O Nepal entre Vigotsky e Piaget

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A alguns dias vi um documentário que abordava o cotidiano das crianças que tinham acesso à escola em um povoado no Nepal.

Me senti “sobrando” ali. Tive a certeza de que fui parida por um útero em outra dimensão. Seria aquela existência diante dos meus olhos de mãe, imaginária?

Depois que terminou o documentário fui me organizando mentalmente: crianças pequenas, a menor com quatro anos, caminhavam sozinhas por uma hora até chegar à escola por um caminho onde só a fé justificava a proteção. Era morro acima e morro abaixo rodeados por inclinações e barrancos. Mas aqueles pezinhos tinham a proteção da mãe terra em cada derrapada.  As pedrinhas rolavam e eles seguiam sem desistência pelo caminho de cada dia, onde tinham que passar. Ora cantavam, ora riam um do outro e aquilo parecia algo tão habitual como o pão que comemos a cada dia.

Aquilo tudo era real.

Para a mãe entrevistada no documentário, a possibilidade do acesso  das filhas à escola era  o mesmo que ter “alcançado o céu.” Para aquele coração materno, a loteria do conhecimento tinha sorteado seu número da sorte.

No decorrer daquela realidade, cenas da minha vivência me vinham à cabeça.

Enquanto aquelas crianças levantavam cedo e colocavam o uniforme da escola  com excesso de capricho com suas gravatas, (tinha gravata no uniforme!), eu me via refletindo sobre o discurso que agarro e difundo de que o uniforme mais padroniza do que liberta a individualidade de uma criança em prol de uma educação  com respeito.

Já me senti mais “inteligente” e “sábia” que muitas outras mães que não paravam para questionar aquele discurso ideológico do uniforme sobre o próprio filho. Quanta ignorância a minha ao deparar-me com outro discurso que um uniforme também pode ter. É que aqui no asfalto a educação não é um “luxo” como lá e por isso, muitas vezes,  nos perdemos daquilo que deve ser realmente relativizado com prioridade.

Aquelas crianças com aquelas gravatas se sentiam orgulhosas, respeitadas, com sorte na vida, justamente por estarem de uniforme. Nenhuma outra roupa no caminho para a escola  tinha mais convencimento que aquele uniforme. Quem dera se todas as crianças daquela região pudessem sentir-se igualadas dentro daquela roupa com cheiro tão particular.

Quando mostraram a mãe com as filhas, tomando café da manhã agachadas no chão e comendo não sei o quê aquecido, cozido nas chamas de uma fogueira, foi impossível não lembrar do leite industrializado, dos biscoitos, pães diversos, frutas, granolas, iogurtes, carnes de primeira, peixes frescos, cereais, todos em diversas categorias: orgânicos, veganos, diet,  ao alcance de um supermercado mais próximo de casa e ainda com serviço de entrega à domicílio. Apesar de toda facilidade, as crianças, filhas da urbanização, tem a insistente tendência de serem seletivas na hora de sentar para comer.

Lá na tela eles comiam o que tinham ao alcance: o fruto da árvore mais próxima. Se o gosto era bom? Não existe tal pergunta quando não se tem opção. E acredito serem mais saudáveis que muitas crianças urbanas. Médicos? Se a escola ficava a uma hora de distância, os médicos então? Não vi o menor vestígio por ali. As mesmas ervas que alimentam também devem curar.

Fiquei pensando se as crianças celíacas, com intolerância a lactose, com refluxo, alergia ao camarão enfim, com transtornos alimentares, também nasciam por aquelas “bandas” de lá.  Parece-me que aquele lugar tem demasiado cheiro de terra para tanto modernismo do lado de cá.

Sou consciente que o cotidiano mostrado estava sendo filmado e me questionei em alguns momentos,  quanto à veracidade de tudo, já que todo produto cultural tem  seus interesses ideológicos por trás.  MAS, a dissimulação, o “fazer de conta” não me pareciam possíveis dentro dos critérios da mãe terra que ali estava em cada canto. São pessoas que não sabem dissimular, nunca aprenderam sobre isso; apenas aprendem o que a natureza é capaz de ensinar. E a natureza é sobretudo verdadeira.

Ali a natureza ensina que a raiz é forte, duradoura, sábia e os frutos são filhos da boa saúde, da prosperidade, da esperança, da proteção e do milagre.

Ao ver aquela mãe se despedindo das filhas e entregando-as para aquela caminhada cheia de perigo e esforço físico, devota, ajoelhada na sua gratidão percebi-me histérica dentro das minhas certezas.

Naquelas circunstâncias, ter a chance de aprender a ler e escrever é sinônimo de melhores oportunidades na vida. É ter a carta de “alforria” ao seu alcance. De poder pensar, questionar, buscar possibilidades diferentes das que tiveram seus pais. Então, ler  e escrever é o que faz   com que uma criança que ali vive sinta-se em liberdade. O resto é puro tumulto das vitrines contemporâneas.

Do outro lado daquelas montanhas vivemos tempos polêmicos quanto à educação dos nossos filhos. Temos diversos métodos pedagógicos: o tradicional, o Waldorf, o método Decroly, o Montessori, o Construtivista e muitos outros que não conheço.

É um vai e vem entre Vigotsky e Piaget sem fim.

E todos  sobrevivem dentro de suas defesas, egocentrismo e conclusões. Qual é o melhor método? Olha, depois do décimo oitavo parágrafo que escrevo, minhas certezas já estão um pouco sem rumo.

Tento proteger minha filha dentro de um mundo acadêmico, evitando rótulos e padrões sociais, evitando a falta de liberdade de expressão, a falta de individualidade, a precocidade em desenvolver o cognitivo, a falta de acolhimento emocional, do aprendizado decorado e não sei mais sabe-se lá o quê, que agora mesmo percebo o excesso de barulho em torno disso.

Quantas preocupações  esse mundo tão urbano que vivemos cria e recria a cada minuto nos causando medo e mais medo. Nem dentro da melhor escola  nos sentimos seguros pelo excesso de exigências que carregamos dentro das nossas escolhas. E para escolher uma precisamos diminuir as outras para que tudo faça sentido.

Cadê o medo daquela mãe do alto da colina??  Eu suplico,  cadê ele? O medo que ela deve ter no peito é uma safra de medo que só dá dentro de pessoas que não tem acesso a poluição auditiva e visual que temos nós, mães urbanas cercadas pelo excesso de opções.

Boa parte desse medo que deixamos crescer dentro de nós é por conta do famoso temor de filhos traumatizados. Meu Deus! Percebo-me com pouca fé agora mesmo. É muito medo dentro do peito de uma mãe urbana. Naquele povoado do Nepal eles conhecem a palavra, T r a u m a? Trauma de quê se não sabem o que tal palavra significa? O único medo daquela mãe é das filhas ficarem sem escola. Todo o resto é do jeito que a natureza oferece. É a lei respeitada e interiorizada por eles.

Enfim, sei que não fui criada ali  e por mais que quisesse compreender, ainda não poderia comungar da sabedoria daquela mãe. E  não me refiro à sabedoria intelectualizada, mas à sabedoria em forma de fé.  Porém, posso me nutrir daquela realidade para relativizar os meus exageros e principalmente questionar o excesso de ideologias, de movimentos ativistas, da ciência que “elitiza” e generaliza pensamentos, todos em prol de uma proposta, muitas vezes, contraditória de “emancipação”, “fé” e “liberdade” individual.

3 respostas para “O Nepal entre Vigotsky e Piaget”

  1. Olá Raquel. Adorei o texto. Acho que sempre cabe um recorte. Somos de realidades diferentes. Fiquei aqui pensando quanta alegria para essas mães de seus filhos estarem estudando. Uma analogia aos pais que tinham a sorte de enviar seus filhos ao estudo em seminários aqui no Brasil, mesmo que para que terem acesso à educação, eles teriam que mentir sobre um suposto interesse em serem padres. Fiquei imaginando as centenas de milhares de pessoas que entregaram seus filhos à escolas internas imaginando que estavam oferecendo o melhor e elas foram abusadas em todos os sentidos. Mas compreendi em seu texto a felicidade simples de terem uma só opção, em contraponto com a nossa eterna insegurança em meio a tantos caminhos a serem escolhidos. É bom sempre ter essas reflexões para pensarmos que nada será perfeito nunca.

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