Quer brincar, mamãe? EU? (socorro!)

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O brincar é fundamental dentro da condição de uma criança, uma vez que é através  dele que tudo acontece. A criança tem a grande possibilidade de se  perceber brincando e também de perceber aos demais. O brincar ensina, desenvolve, acrescenta e ajuda, e muito, a transformar  gente pequena em gente grande.  O seu desenvolvimento se dá de maneira natural e respeitosa, sem pressa, sem condicionantes, sem artificialidade e sem discursos dirigidos.

Sou absolutamente favorável ao aprender brincando e do brincando simplesmente por brincar!

Porém, todo esse entendimento ganha um entusiasmo especial, na maioria das vezes, quando o nosso filho está brincando com a professora da escola, com os amiguinhos, com a titia, com os avós ou sozinho.

Quando acordamos, muitas vezes, o que queremos é nos conectar com o dia de uma forma diferente e não queremos ouvir: “vamos brincar mamãe?” Quando o dia chega ao final, muitas vezes, essa mesma frase é a última coisa que combina com o nosso humor.

Em muitos momentos precisamos nos programar para encarnarmos a pele da disposição. Gente, cadê a disposição? Por que não tem sido uma tarefa fácil para nós?

Primeiro porque nos fazem acreditar que uma vez mãe, temos que brincar e que brincando com os filhos eles serão mais felizes. Fazem-nos acreditar que criança saudável é aquela que tem a mãe na brincadeira. Que a boa mãe é aquela que brinca, brinca e não cansa de brincar. É aquela que prioriza todos os dias brincar com  ele. Que família em conexão é aquela que senta no chão com o brinquedo na mão.

E segundo, porque a nossa vontade  ficou em segundo plano diante da condição da boa mãe que nos fazem acreditar que devemos ser.

Isso é muito sério.

Acredito que na hora do brincar tem ficado explícito todo esse conflito interno em busca do fazer por “ter” que fazer e não o fazer por “querer” fazer.

Já brinquei MUITO  com a minha filha. Dentro de casa, no parque, na praia e na montanha. Mas de uns tempos para cá comecei a questionar muito esse MUITO.

Até seus quatro aninhos eu estava sempre ali, misturada com ela e com seus brinquedos. Eu brincava, criava brincadeiras e em outros momentos achava que brincava pelo simples fato de estar ali. Não me questionava o “motivo” que me fazia brincar com ela. Se eu brincava porque eu queria, se por culpa ou por obrigação.

 Ser criança saudável, acolhida e feliz é ser aquela que a mãe brinca junto, então vou questionar o quê?

Ali estive durante infinitas brincadeiras dentro da ausência de questionamentos. Apenas queria “acertar”.

Na transição dos quatro para os cinco anos,  comecei a questionar   aquela pergunta que minha menina tantas vezes me fazia: “Mamãe, quer brincar?”

E em muitos momentos a resposta dentro de mim era “NÃO”.

O não apareceu de forma nítida dentro da minha vontade e percebia o quanto evitava me escutar de verdade. O quanto evitava ser sincera comigo mesma. Comecei a entender que brincar com ela sem vontade era o mesmo que “fazer de conta” que estava ali. Um “fazer de conta” para mim e para ela e por isso as brincadeiras tinham pressa de terminar. EU tinha pressa de acabar em vários momentos. E ela se contentava, pois afinal me teve um tempinho só para ela e eu me alimentei da esperança de que realmente estive brincando dentro daquela fantasia.

Passei a não ignorar mais minhas vontades. Passei a querer olhar para a minha completa indisposição quando aparecia (e sempre aparece). E comecei a ver que na casa da melhor amiga acontecia o mesmo, na da vizinha e na da médica pediatra E era mais comum do que eu podia imaginar.

 Sou adulta já criada e mal acabada e tenho ansiedade, estresse, impaciência e irritabilidade. Não tenho mais a energia de uma criança. Ela já se foi. O que ficou foi uma mãe, isso eu posso ser. Isso eu quero ser.

A partir desse momento comecei a ser fiel com a minha vontade. Comecei a permitir que ela se manifestasse. Às vezes sinto um incômodo quando percebo que a minha vontade anda meio sumida. Mas como forçar uma vontade quando não a temos? É tão “feinho” brincar forçada! A brincadeira sai entre os dentes e o sorriso amarelo se torna a cereja do cupcake  do aniversário da Pepa.

O mais importante é tentar entender porque a vontade de brincar é sinônimo de maternidade bem sucedida. Porque deixamos que nos convencessem disso?  Porquê?

Estamos sempre querendo agradar o lado de fora, na maioria das vezes, mas não a nós mesmos. Fomos capazes de nos transformar em um ser mãe porque demos vida à nossa vontade de querer uma criança (falo dos casos que foram por opção). E justamente agora quando ela está em nossos braços,  abdicamos do nosso direito de ter vontade?

Acredito que não.

A mesma vontade que nos fez engravidar e dar vida a uma criança é a que nos dá o direito de não querer brincar com a nossa criança quando não temos vontade.

É a mesma por mais que existam várias teorias reforçando diretamente ou indiretamente que a boa mãe é aquela que brinca sempre, independente da sua vontade. Aliás, as teorias que nos rodeiam se interessam em saber sobre as nossas  vontades, desejos, preferências, dificuldades?

A boa mãe tem que ser generosa consigo mesma em primeiro lugar. Uma mulher que não se conhece dificilmente será uma mãe que também se conheça. Nosso filho precisa de uma mãe de verdade ao seu lado e se essa mãe não  senta para brincar, talvez seja  porque ela prefira investir um tempo maior fazendo uma boa comidinha para saborear com o seu pequeno. Ou então porque ela priorize reunir os amiguinhos em casa e queira preparar um lanche cheio de amor para eles. Ou porque ela anda pesquisando um teatro super legal para ir junto com o seu filho no sábado à tarde. Ou porque para ela  o momento de contar historinha à noite agarradinha com ele é o contexto que ela mais está “presente” de verdade. Ou porque prefere brincar quando realmente  tem condições de estar de  “corpo e alma” na brincadeira com o filho e até mesmo  porque está passando por uma fase cheia de impaciência (claro que acontece) e não consegue brincar.

Uma criança quando quer brincar com a sua mãe pede presença, atenção, afeto. Porém há muitas maneiras de suprir essa necessidade sem estar, necessariamente, brincando. O brincar é mais uma deliciosa opção quando se tem vontade de brincar. E o principal é que não estamos tirando do filho essa oportunidade e sim dando a ele uma outra opção quando  também decidimos brincar.

Também já passei por aquela fase de “ter” que brincar para evitar colocá-la na televisão (época que ainda não sabia da importância do ócio). Acho que era mais penosa e enganadora essa “manobra” já que é preferível ver uma criança na televisão e dentro de um ambiente  com harmonia do que brincar dentro de uma brincadeira  com pressa de acabar em total desarmonia.Essa é realmente uma atitude altruísta, educadora? Aliás, altruísta para quem?

Hoje em dia quando eu brinco com a minha filha é realmente delicioso, pois nesses momentos sei que estou brincando (sem telefone, redes sociais, computador) de verdade e sem distrações! Não é todo dia, nem necessariamente a cada dois dias, ou uma vez por semana, pois a quantidade do tempo, para mim,  não define a qualidade da brincadeira.

Às vezes me pego pensando: “quando ela for maior não sentirei “remorso” por não  ter brincado mais tempo com ela?”

(olha aí o tal do remorso de novo, da culpa disfarçada)

Concluo  que não, pois terei a certeza que estive  de verdade, infinitas noites contando historinha para ela com vontade, fazendo infinitas comidinhas junto com ela com vontade, conversando infinitas manhãs, tardes e noites com ela com vontade, rindo infinitas vezes das palhaçadas dela com vontade, passeando com ela com vontade, recebendo os amiguinhos dela em casa com vontade, estando com ela na casa das amigas com vontade. Enfim,  porque infinitas horas da nossa história estivemos realmente juntas construindo a nossa relação com a vontade de querer conhecer, sentir e respeitar uma vontade.

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