Quando a filha “assume” a condição de mãe

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Sabe aqueles dias que dizemos cobras, crocodilos e lagartos para o marido?  Aconteceu aqui em casa numa manhã dessas e a reação da minha menina foi o que me trouxe a escrever esse texto.

O ideal, o prudente, o esperado é que ela não tivesse me visto feito uma leoa com abstinência de maturidade, mas nesses cinco minutos aconteceu. Então, ela veio até mim e me disse:

– Mamãe, não faça isso com o papai.

(Saiu e foi dar vários beijinhos nele.)

A minha menina tinha toda razão.

O seu olhar sobre mim, cheio de ternura, tirou-me do modo impulsivo, irracional, histérico.

No caminho da escola quis tanto retribuir aquele olhar que recebi dela, logo na primeira hora do dia, com um olhar cheio de pedido de desculpas. Quis que ela entendesse minhas desculpas vindo não apenas da minha condição de mãe, mas, sobretudo, da minha condição de ser humano.

Foi um momento oportuno para ela me ver como ser humano falível que sou, apesar de ser sua mãe. Aliás, naquele instante, eu estava mais para filha do que para mãe! A minha menina me corrigiu, pois sabia que minha atitude não estava correta. Estava me reeducando.

E aceitei que ela me reeducasse dentro daquela atitude desmedida, pois estava precisando. É necessário ser humilde com minha condição de educadora. Naqueles cinco minutos fiz tudo diferente do que ensinei  a ela. Em cinco minutos quis ser apenas humana, não queria ter nome, estado civil, nem herdeira.

Queria espernear sem razão, sem teorias, sem explicação.

Depois que tudo passou, como sempre passa, fiquei refletindo sobre o “tom” das teorias que nos tentam instruir, disciplinar e conduzir sobre “o que não deve ser feito na frente de um filho” quando se refere à  atritos familiares. Acredito de verdade que os atritos entre o casal devem ser evitados e  que não ocorram na frente de uma criança. Mas e quando acontece bem ali, na frente dela?

Por mais harmonioso, equilibrado e maduro que seja um casal, um dia o caldo pingará e respingará na blusa branca do filho.

E assim começo a entender que temos duas possibilidades: a primeira é tentar desesperadamente passar água quente para que a mancha saia, pois a prioridade é que ela deixe de existir e a segunda é enxergar aquela mancha, analisar sua densidade, questionar se precisa deixá-la de molho por um tempinho antes e por fim, ver se a mancha sai. Tem feito tanto sentido para mim a segunda possibilidade! Acredito que isso é o que falta a tantas teorias circulantes entre nós  e que acabam, quase sempre, nos colocando dentro de um comportamento de enorme exigência como mãe e pais que somos. As possíveis consequências que alertam sobre traumas e complicações emocionais infantis assustam e nos levam a uma postura demasiado rígida com nossa própria condição humana.

Acredito que os comprometimentos emocionais são muito mais suscetíveis quando acontecem dentro de  lares com aparência de “ideais”, onde as emoções são, muitas vezes escondidas, repreendidas, tolidas  do que naqueles outros onde de tudo é falado, conversado, transformado, aprendido e entendido.

 Assumir nossa condição de humano é oferecer a um filho a possibilidade dele também sentir-se humano na condição de filho, já que ele precisa também chorar, gritar, sentir raiva enfim,  experimentar uma frustração e poder expressá-la. Isso faz dele não um filho perfeito, mas imperfeitamente perfeito.

Assim também somos nós mães,  imperfeitamente perfeitas.

Querer enxergar  a mancha quando respinga na camisa de um filho, amplia as possibilidades dentro da relação com a nossa criança. Através desse olhar ganhamos a sabedoria de acolher e não de desmerecer a nós mesmos quando o caldo derrama. Ganhamos a grande oportunidade de aprender com nossos filhos, de deixar os nossos “super poderes” também nas mãos deles.

Passamos a contemplar a riqueza da maternidade, inclusive nesses momentos de “destempero emocional”  quando vemos através do nosso filho a nossa verdadeira estrela – guia; percebemos que a rigidez hierárquica entre mãe e filho se desfaz e nos aceitamos também como “filhas” dos nossos filhos.

Uma resposta para “Quando a filha “assume” a condição de mãe”

  1. Muito bom o texto. Temos que aprender a respeitar nossas emoções, sejam elas boas ou ruins, para poder ensinar a nossos filhos
    E nessa trajetória, como aprendemos com eles também, que demonstram emoções puras, livres de pre- julgamentos que nós adultos temos. Isso é educação emocional, que não tivemos quando crianças, porque ter raiva, se aborrecer,etc era feio.

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