humor; quero um sexo com cara nova.

Aquele sexo antigo não sei fazer mais não. Aquele de todo dia, ao menos de toda semana, já desaprendi “rapidim”. Esse com cara de “garantia”, de ter que fazer para se convencer que o amor não acabou e que ainda somos um casal de casados e não um casal de amigos, saiu correndo de dentro de mim no primeiro momento que viu jorrar leite dentro da minha condição de mãe.

O meu sexo agora é comigo mesma!  A cada dia  sinto-me invadida por uma demanda constante que não pergunta se é hora de parar e me dá aquele desejo louco de gozar daquele silêncio, daquela calma, de gozar apenas da minha companhia, tá me acompanhando?

Agora quero fazer sexo comigo apenas; é fiquei egoísta, amor.  Sabe por quê? Porque quero com toda minha vontade apenas dormir, meu anjo.

Quero fazer sexo dormindo, de preferência sem mexer e em silêncio profundo. “E amanhã tem mais, depois também e no fim de semana?”

Sábado e domingo você quer dizer? Bom, a nossa menina já tem cinco anos, então pode ser que role um sexo diferente!

Como tudo que não muda cai na rotina, então peraeeee!

Mas, o sexo com cara de espera é tão sedutor, está até rolando um super clímax… Cara, ele está a nossa espera!!! Não vai me dizer que isso não tem seu charme?

É… meu marido virou pai e eu uma mãe. E o nosso sexo?

O nosso sexo virou a oportunidade de ter um momento a sós.

E quando acontece esse momento não sabemos o que fazer primeiro!  Ir ao cinema juntos,  sair para jantar, aniversário de um amigo, dar uma volta sem destino ou ficar apenas papeando, tomando suco com biscoito e  se deliciar da companhia do outro entre um silêncio, um carinho e um olhar?

O silêncio, a tranquilidade, a individualidade, virou um excitante sexo para nós! É extremamente prazeroso, extremamente amoroso, extremamente amante, extremamente à nossa medida esse sexo.

Tá bom, confesso que às vezes tomo um biotônico Fontoura e me abre um  apetite danado por aquele sexo moderno, selvagem, carnal e desmedido.

Mas, bem só de vez em quando….

Tem alguma coisa errada com o meu casamento, com o meu marido ou comigo?

Sinceramente, já passamos dessa fase de que casal feliz é sinônimo de sexo bem feito toda semana na cama! Agora estamos naquela outra fase em que casal feliz é aquele que descansa sem ânsia, que espera sem pressa, que acaricia sem idolatria,  e sobretudo,  que ama e nem sempre na cama!

o “trauma” e os filhos

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Há muito queria escrever sobre isso, mas ainda faltava  uma inspiração  que me ajudasse a clarear de forma mais nítida meu sentimento sobre esse assunto… e com gratidão ela acabou chegando.

Ontem à noite, estava procurando um video no Youtube da Louise Hay para escutar antes de dormir e  escolhi um que ela falava da sua própria história.

Resumidamente, ela teve um passado muito sofrido de total menos valia,  com muitos abusos sexuais ainda menina, inclusive do padrasto. Saiu de casa muito cedo, teve um filho que deu para adoção e na fase adulta desenvolveu um câncer.

E durante sua caminhada ela começou a frequentar uma igreja que desenvolvia um trabalho sobre a força do pensamento. Tudo fez tanto sentido para ela que a transformou na Louise Hay seguida e admirada por milhares de pessoas pelo fantástico trabalho que desenvolve.

Quando ela teve o câncer, relatou que foi o momento de provar para si mesma que todo o trabalho que desenvolvia realmente tinha crédito. Começou então um profundo trabalho de peregrinação dentro das suas próprias feridas. Entendeu que os padrões de pensamento podem ser mudados e com isso mudanças internas vão acontecendo e a possibilidade de curar-se também.

Depois desse relato pensei: Hoje eu estaria vendo seu vídeo se ela não  tivesse passado por tudo que passou? Teria comprado o seu livro? Estaria falando dela? Saberia quem ela é?

Com quase toda certeza, Não. A ela só foi possível encontrar a força, porque teve que se defender do nada que possuía; só foi possível  achar seu caminho por ter superado a descrença total sobre si mesma e só foi possível  encontrar a sua missão  por ter experimentado os seus pensamentos estacionados na condição de vítima. Muito possivelmente uma vida tranquila, com tudo ao seu alcance, teria feito  com que ela se acomodasse, sem motivos para viver uma catarse em busca de si mesma.

Sinceramente, consigo ver dor na sua história, claro, mas trauma não. A sua busca atroz pela cura interna fez com que ela não sufocasse todo seu sofrimento dentro da condição de vítima preferindo libertá-lo na condição de aprendiz.

Enquanto escrevo tenho a sensação que estou simplificando toda a sua luta, que foi muita, mas não estou. Sou consciente que tudo isso durou muito tempo e foi acompanhado de muita dor, muita tristeza, muito desespero, muita raiva, para que ela ganhasse novas possibilidades dentro de si.

Quando já estava em silêncio e deitada na cama  com o quarto escuro, percebi que a história dela me fez entender que a condição favorável para que o trauma exista é: paralelo a ele existir também a condição de vítima.

Se ao invés de vítimas nos colocarmos como pessoas capazes de decidir, de optar por escolhas e, consequentemente responder por nossas vidas, aquele acontecimento terá a sua dor, o seu sofrimento, o seu “luto” mas não irá nos prender na condição da menos valia marcada pela falta de sorte. Buscaremos uma solução para sair do caos ou ao menos tentaremos encontrar uma melhor maneira de lidar com o seu lado sujo, feio, pichado.

Isso nos é pouco ensinado e acho que carecemos saber que podemos escolher por nós, que nada é finito e concluído e que nenhuma luta está perdida por maior que seja. O olhar de pena sobre o outro ou sobre nós mesmos pode nos  colocar na posição de fracassados. E aquela pena que sentimos protege quem amamos poupando-o de realmente  vencer  o que precisa ser vencido. Ele tem o direito de querer vencer, eu e você também. Este direito tem a  sua sede na raiva, na ira, na frustração que nos leva a encontrar o nosso intenso e reservado feixe de luz.

Não viemos apenas para colecionar sorrisos, tampouco nossos filhos.

Querer sustentar apenas sorrisos em suas boquinhas é querer discutir a existência inevitável dos dois lados da vida, a alegria e a tristeza.  Essa condição não está em discussão nem para mim nem para você. Por isso  nos foi dado o dom das lágrimas, para que possamos limpar o que dentro está desencaixado e precisa sair.

Com tudo isso,  passei a entender que os “traumas” que a minha menina, sem dúvida, já viveu e seguirá vivendo, serão sofrimentos que ela mesma poderá superar  desde que ela saiba que existe esta possibilidade dentro dela. E será através desses “traumas” que ela se reencontrará com a sua força, com a sua própria resiliência, com o seu próprio feixe de luz, enfim, com a sua verdadeira condição de ser quem veio para estar nesta vida.

Ele disse que ela era feia

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Em uma tarde, na companhia de amiguinhos, um deles disse para a minha menina que ela era feia. Ela estava desenhando e eu estava por ali no momento que o amiguinho declamou esse poema!

Naquele instante consegui frear a minha impulsividade materna e preferi observar a cena.

Bom, não aconteceu nada. Nada do que EU e o AMIGUINHO estávamos esperando.

Então, ele repetiu: “Você é feia!”

Ela seguiu desenhando e então eu falei com ele:

– Tudo bem, essa é a sua opinião!

Tratei aquele diálogo com total naturalidade e assim ele acabou.

Enfim, nada aconteceu entre eles e logo mais já estavam brincando com outra coisa. Mas dentro de mim muita coisa aconteceu.

Percebi tão claramente como muitas vezes nós, adultos, temos a tendência de introduzir “regras” narcisistas nos diálogos entre os pequenos. Como nós, adultos, estamos longe do entendimento que as crianças  tem sobre as palavras que utilizam. Como nós, adultos, vemos os nossos filhos quase sempre de forma tão frágil que precisamos “defendê-los” de tudo. Como nós, adultos, não queremos conceber um possível “trauma” na vida de um filho. Como nós, adultos, “lutamos” pela posição de príncipes e princesas dos nossos filhos dentro das relações afetivas.

No decorrer de cinco minutos, que foi o que durou a declamação do poema, tudo isso ficou nítido diante de mim.

E a minha menina apenas continuou desenhando.

Era eu quem precisava me proteger e não ela. Ela demonstrou uma condição emocional que me convenceu da importância e validade dos nossos diálogos em família. Naquele momento colhi algo de muito belo dentro da educação que vamos construindo dia a  dia.

  “Não pensamos igual, por isso cada um pode ter a sua opinião. Porém, o mais importante é a sua própria opinião sobre você, minha menina!”

Essa frase é nosso mantra aqui em casa e naquele momento vi que começou a dar frutos.

O que é a palavra “feia” vindo de uma criança de cinco anos? Nada! O feio, o bonito é o mesmo que o bom e o mau para eles. Apenas reproduzem a “emoção” condicionada à palavra quando os adultos as utilizam.

Reproduzem para expor suas frustrações.

E nós, adultos, sempre queremos nos defender daquilo que, na maioria da vezes, necessitaria apenas  de silêncio e não de defesa.

Mas só conseguimos ficar em silêncio quando conseguimos respeitar o que desconhecemos. Um diálogo infantil merece respeito ao menos para ser ouvido e não atropelado.

Claro que tive o ímpeto de “arregaçar” as mangas e dizer que minha filha era muito linda e blá blá blá. O que eu teria contribuído com essa fala minha? Nada. Provavelmente o menininho seguiria declamando o seu poema por ter conseguido chamar a atenção, eu acostumaria minha filha a ter uma proteção constante do seu lado, e principalmente, estaria tirando dela a importante condição de entender que nem sempre vamos agradar a todos. Que nem sempre a sua beleza precisa ser vista como bela para se sentir aceita e amada. Que sua aparência é apenas uma aparência, nada mais que isso.

Naquele dia soube acolher a minha criança interna pedindo por proteção e talvez fosse ela quem precisasse de elogios quando ouviu a palavra feia!

Nascemos para quem?

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Nascemos do ventre de uma mulher para ocuparmos alguns papéis dentro das diversas relações  que construímos durante a vida. O papel de filho, de irmão, de aluno, de amigo, de colega, de neto, de sobrinho, de funcionário, de chefe, de marido, da esposa, de pai, da mãe, dos avós, dos bisavós.

E dentro de cada papel esperam de nós atitudes que correspondam ao discurso já estabelecido como aceitável. Gente, é muita coisa! Uma criança quando nasce, instantaneamente, ela já nasce filha de alguém, neta de alguém, sobrinha de alguém, irmã de alguém, prima de alguém. Por alto, já são 5 papéis que exigem dela posturas distintas. Vamos lá: Quando é olhada como filha é esperado dela que seja uma boa criança e que durma bem à noite! Quando olhada como neta, os beijinhos na vovó não podem faltar, por favor! Quando olhada como sobrinha precisa obedecer para ficar com a titia! Como irmã de alguém, espera-se dela a compreensão de que o irmão também precisa de atenção e no caso de filha única, AH, que não seja mimada!!! E sendo prima o mínimo é que saiba emprestar seus brinquedos!

As expectativas são enormes, infinitas, automáticas e claro, em sua maioria, sem lucidez.

Então nascemos para quem?

Para eles; para os outros; para o que esperam de nós.

Até hoje, olhares alheios esperam de mim muito mais do que posso dar. Justamente por não pensarem em mim e sim neles próprios. E é assim que vamos alimentando as relações, dentro dos nossos próprios desejos,  dentro do nosso próprio umbigo.

E não  fazemos por “maldade”.

Fazemos porque desde que nascemos os olhares sobre nós apenas dialogam com as suas próprias necessidades, apenas refletimos o que  cada coração busca em nós.

 Não somos  enxergados apesar de vistos.

E assim vamos repetindo o que aprendemos.

Quando recebemos uma criança em casa para brincar com o nosso filho, esperamos que seja educada, obediente, que brinque em harmonia, que fale obrigada, que diga por favor e etc. Esperamos muito dessa criança! Afinal, esse é o comportamento que uma criança convidada tem que ter na casa do amiguinho né? Olha só… já estou  esperando que a amiga da minha filha se encaixe no papel da “boa” amiga.

E se sair do esperado? Se ela chegar à minha casa de cara fechada, emburrada, não querendo dividir os brinquedos, gritando, não falando obrigada e por favor ? Provavelmente acharei mal educada essa  criança que ocupa o papel de amiga da minha filha. Preciso dar condições a ela de mostrar-se quem é de verdade sem condicioná-la dentro dos MEUS desejos.

Porém, há outros papéis que também  nos definem de fora para dentro; O papel do tímido, do agressivo, do extrovertido, do ciumento, do burro, do inteligente, do inseguro, do homossexual, do galinha, do corajoso, do café com leite, do independente, do fraco, do arrogante,  do invejoso, do sortudo, do feio,  do mimado, do bipolar.

E mais uma vez somos costurados dentro das expectativas alheias. E o delicado de tudo isso é acreditarmos ser realmente  assim.

Isso pode “encolher” o nosso espírito dentro de uma ferida que dói sem ser visível ao invés de expandi-lo na sua exuberância divina. Para sermos convencidos do contrário precisamos nos libertar daquele olhar que mais uma vez colocou suas próprias frustrações e fragilidades sobre nós.

E chega um momento que colecionamos pouca coisa dentro de nós e o viver vai ficando pesado, pesado e mais pesado.

E mais uma vez pergunto: Nascemos para quem?

Ainda não é para nós!

Apenas nascemos para nós quando entendemos de maneira muito clara que o papel mais importante da nossa vida é o papel representado dentro da relação estabelecida entre a nossa própria essência com o nosso próprio olhar.

Acredito que com essa atitude  nos convencemos de verdade que nascemos para nós e passamos a sentir como vale a pena estarmos vivos dentro de nós e não apenas para os demais.

E sobre os papéis, seguiremos com eles, mas não com uma postura a ser  “atendida”, “cumprida”,  MAS na condição de uma oportunidade para que o outro nos conheça como somos de verdade também dentro daquele “papel”.

E hoje, pensando em nossos filhos: eles nasceram para quem?

autoanálise

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Estava no parque com minha filha, depois que saimos da escola, brincando na areia quando me dei conta estar rodeada de babás com as “suas” crianças. Então, o papo começou, “Cómo te llamas?” y ” la niña?” e blá, blá, blá… No decorrer da conversa, uma delas me contava que ficava no total de 9 horas no emprego e inclusive pegava as crianças na escola e as trazia para o parque depois. Minha cabeça foi rápida demais no julgamento: Cadê a mãe? Então, a conversa paralela começou, sem trégua. De um lado o español fazendo mais e mais perguntas e de outro o português “condenando” esta mãee!

Do pai não quis saber, sei lá, trabalhando, viajando, descansando … logo me convenci. Mas, quanto à mãe, nada me convencia.

Naquele momento as crianças só eram filhas de uma mãee ausente.

Naquele momento eu quis me valorizar colocando o pouco valor no colo de outra.

M A S, me percebi!

E fui me calando tanto para fora quando para dentro.

Fui acolhendo a minha mesquinhez, a minha arrogância, a minha própria reprodução de crenças sociais.

Por que estou julgando uma família que nunca vi na vida? E logo eu que me considero tao ativista pela maternidade consciente, estava apontando o dedo para uma mãe que deve estar fazendo o melhor para os seus filhos, à sua maneira.

Não tenho esse direito. Não sou melhor que aquela mãe pelo simples fato de estar ali brincando de castelo com a minha filha.

A qualidade da relação não se faz da quantidade de tempo acumulado, Mas sim da capacidade de estar “presente” naquele momento.

E por alguns minutos eu estava presente na vida do outro. E aquela Mãe, em teoria ausente, poderia estar do outro lado contando as horas para estar com seus filhos.

Foi um belo aprendizado!!

Me senti pequena, mas depois me senti serena por acolher o pouco de bonito que também tenho dentro de mim.

Autoconhecer-se é uma possibilidade para curar-se.

Se perceba hoje, pratique sua autoanálise e se transforme.

O Nepal entre Vigotsky e Piaget

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A alguns dias vi um documentário que abordava o cotidiano das crianças que tinham acesso à escola em um povoado no Nepal.

Me senti “sobrando” ali. Tive a certeza de que fui parida por um útero em outra dimensão. Seria aquela existência diante dos meus olhos de mãe, imaginária?

Depois que terminou o documentário fui me organizando mentalmente: crianças pequenas, a menor com quatro anos, caminhavam sozinhas por uma hora até chegar à escola por um caminho onde só a fé justificava a proteção. Era morro acima e morro abaixo rodeados por inclinações e barrancos. Mas aqueles pezinhos tinham a proteção da mãe terra em cada derrapada.  As pedrinhas rolavam e eles seguiam sem desistência pelo caminho de cada dia, onde tinham que passar. Ora cantavam, ora riam um do outro e aquilo parecia algo tão habitual como o pão que comemos a cada dia.

Aquilo tudo era real.

Para a mãe entrevistada no documentário, a possibilidade do acesso  das filhas à escola era  o mesmo que ter “alcançado o céu.” Para aquele coração materno, a loteria do conhecimento tinha sorteado seu número da sorte.

No decorrer daquela realidade, cenas da minha vivência me vinham à cabeça.

Enquanto aquelas crianças levantavam cedo e colocavam o uniforme da escola  com excesso de capricho com suas gravatas, (tinha gravata no uniforme!), eu me via refletindo sobre o discurso que agarro e difundo de que o uniforme mais padroniza do que liberta a individualidade de uma criança em prol de uma educação  com respeito.

Já me senti mais “inteligente” e “sábia” que muitas outras mães que não paravam para questionar aquele discurso ideológico do uniforme sobre o próprio filho. Quanta ignorância a minha ao deparar-me com outro discurso que um uniforme também pode ter. É que aqui no asfalto a educação não é um “luxo” como lá e por isso, muitas vezes,  nos perdemos daquilo que deve ser realmente relativizado com prioridade.

Aquelas crianças com aquelas gravatas se sentiam orgulhosas, respeitadas, com sorte na vida, justamente por estarem de uniforme. Nenhuma outra roupa no caminho para a escola  tinha mais convencimento que aquele uniforme. Quem dera se todas as crianças daquela região pudessem sentir-se igualadas dentro daquela roupa com cheiro tão particular.

Quando mostraram a mãe com as filhas, tomando café da manhã agachadas no chão e comendo não sei o quê aquecido, cozido nas chamas de uma fogueira, foi impossível não lembrar do leite industrializado, dos biscoitos, pães diversos, frutas, granolas, iogurtes, carnes de primeira, peixes frescos, cereais, todos em diversas categorias: orgânicos, veganos, diet,  ao alcance de um supermercado mais próximo de casa e ainda com serviço de entrega à domicílio. Apesar de toda facilidade, as crianças, filhas da urbanização, tem a insistente tendência de serem seletivas na hora de sentar para comer.

Lá na tela eles comiam o que tinham ao alcance: o fruto da árvore mais próxima. Se o gosto era bom? Não existe tal pergunta quando não se tem opção. E acredito serem mais saudáveis que muitas crianças urbanas. Médicos? Se a escola ficava a uma hora de distância, os médicos então? Não vi o menor vestígio por ali. As mesmas ervas que alimentam também devem curar.

Fiquei pensando se as crianças celíacas, com intolerância a lactose, com refluxo, alergia ao camarão enfim, com transtornos alimentares, também nasciam por aquelas “bandas” de lá.  Parece-me que aquele lugar tem demasiado cheiro de terra para tanto modernismo do lado de cá.

Sou consciente que o cotidiano mostrado estava sendo filmado e me questionei em alguns momentos,  quanto à veracidade de tudo, já que todo produto cultural tem  seus interesses ideológicos por trás.  MAS, a dissimulação, o “fazer de conta” não me pareciam possíveis dentro dos critérios da mãe terra que ali estava em cada canto. São pessoas que não sabem dissimular, nunca aprenderam sobre isso; apenas aprendem o que a natureza é capaz de ensinar. E a natureza é sobretudo verdadeira.

Ali a natureza ensina que a raiz é forte, duradoura, sábia e os frutos são filhos da boa saúde, da prosperidade, da esperança, da proteção e do milagre.

Ao ver aquela mãe se despedindo das filhas e entregando-as para aquela caminhada cheia de perigo e esforço físico, devota, ajoelhada na sua gratidão percebi-me histérica dentro das minhas certezas.

Naquelas circunstâncias, ter a chance de aprender a ler e escrever é sinônimo de melhores oportunidades na vida. É ter a carta de “alforria” ao seu alcance. De poder pensar, questionar, buscar possibilidades diferentes das que tiveram seus pais. Então, ler  e escrever é o que faz   com que uma criança que ali vive sinta-se em liberdade. O resto é puro tumulto das vitrines contemporâneas.

Do outro lado daquelas montanhas vivemos tempos polêmicos quanto à educação dos nossos filhos. Temos diversos métodos pedagógicos: o tradicional, o Waldorf, o método Decroly, o Montessori, o Construtivista e muitos outros que não conheço.

É um vai e vem entre Vigotsky e Piaget sem fim.

E todos  sobrevivem dentro de suas defesas, egocentrismo e conclusões. Qual é o melhor método? Olha, depois do décimo oitavo parágrafo que escrevo, minhas certezas já estão um pouco sem rumo.

Tento proteger minha filha dentro de um mundo acadêmico, evitando rótulos e padrões sociais, evitando a falta de liberdade de expressão, a falta de individualidade, a precocidade em desenvolver o cognitivo, a falta de acolhimento emocional, do aprendizado decorado e não sei mais sabe-se lá o quê, que agora mesmo percebo o excesso de barulho em torno disso.

Quantas preocupações  esse mundo tão urbano que vivemos cria e recria a cada minuto nos causando medo e mais medo. Nem dentro da melhor escola  nos sentimos seguros pelo excesso de exigências que carregamos dentro das nossas escolhas. E para escolher uma precisamos diminuir as outras para que tudo faça sentido.

Cadê o medo daquela mãe do alto da colina??  Eu suplico,  cadê ele? O medo que ela deve ter no peito é uma safra de medo que só dá dentro de pessoas que não tem acesso a poluição auditiva e visual que temos nós, mães urbanas cercadas pelo excesso de opções.

Boa parte desse medo que deixamos crescer dentro de nós é por conta do famoso temor de filhos traumatizados. Meu Deus! Percebo-me com pouca fé agora mesmo. É muito medo dentro do peito de uma mãe urbana. Naquele povoado do Nepal eles conhecem a palavra, T r a u m a? Trauma de quê se não sabem o que tal palavra significa? O único medo daquela mãe é das filhas ficarem sem escola. Todo o resto é do jeito que a natureza oferece. É a lei respeitada e interiorizada por eles.

Enfim, sei que não fui criada ali  e por mais que quisesse compreender, ainda não poderia comungar da sabedoria daquela mãe. E  não me refiro à sabedoria intelectualizada, mas à sabedoria em forma de fé.  Porém, posso me nutrir daquela realidade para relativizar os meus exageros e principalmente questionar o excesso de ideologias, de movimentos ativistas, da ciência que “elitiza” e generaliza pensamentos, todos em prol de uma proposta, muitas vezes, contraditória de “emancipação”, “fé” e “liberdade” individual.