o “trauma” e os filhos

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Há muito queria escrever sobre isso, mas ainda faltava  uma inspiração  que me ajudasse a clarear de forma mais nítida meu sentimento sobre esse assunto… e com gratidão ela acabou chegando.

Ontem à noite, estava procurando um video no Youtube da Louise Hay para escutar antes de dormir e  escolhi um que ela falava da sua própria história.

Resumidamente, ela teve um passado muito sofrido de total menos valia,  com muitos abusos sexuais ainda menina, inclusive do padrasto. Saiu de casa muito cedo, teve um filho que deu para adoção e na fase adulta desenvolveu um câncer.

E durante sua caminhada ela começou a frequentar uma igreja que desenvolvia um trabalho sobre a força do pensamento. Tudo fez tanto sentido para ela que a transformou na Louise Hay seguida e admirada por milhares de pessoas pelo fantástico trabalho que desenvolve.

Quando ela teve o câncer, relatou que foi o momento de provar para si mesma que todo o trabalho que desenvolvia realmente tinha crédito. Começou então um profundo trabalho de peregrinação dentro das suas próprias feridas. Entendeu que os padrões de pensamento podem ser mudados e com isso mudanças internas vão acontecendo e a possibilidade de curar-se também.

Depois desse relato pensei: Hoje eu estaria vendo seu vídeo se ela não  tivesse passado por tudo que passou? Teria comprado o seu livro? Estaria falando dela? Saberia quem ela é?

Com quase toda certeza, Não. A ela só foi possível encontrar a força, porque teve que se defender do nada que possuía; só foi possível  achar seu caminho por ter superado a descrença total sobre si mesma e só foi possível  encontrar a sua missão  por ter experimentado os seus pensamentos estacionados na condição de vítima. Muito possivelmente uma vida tranquila, com tudo ao seu alcance, teria feito  com que ela se acomodasse, sem motivos para viver uma catarse em busca de si mesma.

Sinceramente, consigo ver dor na sua história, claro, mas trauma não. A sua busca atroz pela cura interna fez com que ela não sufocasse todo seu sofrimento dentro da condição de vítima preferindo libertá-lo na condição de aprendiz.

Enquanto escrevo tenho a sensação que estou simplificando toda a sua luta, que foi muita, mas não estou. Sou consciente que tudo isso durou muito tempo e foi acompanhado de muita dor, muita tristeza, muito desespero, muita raiva, para que ela ganhasse novas possibilidades dentro de si.

Quando já estava em silêncio e deitada na cama  com o quarto escuro, percebi que a história dela me fez entender que a condição favorável para que o trauma exista é: paralelo a ele existir também a condição de vítima.

Se ao invés de vítimas nos colocarmos como pessoas capazes de decidir, de optar por escolhas e, consequentemente responder por nossas vidas, aquele acontecimento terá a sua dor, o seu sofrimento, o seu “luto” mas não irá nos prender na condição da menos valia marcada pela falta de sorte. Buscaremos uma solução para sair do caos ou ao menos tentaremos encontrar uma melhor maneira de lidar com o seu lado sujo, feio, pichado.

Isso nos é pouco ensinado e acho que carecemos saber que podemos escolher por nós, que nada é finito e concluído e que nenhuma luta está perdida por maior que seja. O olhar de pena sobre o outro ou sobre nós mesmos pode nos  colocar na posição de fracassados. E aquela pena que sentimos protege quem amamos poupando-o de realmente  vencer  o que precisa ser vencido. Ele tem o direito de querer vencer, eu e você também. Este direito tem a  sua sede na raiva, na ira, na frustração que nos leva a encontrar o nosso intenso e reservado feixe de luz.

Não viemos apenas para colecionar sorrisos, tampouco nossos filhos.

Querer sustentar apenas sorrisos em suas boquinhas é querer discutir a existência inevitável dos dois lados da vida, a alegria e a tristeza.  Essa condição não está em discussão nem para mim nem para você. Por isso  nos foi dado o dom das lágrimas, para que possamos limpar o que dentro está desencaixado e precisa sair.

Com tudo isso,  passei a entender que os “traumas” que a minha menina, sem dúvida, já viveu e seguirá vivendo, serão sofrimentos que ela mesma poderá superar  desde que ela saiba que existe esta possibilidade dentro dela. E será através desses “traumas” que ela se reencontrará com a sua força, com a sua própria resiliência, com o seu próprio feixe de luz, enfim, com a sua verdadeira condição de ser quem veio para estar nesta vida.

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