beijinhos, obrigatórios?

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Manda beijo, dá tchau. Quantas vezes já ouvimos estas frases? Mais vezes foram as que fizemos com nossos próprios filhos. Ainda na fase do engatinhar esse comportamento já são ensinados a eles. Constantemente vemos boquinhas ensaiando os primeiros beijinhos e tchauzinhos deixando os papais orgulhosos!

Nesta fase, na qual “controlamos” o pedir com o fazer, seguimos com a tradição e assim caímos na simpatia do outro e nosso filho passa a ocupar um lugar carinhoso naquele coração alheio. Afinal, ganhar um beijinho e um tchau de uma criança é sentir a ingenuidade no colo da pureza. Porém, eles vão crescendo e a fase do “contra” chega. Bem, direi a fase do “eu”. Do eu não quero fazer, do eu não gosto, do eu sei e você não. É um “eu” que chega e se faz legítimo através do desafio diário. Todo aquele “aparente” controle, de uma vez por todas, passa a encarnar o seu papel definitivo: Pais não controlam e sim educam.

Somos colocados à prova hora sim e outra também. A presença da individualidade vai chegando, e com ela a elaboração da personalidade e de unidade autônoma. A diferença começa a versar entre nós, pais e filhos, o falso controle é desmascarado quando eles nos corrigem, quando apontam nossas atitudes incoerentes, e até parafraseiam uma contundente punição para nós. Enfim, enxergamos neles como os tratamos e educamos. Tem momentos que faz arder os olhos e nos faz salivar com acidez. Entretanto, estamos aprendendo entre todos, isso consola.

Então, junto com este “eu”, chega um comportamento que faz com que você se posicione. Ele (a) não quer dar mais beijo nem tchau. A insistência rodeia: Diga oi! Dá um beijo na vovó, na titia, na amiguinha, no vizinho… A lista não termina! Ainda não entendemos, mas eles não querem ser simpáticos desta maneira. Se esse é o critério avaliativo social de educação, então, minha filha de 4 anos é mal educada. Não tem faz de conta, nem a história da Branca de Neve para aliviar. Diante desta situação precisamos nos posicionar, obrigamos, castigamos, torturamos ou aceitamos, acolhemos e transformamos?

Prefiro criar uma nova possibilidade de entendimento. Entendendo o conteúdo de direito fundamental de uma criança que é a sua espontaneidade, penso que não devemos infringi-lo, mesmo que para isso, nós adultos, tenhamos que abrir mão do julgamento alheio. Minha filha me fez entender, por primeira vez, que o rosto é algo muito privativo nosso. É a nossa introspecção exposta. A pele é tão delicada, tão genuinamente macia que se diferencia de todo o corpo. Contraditoriamente ou não, está mais a mostra a todos os excessos externos. Sendo assim, quando a peço que beije alguém, consequentemente, estou expondo, justamente, a sua parte mais suave em troca de um beijo, social. Essa troca nada mais diz que: estamos cumprindo uma etiqueta.

Fez-me aceitar o quanto nós, adultos, somos vulneráveis. Nós beijamos, abraçamos, em muitos casos, para ter a graça, a aceitação, enfim, a aprovação do outro. Permitimos que a nossa introspecção seja tocada constantemente e indiscriminadamente. Mas nossos pequenos não precisam disso. São mais maduros que nós nesse quesito. Estão mais inteiros com a sua unidade.

Acho que o mais gostoso é quando o beijo é dado por vontade, por um querer de amor. Se seu filho apresenta resistência é um sinal de que aquele beijo ainda não está pronto para acontecer. Não insista. Observe e construa uma nova possibilidade para vocês dois.
Hoje percebo que minha filha troca mais beijinhos e fica nítido o seu querer, pois são coroados por sorrisos e descontração! Percebo que estamos acertando. Isso faz sentido para nós.

A única pessoa a quem ela sempre beijou, espontaneamente, enquanto ele ainda estava conosco, foi ao seu avô, Murilo. Hoje penso entender o lado divino de cada beijo trocado com ele. Estavam se despedindo, antes mesmo de tudo acontecer, antes da verdade virar um laudo medico, enfim, antes mesmo que nós.

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