relação legítima, avós e netos

Essa dádiva não fica clara quando é visível que os avós deixam os netos mais mimados, quando são permissivos em abundância, e, principalmente, quando são invasivos quanto à nossa maneira de educar. Eles são os representantes da diversão, do colinho aconchegante e, quase sempre, do tudo pode! Frases corriqueiras: _“Olha a balinha que a vovó tem para você” _ “ O batom de boca rosa bebê que combina com a sua blusinha”, _“Trouxe uma surpresinha”… _“Nossa, quando você (nós, as mães) não está em casa, tudo é diferente!” Dizem com um orgulho exacerbado e confiante de que nós, mães, membros da segunda geração, temos muito que aprender ainda e, de preferência, com elas, as felinas vovós. Sempre estão na supervisão e ansiosas para dar um palpite ou um cartão amarelo e dependendo do humor, de cara um vermelho.

A relação avó, filho e neto pode ser um pouco tensa se mal traduzida. Nem sempre flui dentro de uma harmonia ideal. Aliás, o que é ideal? Também não sei. Continuando, quando a criança está amparada pela presença dos avós, há a tendência do comportamento barganha, tipo: _Faço porque minha avó deixa. Tendem a colocar todos à prova, pois na nossa ausência, elas, as avós, dão as diretrizes e tudo funciona bem, pois eles, os netos, aproveitam para declarar: _ Não às regras cotidianas!
Nossos filhos estão corados, estão vibrantes, estão acolhidos e muito mimados! Disse mimados? Sim, vamos sair da defesa? Serem mimados por eles, avós e avôs, é usufruir de “um estado de Graça permanente”.

É um dos mandamentos da vida, avós e netos constroem um amor único entre eles e de direito deles.

Creio que para baixar a guarda e conseguir aceitar a “suculência” dos avós entre nós e os baixinhos, basta passarmos a analisar a nossa história como netas, fica muito mais fácil entender a importância desta relação. Se fecho os olhos tudo faz o maior sentido, tudo. O aparente imperfeito, torna-se um sincronizado perfeito.

Nós, mamães, também somos netas e, consequentemente, em muitos casos, também construímos esse amor com nossos avós. No meu caso, com minha avó. E reivindico sempre o nosso amor. Ele me deu tanto durante a vida. Ela é o ser mais angelical que tenho ao meu lado. Ela é colo. Ela é alimento. Ela é amizade. Ela é exemplo. Ela é possibilidade. Ela é risos. Ela é parceria. Ela é leveza, enfim, ela é um agradecer constante.

Por tudo isso vivido, construído com ela, como não entender a importância dos avós para quebrar a rigidez dos pais? Eles são um presente para os nossos filhos. Exercem a função da balança que faltava entre o educar e o aconselhar, entre a consequência e o mimar, entre o exigir e o pedir, entre as expectativas e o aceitar. Eles são Mestres, colhem hoje o resultado de uma educação construída dia dia. Nós ainda estamos semeando.

Eu amava as balinhas que a minha avó guardava para mim, e nem por isso precisei ir mais vezes ao dentista, também amava aquele mingau que descia me aquecendo de afeto, e as surpresas? Era se entregar a fantasia daquele momento, com isso, o frio, o calor, a irritação, a raiva, o tédio, tudo se distraia. Sem falar no batom rosa bebê, criava uma possibilidade lúdica de brincar de ser mulher!
Não posso me esquecer das receitas caseiras! Enquanto minha mãe estava aflita com o termômetro, minha avó estava confiante no poder do alho. E essa calma também ajudava a curar.

Os avós por estarem em outra dimensão, de sabedoria, de expectativa e, consequentemente, de amor, tem o poder de construir esta relação madura e colorida com os netos. Quantas vezes eu quis desabafar com a minha avó, e queria estar só com ela. Desabafar com a minha mãe tinha sinônimo de “seguir a cartilha”, claro estava me educando.

Nós, mamães, estamos mais focadas na educação que no conselho. Os avós não. Eles não precisam educar mais. Estão aposentados. Agora eles se permitem apenas gozar desta relação despretensiosamente. São como enciclopédias da vida, conselheiros pelo vasto vivido, contadores de história natos, escritores de capítulos, colecionadores de fotografias emotivas, viajantes pelo tempo, e imensos na cultura do educar.

A nossa rigidez deve funcionar para os avós como um mecanismo de justificativa às suas infrações. Mas, será que precisa de justificativa? Eles querem apenas ser avós. Eles estão certos, aplausos! Ninguém tem o direito de roubar o papel de neto do seu filho. Nem nós mesmas.

4 respostas para “relação legítima, avós e netos”

  1. Ai q saudades q me deu dos meus avós, seu texto nis teletransporta pro canal sensorial mais puro e deixa brotar a saudade dos avós q avoaram , não sem antes impreganar em nós a ternura q seu texto nos derrama!!!! Amei

  2. Você abordou uma questão que sempre me incomodou: O fato de “ter” de cumprimentar “todas” as pessoas com beijinho. Muitas vezes nem temos vontade, mas para não quebrar as regras o fazemos, pois foi assim que nos ensinaram e rola aquela coisa artificial.
    Eu fico com as crianças, beijo tem de ser pra quem amamos realmente!
    Não é mesmo lindo ver uma criança cobrindo de beijos quem ela ama de verdade?
    Me emocionei com os beijos de sua pequena no avô…
    Adorei a abordagem sobre o papel dos avós na vida das crianças, muito gratificante esse amor.
    Temos de entrar no mundo dos pequeninos, mergulhar na fantasia e ninguém melhor que os avós pra fazer isso!
    Amei! Bjs

  3. Como sempre: lindo, interessante e prazeroso texto! Parabéns! Eu não tive esse tipo de avó, sabe, Raquel! Minha avó paterna, nitidamente, não gostava de mim (e só, após a morte dela, uma amiga dela confidenciou-me que minha avó dizia que não gostava de mim, porque achava que eu era a minha mãe “escritinha” – ela não gostava de minha mãe!); minha avó materna era, totalmente, avó dos filhos de minha tia; enfim: essa figura de avó protetora, boazinha, acolhedora, angelical eu não tive!!! Mas, Graças a DEUS sem ressentimentos, procuro ser uma boa avó para minha netinha (só não sou melhor, porque sou extremamente nervosa e, com o passar do tempo, a garota destemida e encapetada, deu lugar a uma mulher medrosa (morro de medo de que algo aconteça a ela!). Dizem que sou (somos – o avô, também o é!) uma avó pedagógica: estou sempre conduzindo minha netinha para uma boa educação, lendo historinhas para ela; a levando a teatros, exposições de artes, parques; a ensinado a fazer bolinhos e biscoitinhos na cozinha; corrigindo maus hábitos… Mas, como uma avó que já foi um moleque, às vezes, peco nas palavras berradas e nos palavrões (- Ah, ninguém é perfeito!!!). Mas, o que mais amo em ser avó é ouvir aquela voz meiguinha dizendo todos os dias (e várias vezes ao dia): – TE AMO, VOVÓ!!!. Beijos, querida, e continue postando esses maravilhosos textos.

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