É preciso de coragem para ser imperfeito

By on 5 maio, 2016

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Hoje com trinta e oito anos aprecio muito a palavra autenticidade. Aprendo cada dia um pouco mais com as pessoas que adotam esse “estilo de vida”. Elas, muitas vezes, nao me “enxergam”, mas eu estou ali com total empatia diante da sua forma de se mostrar ao seu entorno. Poxa! Como é importante para mim me rodear dessas pessoas. Me sinto nutrida de coragem, de entusiasmo, de coerência e de espiritualidade.

Observar uma pessoa dizer realmente o que pensa, mostrar-se realmente como é, no mínimo, me faz entender que a vida realmente tem sentido. O sentido do coletivo colorido e farto, da soma sem exatidão, da exuberância em prol da mesquinhez.  Eu “farejo” esse tipo de gente e quando as encontro “me sento” com elas. Nem sempre estou de acordo com o que pensam, mas sempre de acordo com a sua excessiva coragem. Para mim é um verdadeiro “orgasmo” esses encontros.

Entendo que a nossa imperfeição  aos olhos alheios é o que tem de mais perfeito dentro de nós. E por ela devemos lutar dia sim e outro também. Precisamos valorizar a nossa “imperfeição”. Precisamos ter orgulho dela. Pode ser a única coisa de exclusivo que nasceu conosco e que ninguém mais possui.  Aceitar a nossa diferença é entender que através dela permaneceremos “imortais” dentro de um mundo totalmente finito.

Através dela perpetuaremos para sempre dentro daqueles corações marcados inevitavelmente pela nossa “imperfeição ”.

Querer estar vivo nao é o mesmo que querer viver.  Querer viver é ser condizente com a nossa forma única de  viver a vida e para isso não precisamos estudar, memorizar, nem nos esforçar. Muito pelo contrário, apenas precisamos deixar fluir o que de dentro sai de forma tão natural. O esforço vem quando tentamos “calar” esse natural. Não nos damos conta, pois a necessidade de ser aceitos, amados, incluídos é ainda mais urgente que a simplicidade de apenas SER. 

Ainda não sabemos o que é apenas SER.

Quando me pergunto se eu me amo… a resposta não vem rápida, concluída, redonda. Não pode ser automática pelo simples fato de ainda nao conseguir ser autêntica cada dia.

Ainda estamos muito vinculados à mentalidade: “ e o que vão pensar de nós…”  Esse padrão de comportamento é uma sinalização do quanto nos falta amor por quem somos. Se ainda pensamos assim é porquê precisamos nos nutrir da aprovação de fora para conseguirmos aprovar o que está dentro de nós.

Ainda colhemos poco amor pela nossa diferença, pela nossa exuberante “imperfeição”.

Quando percebo uma fala minha autêntica, uma atitude ou até mesmo um silêncio verdadeiro comungo de um embriagante amor próprio pela minha essência. Sinto-me a rosa mais perfumada do campo sem me importar com as margaridas e jasmins. Naquele momento eu enxergo toda a minha plenitude repleta de vida, repleta de coerência, repleta de aceitação.

Percebo-me importante dentro do todo, apesar de ser apenas mais uma dentro de uma multidão.

Cada dia procuro estar mais atenta e mais condizente com quem sou de verdade.

Apesar de defender tudo isso e buscar na autenticidade um propósito de vida, confesso que quando me vejo como mãe arde na pele uma enorme contradição.

Busco educar a minha filha dentro da beleza da autenticidade, na busca e no respeito de ser quem ela é. MAS, muitas vezes, me vejo no dilema ou na “sabotagem” da necessidade da aceitação social. Para mim é um momento sofrido, uma vez que tenho a conciência de um lado, mas também a fragilidade do “amor-próprio” do outro. Quando uma criança é “comportada”, ou seja, quando não chama a atenção nem para mais e nem para menos está tudo ótimo! Será a criança “aceita” e “admirada” por todos (ao menos na infância onde tudo é “fofinho”). Agora,  quando a “comportada” faz um “barulhinho” um pouco mais forte que os demais, pronto!! Todos apontam o dedo e a bonitinha ou o bonitinho vira o patinho feio.

E o que é a infância senão a naturalidade de simplesmente SER?

Mas, não estamos preparados para isso. Ainda temos um olhar demasiado julgador e seletivo para as crianças. As que “convém” e as que não “convém”, facilmente rotulamos e fazemos pouco caso.

E afinal porque cometemos esse error  já que na infância nada é definitivo, mas sim reconduzido, transformado, conversado e dialogado? Uma criança precisa falar um palavrão para saber o porquê nao se deve falar, o mesmo acontece com os comportamentos nao devidos, ao experimentá-los saberão o porquê nao se deve agir assim. Ela precisa imitar o que vê, isso é sinônimo de saúde, que tudo vai bem. Afinal não foi assim que ela aprendeu a andar e a falar?

Porém, estamos preparados apenas  para presenciar o aprendizado “nobre”, o qual fará dela uma criança admirada, incluída,   enfim, aceita.

Mais uma vez estamos calando a “imperfeição” em prol da aceitação. Ainda cometo essa atitude com a minha filha. Tem momentos que ela grita quando deveria falar baixo,  fecha a cara quando deveria sorrir, tantos outros não diz nada quando deveria dizer alguma coisa. Em vários momentos já senti vergonha, insegurança e medo. De novo o pensamento “o que vão pensar, desta vez, dela…”

Quando acontece esses momentos eu rapidamente os identifico e busco dentro de mim a minha coerência por quem  sou. Revejo a minha história, as minhas buscas, as minhas certezas e a situação vai ficando mais leve, afinal  o que importa é se eu aceito a minha filha como ela demostra ser. Os demais são apenas o reflexo de muita poeira em caras embaçadas.

E essa reflexão é o xeque – mate desta vivência que eu divido com vocês. Em inúmeros momentos as caras “embaçadas” são apenas o reflexo da nitidez da nossa dificuldade. Da NOSSA dificuldade. De ter a coragem de aceitar a “imperfeição” de um filho. 

Mais uma vez, a “imperfeição” nos bate à porta e testa a nossa teoria sobre o  amor-próprio.

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