Nascemos para quem?

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Nascemos do ventre de uma mulher para ocuparmos alguns papéis dentro das diversas relações  que construímos durante a vida. O papel de filho, de irmão, de aluno, de amigo, de colega, de neto, de sobrinho, de funcionário, de chefe, de marido, da esposa, de pai, da mãe, dos avós, dos bisavós.

E dentro de cada papel esperam de nós atitudes que correspondam ao discurso já estabelecido como aceitável. Gente, é muita coisa! Uma criança quando nasce, instantaneamente, ela já nasce filha de alguém, neta de alguém, sobrinha de alguém, irmã de alguém, prima de alguém. Por alto, já são 5 papéis que exigem dela posturas distintas. Vamos lá: Quando é olhada como filha é esperado dela que seja uma boa criança e que durma bem à noite! Quando olhada como neta, os beijinhos na vovó não podem faltar, por favor! Quando olhada como sobrinha precisa obedecer para ficar com a titia! Como irmã de alguém, espera-se dela a compreensão de que o irmão também precisa de atenção e no caso de filha única, AH, que não seja mimada!!! E sendo prima o mínimo é que saiba emprestar seus brinquedos!

As expectativas são enormes, infinitas, automáticas e claro, em sua maioria, sem lucidez.

Então nascemos para quem?

Para eles; para os outros; para o que esperam de nós.

Até hoje, olhares alheios esperam de mim muito mais do que posso dar. Justamente por não pensarem em mim e sim neles próprios. E é assim que vamos alimentando as relações, dentro dos nossos próprios desejos,  dentro do nosso próprio umbigo.

E não  fazemos por “maldade”.

Fazemos porque desde que nascemos os olhares sobre nós apenas dialogam com as suas próprias necessidades, apenas refletimos o que  cada coração busca em nós.

 Não somos  enxergados apesar de vistos.

E assim vamos repetindo o que aprendemos.

Quando recebemos uma criança em casa para brincar com o nosso filho, esperamos que seja educada, obediente, que brinque em harmonia, que fale obrigada, que diga por favor e etc. Esperamos muito dessa criança! Afinal, esse é o comportamento que uma criança convidada tem que ter na casa do amiguinho né? Olha só… já estou  esperando que a amiga da minha filha se encaixe no papel da “boa” amiga.

E se sair do esperado? Se ela chegar à minha casa de cara fechada, emburrada, não querendo dividir os brinquedos, gritando, não falando obrigada e por favor ? Provavelmente acharei mal educada essa  criança que ocupa o papel de amiga da minha filha. Preciso dar condições a ela de mostrar-se quem é de verdade sem condicioná-la dentro dos MEUS desejos.

Porém, há outros papéis que também  nos definem de fora para dentro; O papel do tímido, do agressivo, do extrovertido, do ciumento, do burro, do inteligente, do inseguro, do homossexual, do galinha, do corajoso, do café com leite, do independente, do fraco, do arrogante,  do invejoso, do sortudo, do feio,  do mimado, do bipolar.

E mais uma vez somos costurados dentro das expectativas alheias. E o delicado de tudo isso é acreditarmos ser realmente  assim.

Isso pode “encolher” o nosso espírito dentro de uma ferida que dói sem ser visível ao invés de expandi-lo na sua exuberância divina. Para sermos convencidos do contrário precisamos nos libertar daquele olhar que mais uma vez colocou suas próprias frustrações e fragilidades sobre nós.

E chega um momento que colecionamos pouca coisa dentro de nós e o viver vai ficando pesado, pesado e mais pesado.

E mais uma vez pergunto: Nascemos para quem?

Ainda não é para nós!

Apenas nascemos para nós quando entendemos de maneira muito clara que o papel mais importante da nossa vida é o papel representado dentro da relação estabelecida entre a nossa própria essência com o nosso próprio olhar.

Acredito que com essa atitude  nos convencemos de verdade que nascemos para nós e passamos a sentir como vale a pena estarmos vivos dentro de nós e não apenas para os demais.

E sobre os papéis, seguiremos com eles, mas não com uma postura a ser  “atendida”, “cumprida”,  MAS na condição de uma oportunidade para que o outro nos conheça como somos de verdade também dentro daquele “papel”.

E hoje, pensando em nossos filhos: eles nasceram para quem?

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