Os 39!

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Ontem foi um dia de mais um ano. Cheguei aos 39 anos.

 

Não foi um dia tão feliz desde o momento em que abri os olhos, também não sei se teria que ter sido pelo simples fato de soprar velinhas.

 

Foi um dia nublado por aqui, meio frio, volta de um feriado longo com a minha filha doentinha, enfim, sobrava mal humor  e a cabeça pesada de queixas, me sentia A “vítima” da existência. E quanto mais eu resistia mais eu lutava por continuar nesse lugar.

 

Então, fui fazer terapia na depilação, entre um cabelo colado na cera e outro encravado enchi a sala de perguntas e a todas me ficou clara as respostas!

 

Ok. Diálogos sem tragédias. Então, fui comprar uma vela para o bolo e sai do supermercado com tres velas de jacaré! Achei o máximo aquilo! Aquelas velas esperavam por mim! Certamente essa atitude me fez acolher a minha criança interna que seguramente precisava de atenção (agora me dou conta disso). Fiquei tão feliz com aquelas velas e fiquei tão  maravilhada com a sensação de me sentir uma criança…  Comecei a sorrir no dia do meu aniversário.

 

Era o que eu precisava: apenas  sentir a minha emoção e SOLTAR a complexidade intelectual.

 

 

Entre velas, amigas e bolo tomei uma taça de chapangne, brinquei com as crianças e engoli uma vitrola; a Raquel finalmente estava PRESENTE.

 

Comecei a me dar conta naquele momento da minha presença. Comecei a observar as palavras que dizia, a forma com que eu gesticulava, as histórias que contava, qual assunto eu priorizava compartilhar, a alegría que tinha no meu olhar, como eu me fazia entender em outro idioma, notava a atençao de quem estava comigo, me sentía bonita com a roupa que eu estava, brindei com vontade pela Raquel de ontem, de hoje e certamente de amanhã.

 

Não estava apenas ali sentada como aniversariante, estava ali sentada SENDO EU. Sendo a Raquel que não exigiu nada dela mesma, apenas a observou e a deixou SER.

 

Enquanto eu estava presente no meu aniversário, também estava presente na minha tragetória vivida.

 

Pude me sentir tão bem em observar a caminhada dos 39 anos. Senti beleza, drama, intensidade,  superação, proteçao, luz e  AMOR.

 

E quando me disseram: faz um pedido… !!!!

 

Pedido? Foi tão natural o que veio…

 

CORAGEM!

 

É só o que eu preciso. Apenas preciso de coragem para seguir nesse infinito caminho que optei por viver; do AUTOCONHECIMENTO.

 

Coragem para desaprender a forma equivocada de viver; coragem para seguir me  conhecendo; coragem para asumir a responsabilidade pela minha vida; coragem para sentir; coragem para deixar o meu lado autêntico na vida; coragem para soltar o que não controlo; coragem para não sentir medo; coragem para pertencer ao todo, coragem para abrir os braços e pedir ajuda; coragem para pedir carinho; coragem para ser humana; coragem para sentir saudade; coragem para sair do caos; coragem para ser feliz; coragem para ser pequena e grande; coragem  para ser EU; coragem para aceitar a minha missão; coragem para regressar a “casa” quando chegar o dia.

 

É… é só isso que peço e espero merecer ter.

 

Quando cheguei em casa guardei com muito carinho as minhas velinhas… sem dúvida, elas me despertaram a coragem que me faltava no dia do meu aniversário.

 

Você não me manda!

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Já ouvi várias vezes essa frase da minha menina e algunas, muitas delas, eu revidei.

Entre uma reação e outra me sentía muito perdida dentro do meu papel de mãe. Sentia-me tão pequena quanto a minha filha. Olhava para os lados, girava os olhos, bufava, rosnava mas milagre algum acontecia.

Foi quando eu comecei a conversar com a minha “necessidade”: O que significava para mim a necessidade de MANDAR?

Para mim até então, o controle e o respeito  aconteciam se eu soubesse mandar nos momentos que precisavam, ou seja, a última palabra tinha que ser a minha e decidido estava.

E por consequência, se eu nao conseguisse mandar me sentía “desqualificada” como mãe. Percebia-me uma mãe fora da própria maternidade. Alguém de pouca credibilidade perto de uma criança.

Tudo isso começou a me parecer antigo, em desuso, desatualizado e até mesmo agressivo dentro de uma relação entre pais e filhos. Comecei a sentir vergonha e graça quanto a necessidade de mandar, pude me ver totalmente insegura nesses momentos.

Então, substitui sem nenhum apego o verbo mandar pelo educar.

Esse sim fez um sentido enorme para mim, me colocou em outro patamar dentro da minha maternidade e me tirou dos desentendimentos com a minha filha, do conflito para medir força.

Depois que essa experiencia ficou clara para mim comecei a responder para a minha menina: Claro que eu nao te mando! A mamãe te educa!

A frase começou a perder a sua força e insistência, a provocação nao encontraba mais eco e eu sabia exatamente qual era o meu papel dentro dos conflitos.

Ela era a filha e eu a mãe.

Como eu podía querer ter o controle se em muitos momentos nao sabia o que fazer? Não era através do controle que eu conquitaria o respeito da minha filha e nem o meu próprio. Apenas estaría me colocando em uma condiçao de puro desgaste e descontrole emocional, resistindo a condiçao natural de aprendiz que todos nós somos.

Quando eu comecei a dizer a minha filha que não mandava mas sim educava, o sentido do educar ficou ainda mais consciente dentro de mim. Nao educamos no controle, mas sim na confiança.

Na confiança de días melhores, na confiança de uma escuta mais atenta, na confiança de observar mais e concluir menos, de buscar a melhor solução mesmo que para isso seja preciso dar um passo atrás, e principalmente, na confiança de ser menos vaidosa com a minha condição de mãe.

Ao invés de atrair  e persistir nos conflitos, de entrar na autoexigência desmedida, de correr dentro de um labirinto sem saída, de repetir crenças que nao nos representam,  optei por ressignificar o que para mim seria educar e mandar.

Ainda pensamos que quem manda ganha, sem refletirmos  que esse lugar dentro da maternidade apenas deixa claro o nosso pedido de SOCORRO.

Quem manda se contenta com a obediência através do medo, quem educa conquista uma relação de hierarquia com empatia e leveza.

Comecei o ano respirando diferente.

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Sentia falta desse papel em branco, de escutar a minha emoçao materna e de utilizar da escrita para seguir sanando o meu corpo e o meu espírito.

Depois que comecei a trabalhar com a fotografía emocional para mulheres sinto que a minha criatividade esteve por um tempo muito voltada para decifrar, interpretar e concluir o que esta arte pedia de mim.

Acho que agora encontrei um equilibrio entre a escrita e a fotografía já que as duas sao a minha forma de experimentar a vida, de traçar um ponto de partida e de enxergar com mais clareza quem é a Raquel mais parecida com a sua verdadeira essência.

2017. Comecei o ano respirando diferente. Sim, agora eu “paro para respirar”. Paro para sentir como inspiro e exalo o “ar” que me permite estar aqui. Como ele vai desatando e sanando tudo o que nao faz parte de mim. Nas demais horas do dia sigo respirando sem saber que estou.

À noite é quando esse momento mágico acontece. Tenho ele marcado na minha agenda do dia: Às 21:00, RESPIRAR. Há dois meses que exercito essa técnica (Happiness Program, Arte de Viver) todos os días.

Comecei a me perceber infinitamente mais “leve”. A minha raiva, as minhas queixas, a minha impaciência, as minhas vaidades começaram a se mostrar de outra forma, deixei de “morder” a mim mesma e ao meu redor.  Houve días nos quais eu flutuei e outros nos quais aterrizei. Atualmente posso afirmar que experimento uma consciência expandida dentro das minhas emoções, memórias e programas mentais que me permitem enxergar com mais nitidez a minha materia bruta da minha obra de arte. A Raquel resultante do aprendido e a Raquel filha do divino.

Passei a reagir menos, a querer controlar menos, a ter menos medo. Venho conseguindo o que para mim ontem era um grande desafio: Desatar as amarras, a raiva, a rigidez, enfim  as “muletas emocionais”.

Meu processo de autoconhecimento nao começou agora, mas sim há 11 anos atrás. E  sem dúvida todas as terapias e práticas que vivenciei foi trabalhando algo muito importante dentro de mim. Sinto que tudo foi e vem sendo essencial para que eu pudesse chegar ao autoconhecimento também através da RESPIRAÇÃO.

Nada trabalha isolado, mas sim integrado.

É um prazer tão grande conseguir ficar no mínimo 30 minutos sentada “apenas” respirando. Sao trinta minutos de autocura, de sanação, de profunda limpeza.

Quando eu poderia imaginar que um dia conseguiría isso! Quando me propunha a algo similar, ao final do segundo minuto a impaciência e a falta de convicção me tiravam da posição de ausencia de movimento.

Sentia-me incapaz de conseguir, sabia que aquilo que quería muito nao era para mim!

E aqui estou eu para afirmar que SIM também é para mim!

A partir de toda essa nova vivência a relação com a minha filha tem se transformado bastante. Venho conseguindo observar mais a raiva quando ela ameaça chegar, e percebo com mais nitidez as memórias que doem dentro de mim e que me fazem reagir de forma inadequada.

Mais uma vez volto para dentro de mim.

Mais uma vez assumo a responsabilidade sobre a minha unidade.

E mais uma vez entendo que tudo sao apenas “programas mentais” construídos, vividos e repetidos.

Ao identificar quais sao esses comportamentos que apenas estão dentro de mim e que podem ser ressignificados e desprogramados me abre uma infinita janela que me convida, cada vez, a ser mais livre dentro de mim mesma.

Passei a agradecer cada dia a minha filha por fazer parte da minha vida. Antes sentia a sua enorme importância na minha história, porém agora se tornou essencial para mim dizer isso a ela olhando dentro dos seus olhinhos cada noite.

Ainda sinto raiva, claro! A raiva é legitima, porém a cada dia necessito “morder” menos.

Percebo as minhas memórias sempre presentes, Mas nao quero ser vítima delas. Se colocar de vítima é sem dúvida apenas uma opção. O papel de vítima foi muito útil para mim até pouco tempo atrás, eu precisava dele, pois ainda me faltava mais consciência e tudo bem.

Sempre tive muitos conflitos com a minha mãe e  me via incondicionalmente como vítima da mãe que tinha. Ela tinha muitas “culpas” e eu me apoiava nessa “muleta”.

Hoje, sagradamente hoje, posso afirmar dentro de mim que a mãe que tenho era a mãe que precisava ter e eu a filha que ela também precisava ter. Isso nao quer dizer que passamos a nos falar todos os días ou que sejamos as melhores companhia uma para outra! Nao! Falo de algo mais divino que vai além das “obrigaçoes”. Falo de algo respeitoso, possível, sanador e transformador, falo da ATITUDE de assumir a responsabilidade pela própria vida. Somos infinitamente responsáveis por ser quem somos. Nao sou quem sou por ser filha dela, apenas precisei de tê-la como mãe para aprender o que ainda faltava saber sobre mim.

Na relaçao com a minha filha, muitas vezes, vejo nela atitudes minhas que nao gostaria de ver, pois esses “ajustes” requerem um processo de limpeza que leva o seu tempo. Porém, hoje, brigo menos comigo por isso pois tenho a certeza de que a ela também foi dado a saudável possibilidade de escolher ser RESPONSÁVEL pela sua própria vida, apenas precisamos também ensinar isso a um filho.  Precisamos libertar eles de nós mesmas. Somos ainda muito “pequenas” diante da parte divina de um ser humano, de um fiho. Ele sempre vai poder ser muito mais que uma  vítima da própria familia, da própria vida, da atitude que acha nao ter, das culpas alheias se lhe ensinamos a sentir e a experimentar que todas as experiências da vida nos resultam em ESCOLHAS e somos nós quem  ESCOLHEMOS  entre a escassez e a abundância. Entre abrir ou fechar uma porta. Entre gostar de quem somos ou buscar esse amor fora de nós.

Ao mesmo tempo que muitas vezes nos responsabilizamos de repetir memórias na educação de um filho podemos também sermos TOTALMENTE RESPONSÁVEIS por libertá-lo dessa memória coletiva dando-lhe individualidade, lucidez, autonomia  e opçao.

2017. Para mim o ano de mais um profundo despertar.

O livro Quando nasce uma Mãe

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Esse livro já estava “pronto” em algum lugar, apenas precisava que eu estivesse preparada para escrevê-lo. Hoje, sou capaz de entender o porquê ele teve que me esperar.

Quando me tornei mãe, não diferente a muitas de vocês, me via sempre dentro da mãe que tinha que estar feliz e agradecida. Via-me sempre afirmando o discurso “é difícil, mas é maravilhoso!”.  Era mais ou menos um tipo de negociação, ao mesmo tempo que eu me “condenava”, logo depois me “absolvia” e o sentimento de culpa ficava mais solto dentro de mim.

E anos assim…

Não que hoje seja totalmente diferente (afinal somos mãe!! Rs), porém, hoje,  não quero mais ter que negociar com as minhas emoções. Uma não é consequência da outra, nem  mais bonita nem mais feia, nem mais digna, nem mais anarquista. Deixei de negligenciar o que sinto como Mãe. A mãe que sou tem nome próprio, tem sentimento próprio, tem uma história única.

Comecei a me respeitar mais como ser humano quando resolvi  chamar pelo nome correto todas as emoções que eu sentía e sinto como mãe. Passei a ressignificar a imagen da “mãe ideal” dentro de mim.

Definitivamente a “super” mãe, nunca serei, não consigo ser, não posso ser.

Foi a partir daí que o livro se concretizou. Simplesmente, quando eu passei a acolher a mãe que consigo ser para a minha filha.

O livro é autobiográfico porém “escrito” através de uma voz coletiva. Participaram 37 mães, voluntariamente, com seus filhos. As fotos foram feitas pela querida fotógrafa Malu Machado, minha grande companheira nesse projeto.

Esse livro não é apenas nosso, mas sim de muitas.

Te convido a celebrar conosco no dia 17 o lançamento do livro, no Soul Planet, às 17:00, em Juiz de Fora.

Sacrifício ou Resiliência?

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Fomos condicionados ao sofrimento. Creio que para termos uma vida abençoada pelos anjos nos fizeram acreditar que precisamos ajoelhar no sacrifício em prol de algo. Precisamos ter aquele medo constante na barriga que nos sinaliza que  a amargura tem que nos pertencer, que os problemas, que as situações adversas têm que existir para garantirmos nosso lugarzinho no céu.

A mensagem sempre é: precisamos nos sacrificar, precisamos fazer pelo outro, nao podemos fazer só o que queremos. Assimilamos o sacrifício como existência legítima em nossas vidas, uma vez que para estar vivo ele precisa estar entre nós senão parece que estamos vivendo uma vida sem empatia, sem generosidade, sem amém.

A forma com que lidamos com os desafios da vida vem sempre acompanhada de muita cobrança.  As exigências nos transformaram em pessoas tristes, medrosas e com pouco direito de ser feliz, já que sempre temos alguém por perto que necessita da nossa última gota de suor.

Precisamos sofrer. Nao é à toa que dentro das conversas a pauta standard sao as queixas, os resmungos e as lamentações. Sentimo-nos cômodos dentro desta “murmúria”, afinal “problemas” todos nós temos e o lugar de “vítima” é bastante sedutor já que nos tira todo o peso do esforço. E vamos alimentando o vitimismo próprio e alheio e a completa necessidade de colo diante de tamanha falta de amor próprio.

Muito se confunde amor próprio com egoísmo e sacrifício com resiliência.

Como nascemos em uma cultura para atendermos a necessidade do próximo, quando resolvemos sorrir para dentro de nós, nao raro somos rotulados de egoístas. Ou seja, é feio quem busca se enxergar e ouvir suas necessidades mais íntimas. É feio dizer para o próximo que nós estamos primeiro na fila. Que primeiro precisa vir o que de dentro de nós urge ajuda. Nós também necessitamos da nossa última gota de suar muitas vezes para nos curarmos. E como podemos ajudar se dentro de nós nao tem o que dar?

Há muitos tipos de ajuda, podemos ser úteis de muitas maneiras. Mas sempre e uma vez mais, o sacrifico nos pede que nos anulemos para atender o outro. Se nao é assim, nao comungamos com o sacrificio que nos liberta e nos converte parte do divino.

Como estamos cegos.

Cegos de ternura, de serenidade, de bem querer.

Apenas conseguimos dar ao próximo o que temos. Se nao sabemos nos respeitar, como vamos conseguir respeitar a demanda do próximo? Muitos vezes nos sacrificamos por obrigação e nao por vocação. O sacrificio obrigado faz de nós uma alma penada. Uma alma condenada em tirar de si o que nao nos ensinaram a colocar dentro de nós. O amor próprio.

Por que o de fora é mais importante que o de dentro?

Viemos de dentro de um corpo para vivermos sempre fora do nosso próprio corpo.

O que acontece dentro de nós nao interessa para o sacrifício que nos ensinaram. Esse sacrifício sim que é cheio de egoísmo. Pois nos leva sempre a ter que atender a necessidade de alguém em primeiro lugar. Somos dia sim e outro também aprisionados dentro do desejo de alguém.

Mais uma vez, por isso vemos tanto sacrifício com cara e corpo de obrigação, de irritação, de menos valia. O coração nao está ali, mas sim a negociação de conseguir um lugar no céu.

A vida é dura? bastante!! Precisamos nos ajudar? Sim! Devemos ser generosos? eu acredito muito que sim! Mas nao através de auto punições, mas sim através de uma condição que eu acredito ser muito mais respeitosa com a vida, que se chama Resiliência.

O poder da resiliência é transformador, lúcido, agregador, individual, coletivo e curativo.

É totalmente diferente enfrentar a um problema sabendo quem realmente eres e as condições que tem para enfrentá-lo que simplesmente se colocar na exigência da obrigação. Desenvolver a resiliência interna é buscar por uma lucidez cheia de amor por si e consequentemente pelo próximo.

Ser resiliente é se auto conhecer, é saber de verdade quantas gotas de suor ainda pode dar. É saber dizer nao quando o sim precisa primeiramente ser ouvido dentro de si. É entender que fazer o bem exige de nós, mas nao deve cegamente nos obrigar.

Ser resiliente é entender que nao somos vítimas de nada e sim capazes de tomar as rédeas da nossa própria vida. Nos faz crescer dento de nós e nos liberta incrivelmente de ter que atender antes do que ser atendido. Sentir-me resiliente é me transformar em um braço amigo consciente, em uma ajuda atenta,  em um querer estar nem sempre com vontade, mas sim com condição de poder estar.

Precisamos nascer de novo dentro de nós para reencontrarmos com o nosso amor resiliente, com a nossa capacidade de abnegação e renuncia, Mas sem  esperar EM TROCA um lugar no céu.

É preciso de coragem para ser imperfeito

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Hoje com trinta e oito anos aprecio muito a palavra autenticidade. Aprendo cada dia um pouco mais com as pessoas que adotam esse “estilo de vida”. Elas, muitas vezes, nao me “enxergam”, mas eu estou ali com total empatia diante da sua forma de se mostrar ao seu entorno. Poxa! Como é importante para mim me rodear dessas pessoas. Me sinto nutrida de coragem, de entusiasmo, de coerência e de espiritualidade.

Observar uma pessoa dizer realmente o que pensa, mostrar-se realmente como é, no mínimo, me faz entender que a vida realmente tem sentido. O sentido do coletivo colorido e farto, da soma sem exatidão, da exuberância em prol da mesquinhez.  Eu “farejo” esse tipo de gente e quando as encontro “me sento” com elas. Nem sempre estou de acordo com o que pensam, mas sempre de acordo com a sua excessiva coragem. Para mim é um verdadeiro “orgasmo” esses encontros.

Entendo que a nossa imperfeição  aos olhos alheios é o que tem de mais perfeito dentro de nós. E por ela devemos lutar dia sim e outro também. Precisamos valorizar a nossa “imperfeição”. Precisamos ter orgulho dela. Pode ser a única coisa de exclusivo que nasceu conosco e que ninguém mais possui.  Aceitar a nossa diferença é entender que através dela permaneceremos “imortais” dentro de um mundo totalmente finito.

Através dela perpetuaremos para sempre dentro daqueles corações marcados inevitavelmente pela nossa “imperfeição ”.

Querer estar vivo nao é o mesmo que querer viver.  Querer viver é ser condizente com a nossa forma única de  viver a vida e para isso não precisamos estudar, memorizar, nem nos esforçar. Muito pelo contrário, apenas precisamos deixar fluir o que de dentro sai de forma tão natural. O esforço vem quando tentamos “calar” esse natural. Não nos damos conta, pois a necessidade de ser aceitos, amados, incluídos é ainda mais urgente que a simplicidade de apenas SER. 

Ainda não sabemos o que é apenas SER.

Quando me pergunto se eu me amo… a resposta não vem rápida, concluída, redonda. Não pode ser automática pelo simples fato de ainda nao conseguir ser autêntica cada dia.

Ainda estamos muito vinculados à mentalidade: “ e o que vão pensar de nós…”  Esse padrão de comportamento é uma sinalização do quanto nos falta amor por quem somos. Se ainda pensamos assim é porquê precisamos nos nutrir da aprovação de fora para conseguirmos aprovar o que está dentro de nós.

Ainda colhemos poco amor pela nossa diferença, pela nossa exuberante “imperfeição”.

Quando percebo uma fala minha autêntica, uma atitude ou até mesmo um silêncio verdadeiro comungo de um embriagante amor próprio pela minha essência. Sinto-me a rosa mais perfumada do campo sem me importar com as margaridas e jasmins. Naquele momento eu enxergo toda a minha plenitude repleta de vida, repleta de coerência, repleta de aceitação.

Percebo-me importante dentro do todo, apesar de ser apenas mais uma dentro de uma multidão.

Cada dia procuro estar mais atenta e mais condizente com quem sou de verdade.

Apesar de defender tudo isso e buscar na autenticidade um propósito de vida, confesso que quando me vejo como mãe arde na pele uma enorme contradição.

Busco educar a minha filha dentro da beleza da autenticidade, na busca e no respeito de ser quem ela é. MAS, muitas vezes, me vejo no dilema ou na “sabotagem” da necessidade da aceitação social. Para mim é um momento sofrido, uma vez que tenho a conciência de um lado, mas também a fragilidade do “amor-próprio” do outro. Quando uma criança é “comportada”, ou seja, quando não chama a atenção nem para mais e nem para menos está tudo ótimo! Será a criança “aceita” e “admirada” por todos (ao menos na infância onde tudo é “fofinho”). Agora,  quando a “comportada” faz um “barulhinho” um pouco mais forte que os demais, pronto!! Todos apontam o dedo e a bonitinha ou o bonitinho vira o patinho feio.

E o que é a infância senão a naturalidade de simplesmente SER?

Mas, não estamos preparados para isso. Ainda temos um olhar demasiado julgador e seletivo para as crianças. As que “convém” e as que não “convém”, facilmente rotulamos e fazemos pouco caso.

E afinal porque cometemos esse error  já que na infância nada é definitivo, mas sim reconduzido, transformado, conversado e dialogado? Uma criança precisa falar um palavrão para saber o porquê nao se deve falar, o mesmo acontece com os comportamentos nao devidos, ao experimentá-los saberão o porquê nao se deve agir assim. Ela precisa imitar o que vê, isso é sinônimo de saúde, que tudo vai bem. Afinal não foi assim que ela aprendeu a andar e a falar?

Porém, estamos preparados apenas  para presenciar o aprendizado “nobre”, o qual fará dela uma criança admirada, incluída,   enfim, aceita.

Mais uma vez estamos calando a “imperfeição” em prol da aceitação. Ainda cometo essa atitude com a minha filha. Tem momentos que ela grita quando deveria falar baixo,  fecha a cara quando deveria sorrir, tantos outros não diz nada quando deveria dizer alguma coisa. Em vários momentos já senti vergonha, insegurança e medo. De novo o pensamento “o que vão pensar, desta vez, dela…”

Quando acontece esses momentos eu rapidamente os identifico e busco dentro de mim a minha coerência por quem  sou. Revejo a minha história, as minhas buscas, as minhas certezas e a situação vai ficando mais leve, afinal  o que importa é se eu aceito a minha filha como ela demostra ser. Os demais são apenas o reflexo de muita poeira em caras embaçadas.

E essa reflexão é o xeque – mate desta vivência que eu divido com vocês. Em inúmeros momentos as caras “embaçadas” são apenas o reflexo da nitidez da nossa dificuldade. Da NOSSA dificuldade. De ter a coragem de aceitar a “imperfeição” de um filho. 

Mais uma vez, a “imperfeição” nos bate à porta e testa a nossa teoria sobre o  amor-próprio.

Entre tênis e parque

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Já faz 7 meses que a minha menina está na nova escola em Barcelona e faz 7 meses que eu também estou diante de uma nova cultura quando o assunto é mães, filhos e escolas.

Me encantei logo nas primeiras semanas com a maneira com que as mães (as famílias) nos acolheram: Com muita abertura e com vontade de saber quem éramos! Quem chega, precisa sentir-se acolhido e foi isso que aconteceu conosco. Fomos acolhidos com muito afeto.

No primeiro mês me disseram que, depois da escola, a convivência seguia no parque da esquina. E, claro,  lá fomos nós. E é para onde vamos, quase todos os dias, depois da escola. Lá tem mães que se encontram e compartem do entusiasmo, apenas, por ter aquele momento dentro do dia de cada uma. E as crianças seguem brincando livremente, misturando-se na areia, subindo em árvore, descendo pelo escorregador, brincando de pique esconde.

Esse instante para mim era como se me perguntasse se aquele momento era mesmo real: Depois da escola, andar a pé, parque, mães  reunidas, crianças ao ar livre brincando, tênis correndo, cultivo de amizades? Tudo isso era realmente real e segue sendo.

Então, fui me lembrando do ritmo  depois da escola no Brasil: Carro e casa na maioria das vezes. Parque? Mães reunidas? Encontro ao ar livre? “Quem sabe no final de semana…” O motivo? Falta de costume, falta de parques próximos e seguros, falta de possibilidades, excesso de protocolos e também falta de vontade.

Um outro costume, além das idas ao parque, é o rodízio na casa das amiguinhas. Um dia a minha menina vai na casa de uma amiguinha e outro dia a folia é lá em casa. Convida quem quer e aceita também quem quer. Muitas vezes, a mãe que convida leva as crianças e depois buscamos.

Minha casa começou a transformar-se em uma casa cheia de afeto, de carinhas novas e de mães que se ajudam e que se apóiam.

E sempre acontece de uma pedir a outra para buscar o seu filho caso não consiga chegar a tempo por qualquer imprevisto. Quando me pedem, trago aqui para casa ou levo ao parque e nos encontramos lá.

Essa cumplicidade entre as mães, essa rede de apoio é totalmente visível e incomensurável. Aqui se pede ajuda e deixamos que nos ajudem.

Não que no Brasil eu não pudesse contar com amigas queridas. Claro que sim e contei quando realmente precisei.  Mas sinto que não é igual. No Brasil precisamos conviver muito para nos sentir na condição de “pedir” algo ,pois não sabemos o que vão pensar de nós ( mas isso não é regra). Aqui não tem tantos protocolos e se você diz que pode ajudar, combinado está. Não se explica muito; aliás não precisa. Eu acabei de chegar e já pude ajudar algumas mães e também ser ajudada por elas. Cada uma vem de uma parte do mundo e as que são daqui se sentem iguais a  nós: também pedem ajuda e oferecem ajuda.

Diante dessa mistura de culturas, protocolos e julgamentos vão ficando esquecidos, pois estamos todas no mesmo barco. E ser autêntico é uma questão de necessidade, uma vez que queremos que conheçam a nossa verdade e não a sua suposição. Somos todas mães que tem que dar conta do dia a dia com filhos, com trabalho, com  supermercado, com médicos, com trânsito, com atrasos, com hora marcada. E isso faz toda a diferença no “como” conviver.

Quando pedem ajuda sinto-me tão feliz de ter conquistado a confiança daquela mãe em tão pouco tempo que quando me ajudam, penso na sorte que também tenho.  É muito bom poder ajudar e ser ajudado. Isso é construir a cada dia o conteúdo da nossa vida.

O mais difícil é vir para casa sem amigos ou ficarmos sem ir ao parque. E isso raramente acontece.

Essa semana uma mãe me pediu para buscar sua filha na quinta- feira. Como me sinto? Uma mãe-criança! Essa mãe me dá a oportunidade de dar ainda mais valor a cada dia dentro destes cinco anos da minha menina. Será mais um dia que a minha filha terá uma amiguinha em casa; será mais um dia que eu vou poder ajudar a uma mãe e, principalmente, será mais um dia que darei conta da minha importância na vida dos demais.  Na verdade me sinto mais ajudada que na posição de quem oferece ajuda.

Precisamos disso na vida, de preencher a vida dos demais e também sermos preenchidos pelas vidas de outros.

Eu não tinha essa vivência de sentir tão útil na vida de outros. Na vida daquela mãe que depende da sua ajuda, você é fundamental para ela. Como algumas de nós somos estrangeiras, não temos a família por perto e a necessidade de apoio espirra na maternidade mais próxima.

Hoje  questiono muito o que é ter a família por perto na esperança de “apoio”.  Em nenhum outro momento da minha vida  senti mais ajudada que agora. Parece que família vem com cara de ajuda né!E na verdade, muitas vezes, são os amigos que tem mais cara de ajuda.

Aqui tenho descoberto isso. A ajuda que vem de um amigo pode ser muito mais espontânea que a ajuda que vem de um familiar.  Dentro da família esperamos que os avós, os tios, os primos nos ofereçam ajuda e a partir daí tudo se complica um pouco quando entra as nossas expectativas na condição de ajudados. Aqui, que expectativa tenho? Tudo que vem é de graça, sem obrigações,  sem crenças. Por isso são frutíferas, sinceras e sem protocolos.

Outro dia tinha uma amiguinha aqui em casa e na hora de ir embora a mãe me ligou para falar que o seu outro filho tinha dormido e não tinha com quem deixá-lo e se eu podia trazer a filha dela. A sinceridade, a simplicidade em dizer a verdade e de se colocar no lugar de, apenas, uma mãe permitiu que eu olhasse para os meus próprios julgamentos como a mãe que sou. Como nos exigimos tanto! Na cabeça dela não passou o que eu iria achar dela e sei lá mais o que, apenas passou em compartilhar comigo que precisava de MAIS uma ajuda.

Entre parque, tênis e filhos, uma outra atitude que me causa muita admiração é ver a simplicidade com que se converte o dia dia das mães. O tênis, o casaco de frio, o cachecol tem a mesma cara, quase, sempre. A vaidade realmente não está na busca do olhar de fora, mas sim com os próprios critérios. As crianças na escola não tem uniforme, mas as mães “sim”! É a mesma roupa todo dia, ou quase todo dia. Agora me coloco a pensar, que durante os dois meses de frio, quase todos os dias estou com o mesmo casaco e a mesma bota. Acho que só mudo o cabelo de acordo com o meu humor. O resto segue bem parecido com o dia anterior. Por que é assim? Sei lá. Porque é mais cômodo, não aperta e não pega mal.

Aqui não pega mal mesmo. E as mães que vêm de bicicleta buscar os filhos? Saem do trabalho, pegam a bicicleta e vêm. E chegam com a cara de vento e com a roupa de ontem, muitas vezes.

Tem de tudo: saltos, tênis e botas. Casacos, blazer e moletom. Mas, acima de tudo, tem a simplicidade que é praticamente unânime.

E não estou falando de uma escola “alternativa” não… É uma escola de bairro, com vida de bairro.

Vamos vivendo, vamos aprendendo e vamos descobrindo que podemos nos amar mais.

Aqui tem sido uma porta aberta dentro do caminho para dentro. Essas mulheres me enchem de admiração, de esperança, de parceria, de mães com cara do cotidiano.

São apenas mães esperando por seus filhos e que precisam também de ajuda.