Eles precisam brincar

 

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Na fase adulta fica muito nítida a importância das relações humanas na percepção individual de quem somos. É através delas que “literalmente” tocamos na nossa matéria “bruta” e começamos a lapidar o que está sobrando, o que está distorcido, o que está camuflado, o que está acanhado, o que está constrangido, o que está neurótico, o que está ferido… Enfim, o que está “doente dentro de nós”.

Quando estamos no convívio, temos uma dimensão mais real da nossa verdade instintiva. Durante algumas etapas da minha vida, eu me definia como uma pessoa que “amasse” o ficar sozinha… Foi quando me dei conta do quanto era difícil enxergar algumas atitudes/ou ausência delas quando estava em grupo. Então, era mais uma fuga do que “simplesmente” uma opção.

Hoje, são inegociáveis os momentos que posso estar comigo apenas, luto por eles com unhas e dentes, se precisar até rosno, mesmo que ainda tenha alguma “fuga” em cena consinto com consciência.

Dei um passo consciente na minha verdade instintiva.

Na diversidade provamos as nossas frustrações, os nossos preconceitos, as nossas limitações, o nosso narcisismo, a nossa intransigência, o nosso despreparo diante do saber, a nossa mesquinhez, a nossa covardia, a nossa ambição, a nossa competitividade, a nossa insignificância, a nossa inveja, o nosso medo, o nosso desamor. Tudo isso, ou para ficar menos doído, alguns deles, existem dentro de nós.

Refletindo sobre tudo isso, comecei a entender a importância do brincar na infância!

Como é urgente darmos condições para que nossos filhos brinquem enquanto ainda são crianças. Esta atividade lúdica oferece a eles a oportunidade de serem pessoas melhores consigo mesmas, desde pequenos, e com o próximo. É uma excelente dinâmica de grupo na construção da percepção de si  através da relação com o outro.

Brincando as crianças se misturam, se tocam, se conhecem, se transformam, e se definem.

Através do brincar aprendem a respeitar o espaço do outro, a compartilhar, a saber esperar, a enxergar alguém além de si mesmo, a buscar soluções diante de um problema, a defender o certo, a questionar o errado, a criar o que estar por vir, a perceber que ninguém é igual entre si, a sentir a rejeição e cultivar o amor próprio, a ter generosidade com a aprendizagem do outro, a construir com o próximo novas possibilidades, a acolher a própria ignorância e transformá-la, a pedir ajuda, a ajudar, a ter compaixão pelo sofrimento alheio, a ter um olhar amoroso diante da diferença, a entender um limite, a colocar o seu limite nas relações, a ser constante nas suas ideias, a se desculpar pelo seu erro, a aceitar uma desculpa, a ter confiança no seu Ser, a negociar com o seu egocentrismo, enfim, a aprender a ser Gente dentro de si, dentro das suas virtudes e fragilidades rodeados por um espaço ainda protegido pela ingenuidade.

Quando escolhi a escola para minha filha, hoje com 4 anos, priorizei, nesta primeira etapa, a pedagogia que tivesse o brincar como atividade principal na construção do aprendizado. Ela aprende muito brincando. Se suja muito aprendendo. Através da “densidade” da sujeira percebo o quanto ela se comunicou, saiu do lugar, se misturou, fez parte do todo, se encontrou e se perdeu dentro daquele novo dia, enfim, o quanto ela aprendeu, ainda que inconscientemente, sobre as dificuldades e facilidades de ser quem é.

Para mim esta é a base. A base emocional requer muito olhar. É preciso lutar por ela. É preciso que nos ensine Como desde pequenos. Sem ela, como sustentar uma conquista, uma alegria, uma derrota, um abandono, uma solidão, uma perda, uma doença, um “aparente” fim?

Encontrar-se consigo mesmo é mais real que poético, deveria ser disciplina obrigatória na formação acadêmica do indivíduo.

O que adianta estimular a mente se os pés não conseguem caminhar?

E o mais interessante disso tudo é quando me perguntam: Mas lá ela brinca?

2 respostas para “Eles precisam brincar”

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