filhos, pais e babás

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Ela troca fralda, dá a comida, cumpre com os horários, segue com a rotina, brinca, cuida e, por muitas vezes, também educa.

Quem é ela? A babá.

Ela tá na lida ninando as crianças que vem para seus cuidados através da relação com o capital, tá cumprindo com o acertado na carteira de trabalho. Topou, topado está. Às 8:00 da manhã tem criança com fome para alimentar, com choro para consolar, com vontade de brincar e também com preguiça de levantar. Não dá para pensar muito não, a rotina já começou contratada! e o papai e a mamãe tem que sair para trabalhar. Beijinhos filhos, nós te amamos e até mais tarde.

E uma nova relação começa ali. Uma nova presença começa a ganhar importância na vida daquelas crianças. Aliás, não é apenas uma nova presença, mas com toda certeza uma nova referência. Dentro de uma carga horária combinada há tempo para tudo, inclusive para as broncas, aprendizados e carinhos espontâneos.

A babá está ali cumprindo com as normas deixadas na geladeira, não sei se novas para ela já que muitas vezes está cuidando de quem ela também cuida em sua casa; de filhos. Àqueles do papai e da mamãe que vão trabalhar passam a ser seus “emprestados” e os delas passam a ser de outros também “emprestados”.

Não raro a hora extra é preenchida por novos acertos e acordos e nos finais de semana há, sem espanto,  a presença da folguista!

Isso se for apenas um filho para ser cuidado, pois se são mais o entre sai de novas referências pode ser bem maior.

E foi dentro de uma realidade dessas que eu passei uma tarde e um pouco da noite de  um dia de janeiro.

Estávamos com uns amigos que tinham duas crianças pequenas, uma de 2 e outra  de 4 anos, e mais a babá. Passamos a tarde juntos. Nos abraçamos, celebramos o reencontro, as meninas logo se “enturmaram” e eu entrei em “parafusos”.

Cometi o pecado capital do julgamento: “fácil ter filhos assim”. Eu sorria para fora e julgava para dentro. E fui entendendo que aquela família tinha a babá e a folguista na sua rotina familiar.

Tudo começou a minimizar dentro de mim quando eu me percebi almoçando com uma tranquilidade absoluta e podendo conversar com tamanha paz. Claro! A babá estava cuidando de todas as crianças  para que nós pudéssemos desfrutar daquele momento que para mim ainda é raro.

Comecei a ficar mais consciente.

Foi bom demais ter podido aproveitar daquela babá. Foi bom demais ter tido silêncio, individualidade e sossego.

Enfim, depois que nos despedimos ainda sim sai dali meio “inconformada”. Babá segunda, babá terça, babá quarta, babá quinta, babá sexta, babá sábado, folguista domingo, PIREI.

Na verdade não conseguia sair da minha caixinha de julgamentos, pois o que mais me intrigava é que estava diante de Pais com letra maíuscula, de pais que quiseram aquelas crianças e com toda certeza amavam e zelavam por suas filhas. Isso não tenho nenhuma dúvida.

Então, fui entendendo que o problema talvez não era com eles, mas sim comigo.

Foi quando comecei uma carinhosa conversa com a mãe que também sou e passei a observar as reais verdades sobre àquilo que eu insistia em negar tanto, que era  ver uma mãe e um pai relaxados enquanto uma outra pessoa cuidava dos filhos que eles quiseram ter.

Estava negando a minha admiração por ver pais capazes de ter um staff de apoio independente do julgamento alheio. Àquela estrutura era importante para eles e não se sentiam diminuídos enquanto pai e mãe por assumirem que precisavam de ajuda.  O papel do pai, da mãe e da babá estava muito bem definido e claro dentro daquela família.

Xeque Mate!

Então passei a admirá-los pela coragem e pela segurança de deixar seus filhos também serem cuidados por outros , MAS sem negociar a posição de cada um na vida de cada filho.

Achei aquilo fantástico!

Não estou falando de pais que estão terceirizando filhos, Não! Estou falando de pais que estão terceirizando o acúmulo de estrés do dia dia, pelos quais passamos todos  nós que somos pais e mães.

Sabemos que o estrés afeta as relações e por muitas vezes faz com que elas cheguem ao fim. Se deixamos os julgamentos em “off” seria tão absurdo assim aceitar que é muito melhor estar com os filhos quando estamos mais relaxados, tranquilos, com condições de estar realmente, do que TER que estar sempre independente da nossa capacidade emocional?

ESTAR sempre junto de um filho é sinônimo de mais amor? SERÁ?

Já me vi inúmeras vezes e ainda me vejo outra tantas junto à minha filha sem querer estar. Nesses momentos não seria mais respeitoso com ambas se estivéssemos em condições diferentes? Podíamos até estar juntas mas se eu tivesse alguém para brincar com ela me faria a mãe mais feliz do mundo em muitos momentos.

A amo menos por sentir isso? não, creio que amo com mais verdade. E é esse amor que  nós merecemos com mais pureza e humildade.

Quando volto a pensar nessa família, volto a me admirar com a verdade do amor que eles constrói dia dia com as suas crianças. As crianças vão aprendendo que seus pais não estão disponíveis sempre, a qualquer hora para elas, e que precisam de ajuda para cuidar delas. Ao menos neste momento da vida.

É um amor com verdade e não um amor com descuido. 

Perceber a capacidade deles de confiar em alguém, de aceitar uma nova maneira de cuidarem das crianças por mais que instruam, que orientem, e sei que isso eles fazem, cuidadosamente, a cuidadora terá suas manias, crenças, tradições que estarão na relação com os pequenos; para mim é de aplaudir de pé!

Seria tão difícil para mim me adaptar a este contexto, ainda sou muito controladora, é sofrido aceitar uma outra pessoa fazendo as coisas de outro jeito para a minha filha. Mais mérito meu por ser uma mãe assim? não mesmo, quem disse que a minha maneira é a melhor?

E a última lucidez que tive sobre essa vivência foi de fazer um paralelo entre a escola e a babá.

Antes de começar o processo de alfabetização realmente é necessário levar as crianças à escola (e mesmo depois, hoje em dia já é questionável)? No meu ponto de vista, não. Mas, uma criança de cinco anos se não vai à escola parece um escândalo social, de repente esse pai e essa mãe serão julgados por displicentes. Ainda vivemos em tempos em que a criança acabou de nascer e tem que ir para a escola pois é “importante para ela”, “ela vai se desenvolver”,  “ se socializar” , ou seja, se não for parece que ficará uma criança primitiva.

Como fomos criados dentro deste discurso com normalidade o vemos. Se uma mãe leva o seu filho  de quatro meses, de dois anos ou de cinco anos para a escola está tudo mais que certo. Mãe zelosa! E se esta mãe trabalha ai que está tudo mais que admitido, aprovado, normatizado, afinal, coitada tem que trabalhar!

Independente se estamos falando de um bebê ainda, o pensamento doutrinado e por isso respeitado e aprovado pela lei do bom comportamento social é este.

Voltando dentro da minha realidade, minha filha quando foi para escola tinha dois anos e meio, ficava seis horas, almoçava e jantava lá e eu não trabalhava nesta época.

 E ai?

Terceirizei minha filha? que absurdo! Claro que não, ela estava na escola, brincando, aprendendo, crescendo. Bom, ela estava onde me encontrava protegida de julgamentos e de caras feias.

Ela podia fazer tudo isso na pracinha do bairro, na casa de amiguinhos ou estando apenas comigo. Mas eu não quis, precisei me agarrar ao “discurso protegido” de que ela precisava ir para a escola. Naquela época ainda flutuava em mim pouca segurança para afirmar que optei pela escola porque precisava de algumas horas sozinha principalmente por estar sem “trabalhar”.

Mãe sem “trabalho” tem cara (obrigação) de mãe o dia todo né! Menos julgamentos e mais verdade por favor 🙂

E quando tinha feriado na escola? Era mais um desassossego que uma alegria! Será que eu não gostaria de ter nesse dia uma babá apenas para brincar com ela nas horas que eu Não quisesse?

E se amanhã mudasse o discurso escolar e as aulas se estendessem até sábado? Reclamaríamos? Afinal é legal ir para a escola brincar com os amigos, a aprender, a crescer e foi o Ministro da Educação quem aprovou tal mudança! Ele sabe o que é melhor para os nossos filhos, somos obedientes, bons pais, e no sábado estaríamos lá.

Estaríamos terceirizando nossas crianças?

E se ao invés de irem para a escola as crianças ficassem no sábado em casa com a babá para que pudéssemos dormir até mais tarde, depois ir fazer unha e tomar um café com a amiga, entra novamente o julgamento em cena e desestabiliza a comodidade quando o discurso é a escola? Nos diminuiriamos como pais?

Enfim, estamos sempre nos acomodando a contextos já aprovados e outros tantos por serem negociados, vencedores são aqueles que conseguem amar com verdade os seus filhos independente das caras feias e assustadas.

Recordo com muito carinho da babá que tive com meus cinco anos, ela inclusive viajava conosco, ainda hoje tenho o privilégio de encontrá-la quando vou à Bahia e de relembrar o meu passado com tamanha riqueza de detalhes dentro do seu eterno carinho.

8 respostas para “filhos, pais e babás”

  1. Ótimo texto , tenho uma pessoa q me ajuda com meu filho desde o primeiro mês, e não me sinto nem um pouco culpada, precisamos de ajuda sim e isso não nos torna menos mãe, pelo contrário, a relação de mãe/pai e filho fica bem mais sadia. Amo demais meu pequeno, Hj com 11 meses
    Bjss

  2. Eu tenho um bebê com um ano e cinco meses e sei o quanto é difícil não ter ajuda, não tenho ajuda por falta de opção, mas quando meu bebê tinha 4 meses eu tive uma babá excelente, mas devido a condições financeiras eu tive que abrir mão dela, mas eu tive esses bons momentos, poder sair, ir ao médico, dentista, estas saídas necessárias e que mães que não tem ajuda de alguém acabam as sacrificando.
    Durante a minha adolescência fui babá de muitas crianças, mas hoje tá cada vez mais difícil conseguir uma boa babá.
    Tenho revezado com meu esposo os cuidados com nosso pequeno. Quando trabalho ele fica e vice e versa, mas reconheço que é muito desgastante.

  3. Continuo super a favor dos pais sem a Babá.
    Fizemos esta opção mais pela minha insistência e fico impressionado com o quanto isso foi acertivo, o quanto recebemos comentários sobre a calma, segurança, confiança, etc que nosso filho tem.
    Não digo que sou melhor do que todas as babás mas a chance ter ter sucesso no desenvolvimento e educação do meu filho é muito maior comigo e sem a babá.
    A sociedade está precisando disso, as pessoas estão enfraquecendo psicológicamente, os valores estão se perdendo e o dinheiro, status, bens materiais, estão ganhando valor.
    Muitas coisas vêm da raiz e as chances de correr atrás dos prejuízos emocionais e educacionais reduzem com a idade da criança.
    Sugiro sempre que os pais reduzam a idéia de sucesso financeiro ou formatos da sociedade e entrem numa maior chance de sucesso na vida.

  4. Excelente o texto! Parabéns pela reflexão e por nos dar a oportunidade de vermos essa situação (baba x terceirização) com um outro olhar, sob outro ponto de vista. É difícil se desprender de nossos próprios preconceitos e pararmos de julgar… Confesso que tenho algumas ressalvas com relação à terceirização, Essa família que vc citou, cada um tem o seu papel definido e os pais parecem ser bem presentes… O que vemos muito por aí são pais realmente terceirizando tudo, os cuidados, o carinho, a educação e às vezes até o amor.
    Em casa eu tenho ajuda desde que meu bebê nasceu, mas até os 4 meses a ajuda se limitava aos afazeres da casa: fazer comida, lavar e passar a roupa do bebê e arrumar a casa.
    Nem pra tomar banho eu queria deixar com ela… Kkkk levava o bebê junto…
    Depois voltei a trabalhar e deixava meio período com ela. Durou 3 meses… Realmente não fez sentido pra mim deixar meu filho com outra pessoa, além de me privar de acompanhar o desenvolvimento dele, ela sempre fazia coisas que eu não fazia (e não gostava), como deixar no carrinho em vez de estimular no tapetinho, dar chupeta pra dormir mesmo sabendo que eu não gosto e nem ele, dentre outras coisas… Conclusão: pedi as contas do trabalho pra estar integralmente com meu bebê, que está com 7 meses agora. E ela continua ajudando em todo o resto, mas do meu filho cuido eu… Meu lado leoa falou mais alto.. mas não critico quem opta diferente. Cada um sabe onde seu calo aperta, não é mesmo?

    Parabéns pelo texto!!

  5. Ótimo texto! A reflexão tem que estar presente o tempo todo, com ou sem babá, qual o seu papel e o que é agregado a seu filho, o controle e a humildade de não se ter controle, a flexibilidade etc. Tenho dois filhos, de 3 e de 5 anos. Já deixei o mais velho em berçário, amamentei mais de dois anos cada um, sem mamadeira, grávida e os dois ao mesmo tempo, sou preocupada com a alimentação, sucos naturais, comidinhas saudáveis, com brincadeiras longe de games e televisão. Converso sobre música, números, natureza, feminismo e ética. Tenho uma babá há 3 anos. É mais nova, tem um filho que deixa na creche, e trouxe uma outra realidade para dentro do meu lar- música metralhadora, adora games, estilingues e cozinha mal. É uma troca maravilhosa: insisto em ensiná-la novos pratos e dicas naturais de saúde e ela me ensina a ser menos rigorosa e mais divertida. Quando meus filhos adoecem, fico devendo hora e assumo o controle dos cuidados. As tarefas da escola, lanche e leitura realizo em 80% das situações. Quando não dá, ela assume com entusiasmo e solidariedade. Sabe que não folgo. Depois pago hora extra à babá para pagar hora em meu trabalho. Assim vou vivendo cada dia. Confesso que sou muito controladora ainda e quem mais sofre com isto sou eu. Acredito que se os compromissos e os papéis estiverem definidos honestamente, sem máscaras pode ser um caminho bem agradável. Somos antes de tudo, duas mulheres que se apoiam, é claro que a relação trabalhista existe, mas a prioridade está definida: nossos filhos. Caso ela precise ficar com o filho ou levá-lo para o trabalho (minha casa), isto acontece.
    Raquel, não sou como este casal que tem um suporte nos finais de semana. Às vezes gosto e às vezes não tanto de ficar e brincar com meus filhos. Quero gritar, e às vezes falo para eles que não quero andar de skate e nem nadar na cachoeira, que o adulto fica um pouco chato. Nem todos adultos e nem toda hora, a gente quer ou soltar pipa. Mostro sem medo, mas não se culpa, minhas frustrações, meu cansaço e minha humanidade…não sei se é o certo, mas é o que consigo fazer. Ter babá não é tercerizar o seu papel, …pelo menos no meu caso.

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