Ele disse que ela era feia

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Em uma tarde, na companhia de amiguinhos, um deles disse para a minha menina que ela era feia. Ela estava desenhando e eu estava por ali no momento que o amiguinho declamou esse poema!

Naquele instante consegui frear a minha impulsividade materna e preferi observar a cena.

Bom, não aconteceu nada. Nada do que EU e o AMIGUINHO estávamos esperando.

Então, ele repetiu: “Você é feia!”

Ela seguiu desenhando e então eu falei com ele:

– Tudo bem, essa é a sua opinião!

Tratei aquele diálogo com total naturalidade e assim ele acabou.

Enfim, nada aconteceu entre eles e logo mais já estavam brincando com outra coisa. Mas dentro de mim muita coisa aconteceu.

Percebi tão claramente como muitas vezes nós, adultos, temos a tendência de introduzir “regras” narcisistas nos diálogos entre os pequenos. Como nós, adultos, estamos longe do entendimento que as crianças  tem sobre as palavras que utilizam. Como nós, adultos, vemos os nossos filhos quase sempre de forma tão frágil que precisamos “defendê-los” de tudo. Como nós, adultos, não queremos conceber um possível “trauma” na vida de um filho. Como nós, adultos, “lutamos” pela posição de príncipes e princesas dos nossos filhos dentro das relações afetivas.

No decorrer de cinco minutos, que foi o que durou a declamação do poema, tudo isso ficou nítido diante de mim.

E a minha menina apenas continuou desenhando.

Era eu quem precisava me proteger e não ela. Ela demonstrou uma condição emocional que me convenceu da importância e validade dos nossos diálogos em família. Naquele momento colhi algo de muito belo dentro da educação que vamos construindo dia a  dia.

  “Não pensamos igual, por isso cada um pode ter a sua opinião. Porém, o mais importante é a sua própria opinião sobre você, minha menina!”

Essa frase é nosso mantra aqui em casa e naquele momento vi que começou a dar frutos.

O que é a palavra “feia” vindo de uma criança de cinco anos? Nada! O feio, o bonito é o mesmo que o bom e o mau para eles. Apenas reproduzem a “emoção” condicionada à palavra quando os adultos as utilizam.

Reproduzem para expor suas frustrações.

E nós, adultos, sempre queremos nos defender daquilo que, na maioria da vezes, necessitaria apenas  de silêncio e não de defesa.

Mas só conseguimos ficar em silêncio quando conseguimos respeitar o que desconhecemos. Um diálogo infantil merece respeito ao menos para ser ouvido e não atropelado.

Claro que tive o ímpeto de “arregaçar” as mangas e dizer que minha filha era muito linda e blá blá blá. O que eu teria contribuído com essa fala minha? Nada. Provavelmente o menininho seguiria declamando o seu poema por ter conseguido chamar a atenção, eu acostumaria minha filha a ter uma proteção constante do seu lado, e principalmente, estaria tirando dela a importante condição de entender que nem sempre vamos agradar a todos. Que nem sempre a sua beleza precisa ser vista como bela para se sentir aceita e amada. Que sua aparência é apenas uma aparência, nada mais que isso.

Naquele dia soube acolher a minha criança interna pedindo por proteção e talvez fosse ela quem precisasse de elogios quando ouviu a palavra feia!

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