Filho, amor incondicional?

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Por que quando um filho nasce precisa ser amado de forma incondicional pela mãe? Ele acabou de nascer, aquela mulher acabou de se tornar uma mãe, eles estão se conhecendo por primeira vez, um não sabe nada do outro. Quem é essa mãe, quem é essa criança? Ninguém sabe. Ninguém pode saber. Ali nasce o começo de uma relação. Ali acaba de nascer uma enorme possibilidade para esse amor. E que amor é esse? O incondicional? Será mesmo?

Não tenho a menor dúvida que o amor que sinto pela minha menina seja absolutamente único, incomparável e totalmente necessário dentro de mim.  É uma espécie de amor viciante, transformador, cativante, milagroso, altruísta, corajoso, lutador, mas também dependente e, muitas vezes, vaidoso.

É um amor que não conseguimos descrever, simplesmente é assim. Do jeito todo que ele é.

E, justamente, por ele ser desse jeito todo incluindo o vermelho pulsante cheio de vida e de alegria, mas também o vermelho fosco quando os limites ficam claros na relação entre mãe e filho, que começo a pensar: Como desconsiderar a condição que também existe dentro deste amor?

Pelo simples fato de amar um filho também dentro da vaidade e do apego já estamos falando de condições. Penso que a vaidade faz com que esperamos “algo em troca” e o apego, a posse, faz com que não saibamos amar em total liberdade que é uma das condições básicas do amor incondicional.

Quando comecei a pensar assim vieram-me algumas defesas dentro do meu ser materno: percebia-me querendo “amarrar” esse amor incondicional dentro do meu coração de  qualquer jeito, mas aos poucos ele foi se tornando menos egocêntrico dentro de mim e mais humanamente verdadeiro.

Foi quando eu despertei dentro das minhas condições de um ser mãe que simplesmente quer seguir amando a sua menina sem adjetivos.

Durante esses cinco anos de maternidade venho me surpreendendo com esse amor que sentimos por um filho. Ele é tão sublime quanto absolutamente carnal. Tal amor não apenas contempla, ele também xinga, fica desbocado  e esbraveja.  Não dá para amar esse amor apenas nos momentos de obediência, de calmaria,  de sintonia.  É inacessível amar esse amor apenas dizendo sim. E como deve ser “desumano” amar esse amor na dor de uma distância sem fim. Por vezes, também é irritante amar esse amor dentro das escolhas de um filho. Em infinitos momentos é contraditório amar esse amor que liberta, mas que também suplica em segurar a cria dentro de si.

A parte carnal desse amor nos converte em pessoas que amam. E dentro das pessoas que somos existe uma infinidade de sentimentos/emoções  tão legítimos quanto o amor. A raiva, o medo, a tristeza são alguns deles.  E levamos esse coquetel para a relação com um filho.  E dentro dessa verdade acredito surgirem condições naturais que existem dentro de cada afeto – de cada amor.

Isso não torna a capacidade de amar mais ou menos, não torna o amor mais ou menos valioso, mais ou menos importante, mais ou menos com cara de uma amor de uma mãe por um filho.

O amor por um filho é um amor que se sente e que se respeita, mas não se mede e nem se classifica (não tem motivo para querer classificá-lo).

Quando estou diante dos meus limites percebo claramente que esse amor sem querer nada em troca é mais ensaiado que real. Sou deste mundo, vim desta terra, me alimento também dos meus instintos, pasto nos meus traumas e sou a cara do meu passado. Como posso comungar de um amor em total liberdade se eu ainda estou tão atada a essa terra cheia de carma?

Ainda não posso como eu gostaria, mas não sei amar assim, ainda.

O meu amor tem expectativas, tem exigências, tem rigidez e, como não falar,também tem vaidades.

AH!! Essa tal de vaidade…

Ela aparece sem querer ser notada, ela dissimula a própria existência. Mas ela está ali, no dia a dia.

Em vários momentos como foi (é) difícil aceitar que a minha menina vestisse uma roupa diferente da que eu tinha escolhido para ela;  como é difícil aceitar uma desobediência de um filho quando todos nos olham e nos apontam o dedo; como é desconfortável aceitar quando o nosso filho não é o mais interessante, inteligente, querido do grupo e sim apenas mais um confundido dentro do todo.  Como não é fácil, em muitos momentos, aceitar uma escolha de um filho quando sabemos que não é a mais “normal” dentro das práticas sociais; como é difícil aceitar algumas nuances da personalidade de um filho quando é o oposto do que “sonhamos”; como deve ser  também difícil aceitar as imprudências de um filho quando compromete a  educação que damos a ele e como não deve ser nada fácil aceitar quando o filho quer sair de casa.

Afinal ele veio da nossa natureza, do nosso calor, da nossa água, do nosso puerpério, do nosso mistério. Mas ele não é nosso e NÃO veio para atender, suprir, alimentar às nossas expectativas.  Para Isso com toda a certeza ele não veio.

Nós, que passamos uma vida nos doando entre leite, afeto, noites a dentro, cuidado, presença, educação, amor… aceitaríamos de forma incondicional que um filho deixasse de nos amar ou que fosse morar com o pai, ainda pequeno por escolha dele, ou que escolhesse a mãe do amigo como a referência de mãe perfeita para ele, ou que fosse visto na escola como aquele “sem futuro” por todos os professores, ou que optasse por viajar sem data para voltar, ou que defendesse a sua esposa (o)  nos tirando a total razão, ou que rejeitasse a nossa opinião por ser antiga e descabida,  ou que esquecesse do nosso aniversário, do dia das mães enquanto se diverte com amigos em festas e Rock`n Roll, ou que nos culpasse por seus traumas na vida, ou que apontasse as nossas falhas como justificativa da sua falta de sorte e sem esquecer; aceitaríamos que nos colocassem em uma casa de idosos quando no futuro não pudesse cuidar de nós?

Ajoelhada, segurando na sinceridade do meu amor, não sei responder.

Dentro da condição tenho uma grande oportunidade de me conhecer melhor. A condição me traz lucidez, aceitação, acolhimento e transformação. Graças a ela me sinto honesta com a mulher, mãe, menina que sou. E dentro dela também sou capaz de ver as condições da minha filha diante de mim e proporcionar-lhe o mesmo direito em acolher os seus limites e assim, querer transformá-los também.  Na condição busco cada dia mais me despertar com mais consciência dentro desse profundo amor. É um amor muito intenso, delicado, perfumado de contradições, de idas e vindas para ser condicionado dentro do sobrenatural  incondicional.

O amor incondicional vai ficando dentro das teorias que nos fazem acreditar que ele precisa existir para ser grandioso e celestial. Ele não mensura o tamanho desse amor e nem o torna mais digno, mais anjo e santo,  mas “mascara” as condições contidas nas entrelinhas que, simplesmente por isso, faz esse amor inigualável pela capacidade que tem de nos transformar em melhores pessoas.

O incondicional, o sem esperar “nada em troca”, o desprovido de ansiedades, reconhecimento e expectativas deixo pelo caminho, pois ainda sou apenas uma mãe para sentí-lo.

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