Entre tênis e parque

By on 16 março, 2016

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Já faz 7 meses que a minha menina está na nova escola em Barcelona e faz 7 meses que eu também estou diante de uma nova cultura quando o assunto é mães, filhos e escolas.

Me encantei logo nas primeiras semanas com a maneira com que as mães (as famílias) nos acolheram: Com muita abertura e com vontade de saber quem éramos! Quem chega, precisa sentir-se acolhido e foi isso que aconteceu conosco. Fomos acolhidos com muito afeto.

No primeiro mês me disseram que, depois da escola, a convivência seguia no parque da esquina. E, claro,  lá fomos nós. E é para onde vamos, quase todos os dias, depois da escola. Lá tem mães que se encontram e compartem do entusiasmo, apenas, por ter aquele momento dentro do dia de cada uma. E as crianças seguem brincando livremente, misturando-se na areia, subindo em árvore, descendo pelo escorregador, brincando de pique esconde.

Esse instante para mim era como se me perguntasse se aquele momento era mesmo real: Depois da escola, andar a pé, parque, mães  reunidas, crianças ao ar livre brincando, tênis correndo, cultivo de amizades? Tudo isso era realmente real e segue sendo.

Então, fui me lembrando do ritmo  depois da escola no Brasil: Carro e casa na maioria das vezes. Parque? Mães reunidas? Encontro ao ar livre? “Quem sabe no final de semana…” O motivo? Falta de costume, falta de parques próximos e seguros, falta de possibilidades, excesso de protocolos e também falta de vontade.

Um outro costume, além das idas ao parque, é o rodízio na casa das amiguinhas. Um dia a minha menina vai na casa de uma amiguinha e outro dia a folia é lá em casa. Convida quem quer e aceita também quem quer. Muitas vezes, a mãe que convida leva as crianças e depois buscamos.

Minha casa começou a transformar-se em uma casa cheia de afeto, de carinhas novas e de mães que se ajudam e que se apóiam.

E sempre acontece de uma pedir a outra para buscar o seu filho caso não consiga chegar a tempo por qualquer imprevisto. Quando me pedem, trago aqui para casa ou levo ao parque e nos encontramos lá.

Essa cumplicidade entre as mães, essa rede de apoio é totalmente visível e incomensurável. Aqui se pede ajuda e deixamos que nos ajudem.

Não que no Brasil eu não pudesse contar com amigas queridas. Claro que sim e contei quando realmente precisei.  Mas sinto que não é igual. No Brasil precisamos conviver muito para nos sentir na condição de “pedir” algo ,pois não sabemos o que vão pensar de nós ( mas isso não é regra). Aqui não tem tantos protocolos e se você diz que pode ajudar, combinado está. Não se explica muito; aliás não precisa. Eu acabei de chegar e já pude ajudar algumas mães e também ser ajudada por elas. Cada uma vem de uma parte do mundo e as que são daqui se sentem iguais a  nós: também pedem ajuda e oferecem ajuda.

Diante dessa mistura de culturas, protocolos e julgamentos vão ficando esquecidos, pois estamos todas no mesmo barco. E ser autêntico é uma questão de necessidade, uma vez que queremos que conheçam a nossa verdade e não a sua suposição. Somos todas mães que tem que dar conta do dia a dia com filhos, com trabalho, com  supermercado, com médicos, com trânsito, com atrasos, com hora marcada. E isso faz toda a diferença no “como” conviver.

Quando pedem ajuda sinto-me tão feliz de ter conquistado a confiança daquela mãe em tão pouco tempo que quando me ajudam, penso na sorte que também tenho.  É muito bom poder ajudar e ser ajudado. Isso é construir a cada dia o conteúdo da nossa vida.

O mais difícil é vir para casa sem amigos ou ficarmos sem ir ao parque. E isso raramente acontece.

Essa semana uma mãe me pediu para buscar sua filha na quinta- feira. Como me sinto? Uma mãe-criança! Essa mãe me dá a oportunidade de dar ainda mais valor a cada dia dentro destes cinco anos da minha menina. Será mais um dia que a minha filha terá uma amiguinha em casa; será mais um dia que eu vou poder ajudar a uma mãe e, principalmente, será mais um dia que darei conta da minha importância na vida dos demais.  Na verdade me sinto mais ajudada que na posição de quem oferece ajuda.

Precisamos disso na vida, de preencher a vida dos demais e também sermos preenchidos pelas vidas de outros.

Eu não tinha essa vivência de sentir tão útil na vida de outros. Na vida daquela mãe que depende da sua ajuda, você é fundamental para ela. Como algumas de nós somos estrangeiras, não temos a família por perto e a necessidade de apoio espirra na maternidade mais próxima.

Hoje  questiono muito o que é ter a família por perto na esperança de “apoio”.  Em nenhum outro momento da minha vida  senti mais ajudada que agora. Parece que família vem com cara de ajuda né!E na verdade, muitas vezes, são os amigos que tem mais cara de ajuda.

Aqui tenho descoberto isso. A ajuda que vem de um amigo pode ser muito mais espontânea que a ajuda que vem de um familiar.  Dentro da família esperamos que os avós, os tios, os primos nos ofereçam ajuda e a partir daí tudo se complica um pouco quando entra as nossas expectativas na condição de ajudados. Aqui, que expectativa tenho? Tudo que vem é de graça, sem obrigações,  sem crenças. Por isso são frutíferas, sinceras e sem protocolos.

Outro dia tinha uma amiguinha aqui em casa e na hora de ir embora a mãe me ligou para falar que o seu outro filho tinha dormido e não tinha com quem deixá-lo e se eu podia trazer a filha dela. A sinceridade, a simplicidade em dizer a verdade e de se colocar no lugar de, apenas, uma mãe permitiu que eu olhasse para os meus próprios julgamentos como a mãe que sou. Como nos exigimos tanto! Na cabeça dela não passou o que eu iria achar dela e sei lá mais o que, apenas passou em compartilhar comigo que precisava de MAIS uma ajuda.

Entre parque, tênis e filhos, uma outra atitude que me causa muita admiração é ver a simplicidade com que se converte o dia dia das mães. O tênis, o casaco de frio, o cachecol tem a mesma cara, quase, sempre. A vaidade realmente não está na busca do olhar de fora, mas sim com os próprios critérios. As crianças na escola não tem uniforme, mas as mães “sim”! É a mesma roupa todo dia, ou quase todo dia. Agora me coloco a pensar, que durante os dois meses de frio, quase todos os dias estou com o mesmo casaco e a mesma bota. Acho que só mudo o cabelo de acordo com o meu humor. O resto segue bem parecido com o dia anterior. Por que é assim? Sei lá. Porque é mais cômodo, não aperta e não pega mal.

Aqui não pega mal mesmo. E as mães que vêm de bicicleta buscar os filhos? Saem do trabalho, pegam a bicicleta e vêm. E chegam com a cara de vento e com a roupa de ontem, muitas vezes.

Tem de tudo: saltos, tênis e botas. Casacos, blazer e moletom. Mas, acima de tudo, tem a simplicidade que é praticamente unânime.

E não estou falando de uma escola “alternativa” não… É uma escola de bairro, com vida de bairro.

Vamos vivendo, vamos aprendendo e vamos descobrindo que podemos nos amar mais.

Aqui tem sido uma porta aberta dentro do caminho para dentro. Essas mulheres me enchem de admiração, de esperança, de parceria, de mães com cara do cotidiano.

São apenas mães esperando por seus filhos e que precisam também de ajuda.

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Comments

  1. Rachel Zacarias
    16 março, 2016

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    Oi Chará!!!

    Tenho acompanhando os seus textos e tenho amado!!Vc escreve muito bem, está de parabéns, mas especialmente este me falou muito próximo, pois cada vez mais acredito que além de ser impossível ser feliz sozinho, criar filhos também. E os amigos e as famílias da escola podem ajudar e ajudam muito. A Mari, minha filha de 14 anos estuda na Escola Paineira e lá mesmo na adolescência este apoio é muito presente.
    Abs forte

    Rachel

    • Raquel
      16 março, 2016

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      Rachel, querida! um cheiro para você!! obrigada por estar aqui comigo, pertinho, apesar da distância.

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